Papel Cult

Wakusei Abnormal – Nandemonai Kyoki (2013)

Wakusei Abnormal 惑星アブノーマル - Nandemonai Kyoki 何でも無い凶器

Nota: 8.0

Difícil achar na internet algum texto (em inglês ou português) sobre o Wakusei Abnormal, passei algumas horas pesquisando e a única informação útil que descobri foi que, a princípio, o que imaginava ser uma grandiosa banda de j-pop/rock, na verdade trata-se de um simples duo de meninas – e que esse Nandemonai Kyoki é o EP de estreia delas. Ok, convenhamos que não são lá informações das mais interessantes e instrutivas, porém foi algo que de imediato me impressionou. Não pelo fato da nacionalidade das duas garotas e, sim, por se tratar de um duo. A minha primeira reação foi de espanto, estranhamento: como duas pessoas podem criar um som tão esquisito, mesmo que dentro do eixo comercial (não só do j-pop) e ainda com uma leve tendência experimental?

Dos curiosos manifestos de reggae em “Furare Uta” – segunda faixa do disco – intercalados com sintetizadores a criar um space rock completamente inusitado, Nandemonai Kyoki cativa instantaneamente, de súbita surpresa. A agressividade contrastante com os vocais delicados e agudos de “Tsukiyo Kaisuiyoku” lembra, em certos momentos, as meninas – já senhoras – do The 5.6.7.8’s e Shonen Knife; contudo, o arrebatamento do duo é bem menos simplório com intervalos de fúria garage punk apoiados em uma rispidez nivelada que toma conta da maior parte do disco. A exemplo dos também japoneses do Sigh, Nandemonai Kyoki sabe imergir o ouvinte nas melhores situações de furor e delicadeza do modo menos convencional possível, momentos esses precisamente interrompidos nas situações mais oportunas – o desfecho de “Kamisama Gokko” certamente é a mais marcante de todas. Tudo sem, em circunstância alguma, encaixarmos ou resumirmos a banda em um determinado nicho.

Tá certo que a música japonesa sempre se apropriou de nichos e, com suas dificuldades, foi sendo timidamente disseminada além de uma estreita e restrita camada musical – o japanoise e suas bandas barulhentas representam bem esse retrato de exclusão que involuntariamente os músicos nipônicos se aperfeiçoaram de modo inerte. Também é verdade que talvez nunca presenciamos uma ascensão tão dimensional do pop asiático quanto atualmente, enquanto o j-pop ainda aparentemente vive e sobrevive esquecido nesse senso comum do mundo restrito das trilhas, games e animes – me refiro obviamente em seu âmbito vulgar e popularesco, já que seria um afronte a brasões como a YMO, Keiji Haino, entre outros que ainda assim permanecem até hoje no limiar do underground – nem mesmo Yoko Ono é uma exceção.

Por outro lado, cada vez mais o k-pop surpreende os popistas de plantão com os seus charts da Billboard – a bíblia sagrada da música pop – ao disputar páreo a páreo com ícones até então imbatíveis nessa competição insaciável que é emplacar o maior número de hits de verão – que pifiamente, em sua maioria, morrerá no inverno. As bilhões de visualizações que Psy possui no Youtube podem, em seu mérito qualitativo, significar absolutamente nada – e não significam mesmo -, mas é inegável o impacto cultural, seja ruim ou não, o retrato de um momento curioso na música pop: os ícones não existem mais, pelo menos os atuais. Raros são os que sobrevivem do contraste entre o sucesso adjacente e o zeitgeist de 15 minutos.

Nos resta a constatação de que esse recente semeio global que vivenciamos da música pop pode, sim, ser nocivo a transformá-la gradativamente em um produto mecânico de validade tacanha, reduzir a música em algo minimamente comercial e que não vai além do seu valor ínfimo de mercadoria, o pobre custo de compra e venda, é de preocupar aqueles que exigem mais do que quantidade em qualquer manifestação artística. Contudo, todo esse mesmo aparato simplista de números pode nos proporciona maiores possibilidades de esbarrar com surpresas, surpresas boas como esse EP do Wakusei Abnormal, fruto da curiosa massificação da mediocridade, da equidade ofensiva dos valores qualitativos e quantitativos. Por isso fica aqui o meu sincero e surpreso obrigado.

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Publicado às 28/04/2013 por em Música, Recomendado, Resenhas e marcado , , , .
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