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Abu Lahab – Humid Limbs of the Torn… (2012)

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O que buscar na música? O que esperar de uma obra de arte? Para mim, essas são duas perguntas que não possuem respostas; respostas possuem, evidentemente, mas em sua maioria são refutações não definitivas que caem inevitavelmente em um abismo individualista interpretativo – mundo sensível. A princípio, o que procuro na música, ou em qualquer obra de arte, não reflete a concepção de terceiros; ainda que, de modo irremediável, tendemos a nos abster de qualquer purificação analítica a minimamente nos submeter a uma interpretação passiva e assistida de arte. Carregamos valores, experiências, preconceitos, dogmas (velados ou não), isso é inegável, o que não pode é haver sobreposição de mérito, vaidade analítica quando o intrínseco é inexistente no mundo físico. O conceito de bom e ruim, certo e errado, bonito e feio não são definitivos, são modeláveis de acordo com uma realidade, uma existência que prevalece em seu predomínio vigente e comum.

Por isso, busco entender a arte de acordo com o seu âmbito, com o que ela pede naquele domínio, me abstenho no que é possível da minha bagagem interpretativa – sim, um pedaço dela permanece, pois, como já disse anteriormente, é impossível omiti-la em um plano físico, suscetível etc. Precisei dela, por exemplo, para discorrer essa dissertação. O lícito está em aceitar a argumentação na não preconização de qualquer que seja a sua categoria, da mais simples a mais complexa, sem segmentação de superioridade e inferioridade intelectual, artística, enfim: a verdade inexiste na sua existência. Mesmo que, de modo involuntário, quando eu digo isso, esteja propondo uma outra “verdade” supostamente inquestionável, logo, ela é perfeitamente refutável. O pensar, sim, é a única fonte a priori, suas variantes que propõem o seu exercício, logo, podem ser estimadas, sem qualquer distinção de valor. Tentarei, mais um vez, me privar das certezas e mergulharei o corpo no relativismo, não diria inevitável, pois seria impor mais uma “verdade”, o que não é o caso. Afinal, não estamos no mundo das ideias.

Humid Limbs of the Torn Beadsman, mais recente disco do desconhecido marroquino por detrás do projeto Abu Lahab, igualmente propõe essa ruptura de raciocínio interpretativo que estabeleci no início da minha resenha; porém, evidentemente, no âmbito musical. Arriscaria dizer que, junto com o disco homônimo de 1999 do Paysage d’Hiver, Abu Lahab redefine os rumos do black metal com esse Humid Limbs, no caso de Lahab, em uma acepção bem mais abrangente que engloba não só o black metal, mas também a música experimental e até mesmo o rock progressivo. O que temos aqui é a condensação de todos, não diria excessos, e sim desnivelamentos que permeiam a música experimental, em particular o noise, dark ambient e o drone. Abu Lahab sintetiza essa falta de instabilidade sonora nos gêneros citados e resulta em uma obra matriz que pode ditar os rumos não só do metal extremo, temos aqui uma obra extremamente rica que mescla violência intercalada à sutileza, entretanto, do modo mais inconvencional possível.

Humid Limbs é um disco com uma fachada nada tradicional, apesar de aqui o black metal ser perfeitamente identificável, no entanto não existem os vocais habituais já tão batidos, há momentos em que as distorções assumem essa ausência dos vocais, dilacerando os nossos ouvidos a criar o clima mais aterrorizante do disco. Em seu prólogo, típico de uma obra prog-rock, Humid Limbs já demonstra uma certa excentricidade que intriga de imediato, a violência com que posteriormente é construída a base oscilante que esfacela o ouvinte faixa a faixa e transita entre o free improvisation e o milimetricamente arquitetado. O caos inúmeras vezes nos põe em um jogo sujo de resistência num ato quase de auto-flagelo, “Apathy Chord”, sexta faixa do disco, testa até o limite a capacidade do ouvinte para, ironicamente, agraciá-lo com dedilhados tímidos de violão que logo desaparecem para prevalecer novamente o caos da obra.

A sétima faixa do disco, “Cope with the Third Eye”, instaura o desconforto mais incomum do álbum, com um instrumental constante e hipnótico entre breakcore e drum and bass; ela te entorpece, dá um momento de descanso, mas é um sossego estranho que, gradativamente, toma uma feição paranoica. Somos covardemente magnetizados até o susto do corte brusco: “Thanatos Persists”. A última faixa do disco assume sem aviso prévio depois de já estarmos paralisados e dominados. Covarde esse Abu Lahab! Mesmo assim, como se uma injeção de adrenalina fosse novamente introjetada em nossas veias, o susto é sadicamente agradável, já fomos seduzidos pelo jogo, o medo não é mais um oponente e, sim,  um aliado. Entretanto, Abu Lahab, em contraposição a sua figura religiosa, nos pede desculpas e termina de forma branda, aparentemente se arrependeu de nos ter levado, junto com ele, para o inferno – mesmo que por alguns minutos, minutos que parecem séculos.

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3 comentários em “Abu Lahab – Humid Limbs of the Torn… (2012)

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Publicado às 01/06/2013 por em Música, Recomendado, Resenhas e marcado , , , , .
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