Papel Cult

Devendra Banhart – Mala (2013)

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Nota: 5.4

Apadrinhado por Michael Gira, principal mentor e vocalista do Swans, Devendra Banhart – que é texano de nascimento, porém venezuelano de criação – traça um curioso paralelo com outro músico que foi igualmente “descoberto” por um ícone da música: me refiro a Tom Zé, esse que por sua vez foi (re)descoberto – é bom essa ressalva – internacionalmente por David Byrne, vocalista do Talking Heads, que definitivamente o consagrou mundo afora quando Zé encontrava-se esquecido nacionalmente e aquele blá blá blá todo que acredito que todos já sabem. Enfim, diferente do músico baiano que foi uma das mentes mais criativas não só da tropicália e que ainda continua em plena forma com os seus quase 80 anos de experimento e bom humor, Tropicália Lixo Lógico é a prova concreta disso; Devendra, embora criativo em sua gênese sobre o conteúdo primal de Charles C. Leary, não possuía – obviamente – tamanha bagagem inventiva como a de Tom Zé.

Banhart, em seu invento, aparentava uma obra pouco trabalhada, porém de uma qualidade inebriante. Sobre a estética lo-fi rústica de Charles C. Leary, Devendra nos mostrava um músico despreocupado com o plástico, o aprumado, suas melodias eram estranhamente curiosas e cativantes, sempre com vocais e construções exóticas a fundir sem nenhum pudor a sua veia latina psicodélica à música folk tradicional norte americana. Devendra era, até então, sem limites para a criação. E continuou assim até o músico lançar o seu segundo álbum – voltemos a Michael Gira – pela Young God Records, selo independente de Gira, fazendo com que Banhart recebesse maior atenção com  Oh Me Oh My…, o que foi basicamente um apanhado de seu primeiro disco estendido à excentricidade extravagante de uma “Nice People” e a simplicidade semi-progressiva de “Cosmos and Demos“, essa última uma espécie de trilha western psicodélica incrivelmente hipnótica e sedutora.

Embora sem nunca desvencilhar de suas referências, que sempre foram nitidamente bem mais latinas do que qualquer outra coisa, a sua obra passeia constantemente por ritmos nativos: salsa, cumbia, merengue… até por conta do seu vasto contato com a Venezuela, Devendra Banhart aos poucos foi perdendo o seu título de – por que não? – líder de um renascimento do freak folk, algo completamente cabível a sua popularidade entre os demais representantes, para se transformar em um modelo sem muito a oferecer – abdicou até mesmo de sua imagem – adeus hippie barbudo, bem-vindo indie boy NME – para assumir uma postura de aparentemente desinteresse com o que ajudou a construir e disseminar. Matriz da New Weird America, cena musical justamente responsável por revitalizar o folk psicodélico, Devendra foi de figura inusitada que buscava inspiração nos renegados e marginais – Vashti Bunyan certamente foi o melhor presente requentado que ele nos deu – a uma personalidade que gradativamente adquire uma feição cafona. 

Se nos seus primeiros discos Banhart sabia dosar muito bem esse seu espírito latino malemolente em canções nada vergonhosas, pelo contrário, todas incrivelmente sofisticadas e muito bem regidas por um músico que ainda parecia ciente do ridículo iminente – “Todo Los Dolores”, “Santa Maria de Feira” são exemplos positivos -, o mesmo infelizmente não se repete em Mala – “Mi Negrita” é um exemplo negativo -, o seu mais recente álbum transfigura um Devendra Banhart que talvez todos esperavam existir. Em poucos momentos Mala insinua o músico profano de outrora, o flerte com a música eletrônica em “Your Fine Petting Duck” é um desses momentos que equilibram o disco. Porém, o que vemos então? A casca ou o teor fidedigno de Devendra? Prefiro acreditar que seja a casca, pois a obra, essa, em sua maioria, é superior ao regedor. Em recente entrevista à Pitchfork, Banhart foi perguntado sobre a economia de composição em Mala, algo realmente evidente e que incomoda no disco. Em sua resposta, citou a poesia japonesa e o breve poema do escritor brasileiro Oswald de Andrade, poema que possui somente uma palavra: “Amor” é o título, “Humor” é o poema.

O único porém é que, esse minimalismo exposto por Devendra na entrevista, na prática não consegue se sustentar solidamente conforme os cochichos de um João Gilberto em Chega de Saudade, ou na sucintez emocional de I Could Live in Hope, diferente dos exemplos que citei, o minimalismo de Mala transcende as palavras e toma conta monotonamente de quase todo o disco, Devendra parece ter tanto a dizer em sua concepção globalizada e poliglota – agora, além do inglês e espanhol, temos alemão – que no fim se comunica apenas com ele mesmo tamanha a inexpressão e inconsistência melódica do álbum.

Curioso notar que a faixa mais abarcante e atmosférica do disco, “The Ballad of Keenan Milton“, é completamente instrumental, pouco adiantou o laconismo comunicativo em contraponto com o intercâmbio linguístico do seu álbum: no fim, o nada teve muito mais a dizer do que o seu discurso integral. Mala me parece mais um disco inócuo que poderia ser de qualquer outra bandinha ok indie folk. Talvez, fora de todo aquele retrato pintado de outsider, existisse um músico convencional, um outro Devendra Banhart escondido no rapaz mulambo e de barba comprida, um músico sem nada a dizer. Pois é isso que escutamos em Mala – ou melhor, pouco escutamos.

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Publicado às 08/03/2013 por em Música, Resenhas e marcado , , .
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