Papel Cult

Yuichiro Fujimoto – Speaks Melodies (2012)

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A música sempre foi um enigma pra mim, um gigante e confuso mito digno do quebra-cabeça da Esfinge de Édipo Rei. Afinal, o que é música? O que pode ser considerado música? Como uma mera combinação de sons pode despertar em alguém uma quantidade infinita de sentimentos? Da felicidade hegemônica à tristeza mais letárgica, dos mais diversos questionamentos ao completo niilismo pensativo. Diante desse drama cabalístico, gosto de encarar a música como um modelo falho de arte, para mim a música não é de uma plenitude rente como o cinema ou o teatro, há lacunas nela e esses lapsos são histórias que, felizmente ou não, deixam de se contar sozinhas para o regimento de um interlocutor, no caso o ouvinte. É sempre necessário um regedor para o que seria a prática decorosa desse exercício tão agradável.

Conforme na literatura, a música é uma arte mútua de assistido e assistente, antes de qualquer ato primário é preciso incluí-la em um contexto ilusório. Na empatia de, diante do inevitável relativismo cultural, conseguir suprir aquele conteúdo artístico que clama por auxílio interpretativo, ainda que essa acepção seja a mais simplória ou heterogênea possível e mesmo que o relativo – como já exposto – seja irremediável, essa hermenêutica musical é igualmente necessária para a difusão de um conceito que no fim sabemos que não chega a lugar algum. Em meio a uma dúvida aparentemente interminável sobre a arte, a música em sua essência epistemológica seria a única realmente válida? Existe a arte em seu âmago criativo, independente de qualquer outro fator exterior? Foi nesse interrogatório confuso e isolado que eu me encontrei ao escutar pela primeira vez Speaks Melodies, quarto disco do ainda desconhecido músico japonês Yuichiro Fujimoto. Speaks Melodies não é um disco de melodias pré-fabricadas, e é curioso que – ainda sob o abismo do erro interpretativo e relativo – eu possa dizer que não há um real conceito por de trás dele.

A síntese musical de Speaks Melodies pode ser inexistente como um estalar involuntário de dedos, um assobio quase que automático ou um batucar de pernas a acompanhar um ritmo imagético que criamos em nossa mente; contudo, o que sabemos é que, se não há um conceito em Speaks Melodies, podemos concluir que há, então, um “não-conceito” existente em sua concepção. Yuichiro Fujimoto, em um árduo embate incoerente, se utiliza do habitual e do mundano para criar melodias esquecidas pelos nossos ouvidos na rotina do dia a dia, ao mesmo tempo em que não se utiliza desse habitual para tal feitio. A música de Fujimoto é uma arte onipresente, a arte que é normalmente descaracterizada e ludibriada pelas demais.

Aos passos de um John Cage, Yuichiro Fujimoto dialoga musicalmente com o cotidiano, a sua música é, antes de tudo, palpável, concreta, ela está em todo lugar: Fluxus. Fujimoto cria cada melodia como um cineasta que rege cada enquadramento, cada plano de seu filme. Speaks Melodies é a música em sua gênese, a melodia em seu esplendor de criatividade ainda fresco e virginal. Ao longo de todo o álbum a sua improvisação e sons recordam – para traçar um parâmetro nacional – a essência da música livre de Hermeto Pascoal, possibilitam ao ouvinte inúmeras histórias a cada nova audição, é possível – e necessário – contemplar cada estilhaço dessa imensa carga emocional que Speaks Melodies sustenta com tamanha magnitude. É raro encontrar algo, assim, de valor quase que imensurável.

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Publicado às 03/01/2013 por em Música, Resenhas e marcado , , .
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