Papel Cult

Nobat – Disco Arranhado (2012)

nobat

Existe algo de muito errado com boa parte do indie rock atual, e isso já acontece há bastante tempo não só em nichos da nossa música independente, mas também da internacional. Algumas bandas e músicos parecem estagnados no tempo a cultivar uma cena saturada que, de tão impregnada, em alguns momentos não conseguimos distinguir quem é quem tamanha a paridade musical de seus adeptos. Tá certo que não é novidade alguma que a cena independente internacional que fervilhou no início dos anos 2000 conseguiu inflenciar meio mundo de bandas que ainda vemos brotar dos mais diversos lugares, talvez a música não presenciasse algo tão arrebatador e motivacional desde o grunge sujo e cru de Seattle.

Contudo, diferente do motim criativo que foi a cena capitaneada por Kurt Cobain e cia, que reviveu bandas do cenário indie com uma roupagem apática a prevalecer o forte ideal de contracultura que o movimento pregava, opondo-se a cena mainstream despretensiosa da época, o revival que ganhou popularidade por conta de bandas como The Strokes e The Libertines não possuía esse espírito de ruptura e revolta. A pegar carona nas influências que o grunge também desfrutava, essas bandas unicamente reviveram algo que já encontrava-se vivo e meio que… deixado de herança, só que sem um verdadeiro sentido intrínseco, existencial, algo além-música, quase como um retrato ideológico da cena glam/hard tão combatido pelo grunge, chega a ser até mesmo contraditório, mas isso já é assunto pra outra resenha ou artigo, voltemos ao que interessa.

No Brasil, os barbudos do Los Hermanos, também influenciados pelo alarde indie rock dos anos 2000, ditaram o som de toda uma geração com Ventura e o seu Bloco do Eu Sozinho, ambos regados aos já tradicionais samba-rock e bossa-nova da nossa famigerada MPB. E é justamente aí que eu gostaria de chegar. Se na terra do Tio Sam, The Strokes e cia disseminaram uma bomba-relógio que, futuramente, iria explodir e resultar em bandas tão indiferentes quanto insignificantes (The Kooks, Kings of Leon e afins), aqui em nossa pátria idolatrada Brasil, a coisa seria pior, bem pior. De Vanguart à Banda Mais Bonita da Cidade, de Moptop a Vivendo do Ócio, a lista é interminável de bandas parelhas e sem nenhum tipo de personalidade; Nobat, com o seu Disco Arranhado, também figura essa lista interminável de covers corriqueiros de boteco que não aguentamos mais escutar.

O disco abre de forma cômica numa auto ironia – não propositada, acredito – com sua faixa-título, evocando uma repetição que já se encontra propriamente na sonoridade do álbum, um autoflagelo que me fez despertar risadas sinceras na segunda vez que escutei o disco. Em “Sem Roupa”, Nobat não se preocupa em soar como um Barão Vermelho brega com seus grunhidos de dor de barriga em cada refrão repetido, sendo essa a única faixa que foge da sonoridade indie batida, entoando algo semelhante ao movimento BRock, porém não menos vergonhoso.

Em “Eu Não Sei o Que é Viver” presenciamos pérolas que facilmente poderíamos encontrar em qualquer livro de autoajuda de sebo de esquina: “Eu sou assim, acho que sempre fui eu. Nunca procurei saber”, “Minha vida é uma novela de alguém que não sou eu” – canta o Caio Fernando Abreu/Clarice Lispector de twitter. Mas é com “Maurício” e “Ancorar”, respectivamente terceira e quarta faixas do disco, que Nobat atinge o seu ápice vexaminoso, o apogeu da geração Malhação-Coca-Cola ao relembrar a fase medonha que foi o curto período Rick Bonadio dos Los Hermanos; ou, em sua pior conjuntura, uma versão burlesca do LS Jack. Juro que em alguns momentos esperei por berros desesperados de “Ô CARLAAAAAA!!!”, uma pena não ter acontecido, pois certamente seria engraçado e animaria um pouco um disco tão insosso.

Depois dessa gratuita surra sonora, o disco arranhado de Nobat tenta emplacar riffs melosos e grudentos, típicos da cena indie 2000, até o término de um álbum completamente esquecível, que se perde na sua previsível insignificância. Provavelmente vai ter algum ser da era musical paleolítica para consumir esse produto mal passado e sem sal. Mas… sei lá, vai ver foi mesmo só o disco que arranhou.

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Publicado às 15/12/2012 por em Música, Resenhas e marcado , .
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