Papel Cult

Sigh – In Somniphobia (2012)

sighimg

Antes de tudo, é bom advertir que In Somniphobia assusta, um dos álbuns mais extravagantes de 2012 pode, sim, estarrecer sobre uma concepção hedonista e repleta de adrenalina com o seu semblante babélico, contudo, também pode incitar compreensivos sentimentos de repulsa e ojeriza aos mais meticulosos. In Somniphobia provoca, fomenta, causa discórdia. In Somniphobia incita qualquer tipo de sensação, afeição, aversão, tudo! Menos indiferença. Existe o grupo dos unânimes, dos questionáveis e dos indiferentes, In Somniphobia certamente encontra-se nos dois primeiros, menos no último. Formado em 1989, o Sigh nunca foi musicalmente comedido, desde o seu primeiro disco – Scorn Defeat (1993) – o grupo já demonstrava a sua falta de enquadramento, ainda que sobre os dogmas primitivos do black metal, o álbum mais enraizado da banda já sustenta um aspecto exótico e curioso.

Defeat por vezes passa uma feição de zombaria velada, porém inteligente, sem nunca desabar no puro escárnio descompromissado, algo que o The Darkness faz muito bem – exceto em Hot Cakes (2012) -, logicamente sem o âmbito experimental, com o resgate simplista e divertido à enésima potência do hard rock dos anos oitenta, e o que os texanos do Butthole Surfers também fizeram – e ainda fazem – ao conglomerar a (con)fusão punk-noise-psicodélica em pequenos clássicos esquecidos como Psychic… Powerless… Another Man’s Sac (1984), ou até mesmo o mais recente e famigerado Weird Revolution (2001). In Somniphobia possui todas essas características e adjetivos, ao mesmo tempo em que brinca com os excessos de cada gênero do heavy metal, os japoneses do Sigh sabem reger milimetricamente cada solo exuberante de guitarra, cada gutural dilacerante e distinto de qualquer outro já escutado, um vocal primitivo como os demais, porém consciente e, por mais absurdo que possa parecer: um vocal limpo e regrado.

Cada interlude suspende e liga perfeitamente essa história de terror transcendental, como em um conto de Stephen King, cada faixa de In Somniphobia vai se arquitetando e tomando conta de nossa imaginação, criamos o ambiente, nos inserimos nele e só saímos depois de alguns sustos – e risos. Phobia certamente é o melhor representante atual dos “Filmes B de luxo” que temos no mundo da música. Não é Roger Corman, não é Ed Wood. É o trash mais apurado possível, do exploitation mainstream de um Evil Dead musicado, de um Hellraiser ao horror de Argento e Carpenter. Como nos clássicos de Sam Raimi e Clive Barker, In Somniphobia é trash sem perder a sua elegância, da fusão dos solos de guitarra com os inusitados solos de saxofone, In Somniphobia é uma surpresa a cada nova faixa, a cada nova audição. Uma jornada imensurável. Phobia escancara as cortinas do seu espetáculo e já nos mostra a que veio: a tragédia é o primeiro ato. Conforme os dramas de Almodóvar, em seu instante preliminar somos erroneamente levados ao feliz engano da obviedade, conhecemos um clímax falso. “Purgatorium” é assim, já nos arrebata com solos e mais solos incessantes, orquestrações, vocais rasgados: exageros e mais exageros.

Mas já? É isso? Há a frustração inicial, ou a atenção adquirida em sua gênese? Tudo ilusório! Esse não é o prato principal. Já na segunda faixa a fábula onírica do Sigh se encorpa e conhecemos o verdadeiro pesadelo por trás de In Somniphobia: “The Transfiguration Fear”. Infâmia ou não, cabe a ela essa transfiguração do medo no álbum, a excentricidade do grupo é exposta quando, em sua metade, solos de saxofone e guitarra se entrelaçam em um inferno sonoro contagiante. Pronto, é o ponto de partida de um pesadelo que a cada passo fica mais sedutor. Pop como o Thriller de Michael Jackson, em “Opening Theme: Lucid Nightmare” uma voz à lá Vincent Price dessa vez não dá o ultimato, e sim o prólogo dessa quimera Rocky Horror Picture Show.

“L’Excommunication à Minuit” fica encarregado de reviver os órgãos e teclados moog do The Edgar Winter Group, o lirismo sombrio e fantasioso de H. P. Lovecraft e Edgar Allan Poe musicados pelos Blue Öyster Cult também são exaltados em “L’Excommunication”. Mas todo o conteúdo de In Somniphobia basicamente se sintetiza em “Amnesia”, a obra-prima do disco, o seu ponto máximo é, também, a perfeita representação da banda em conseguir compor tanto um regimento digno de um disco do Iron Maiden e Metallica, quanto um dos incansáveis experimentos de Frank Zappa e Captain Beefheart. Power metal e black metal misturados com smooth jazz, chiptunes, melodias ocidentais, gaitas de fole, acordeões, música concreta… In Somniphobia assusta! Sim, pode ser um susto involuntário e repugnante para alguns, mas a sua experiência é inegavelmente indelével, como um pesadelo em que você acorda suado e desorientado, sem saber mesmo se já acordou ou ainda está dormindo.

4 comentários em “Sigh – In Somniphobia (2012)

  1. Adriel
    17/05/2013

    Concordo com você, Amnesia é a obra-prima do album, apesar do album em si já ser uma obra-prima.

    • Ramon Duarte
      19/05/2013

      Exato, por isso mesmo o coloquei como um dos melhores discos de 2012. E obrigado pelo comentário, Adriel.

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Publicado às 15/12/2012 por em Música, Resenhas e marcado , , .
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