Papel Cult

Lista de meio do ano: 2013

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Eis a minha lista de meio de ano com os 10 discos que escutei, até então, e que de algum modo chamaram a minha atenção, ou me instigaram de alguma maneira. Todos os discos que constam na lista já estão presentes na minha lista final de melhores do ano; contudo, eles não estão necessariamente em ordem de preferência, alguns dos álbuns foram selecionados por detalhes. Portanto, esse não representa essencialmente o meu top 10 definitivo, mas parte dele, em suma: 10 discos que, no meu humilde entendimento, valem a sua audição neste ano de 2013.  Então é isso, fiquem com a lista.

FotoFlexer_Photo10Bemônio – Opscurum

Não é só da ceninha batida MPB-sambinha indie que vive a música brasileira, o cenário underground esconde grandes mentes da nossa música eletrônica e experimental. Paulo Caetano e Gustavo Matos dão vida ao projeto Bemônio que sobrepõe drone e noise a criar o dark ambient mais soturno possível. Com apenas uma música que, segundo a própria dupla, é dividida em nove interlúdios, o duo rege um freak show de extremos: não é completamente perdido nos experimentalismos doentios e tediosos de um harsh noise, porém sustenta de modo inteligente e regrado o mesmo desconforto, assim como consegue ser bem mais expansivo do que os trabalhos anteriores da dupla sem deixar sumir o desassombro de sempre. A faixa solitária convida, quase que obrigatoriamente, o ouvinte a ser igualmente sozinho nos seus 40 e poucos minutos de estupor, de inércia provocada pela inserção que o disco propõe e coage a vítima-ouvinte a acompanhar e mergulhar nesse pesadelo de gritos, distorções e escuridão.

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Steven Wilson – The Raven That Refused to Sing (And Other Stories)

Certamente Steven Wilson é o grande nome do rock progressivo atual, poucos captam tão bem como ele capta a essência pop e empírica do gênero. Há em Steven um espírito afetado e grandiloquente de um Roger Waters, porém há igualmente a engenhosidade de um Robert Fripp, os malabarismos instrumentais de Wilson não são gratuitos como em grande parte das bandas que tentam enveredar por um caminho mais “sério” e menos popularesco de um Muse da vida – e que na maioria das vezes acabam sendo só chatas mesmo, o prog-rock italiano sabe muito bem disso. Wilson se apropria com consciência de sua precisão, com sabedoria de sua competência enquanto instrumentista, não esbarra na própria vaidade, os minutos e mais minutos de cada faixa passam tão graciosamente que nem percebemos, é tudo muito bem arquitetado. Steven Wilson nos mostra cada vez mais o seu traquejo musical, a sua mente insaciável que vai além do Porcupine Tree, que se expande pelos seus inúmeros projetos paralelos e na sólida carreira solo. Isso sem contar que The Raven that Refused to Sing tem, disparado, uma das melhores faixas de abertura de um disco em 2013: “Luminol” é extasiante!

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Clouds – USB Islands

De imediato, é bom informar que o duo finlandês Clouds (Samuli Tanner e Tommi Liikka) já consegue uma proeza admirável nesse seu USB Islands: transformar a apatia entorpecedora do dubstep roots em algo minimamente interessante e converter os primórdios do que seria o famigerado brostep em uma experiência dançante que não causa preocupação por não deixar o ouvinte alienado e acéfalo, como também não vê razão em pertencer a autocracia da IDM. Aqui, Digital Mystikz e Horsepower Productions são revitalizados, elevados a uma nova experiência, não sobrevivem apenas de busto morto do pioneirismo. USB Islands trafega nos primórdios, mas com os pés firmes no presente e, ainda assim, ciente do futuro. As três primeiras faixas se encarregam de constituir justamente essa última afirmativa no melhor e mais apurado modo que possa consignar praticamente todo o disco. Os beats pesados entre bassline e grime dividem o tempo com orquestrações e samples incrivelmente bem distribuídos e organizados, o que ajuda a construir a atmosfera profunda e enevoada do álbum. Sem sombra de dúvidas a melhor exportação vinda na Finlândia nos últimos anos.

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Pere Ubu – The Lady From Shanghai

Há quem enxergue desvirtuamento ou até mesmo atrevimento por parte do Pere Ubu depois que a banda assumiu uma sonoridade mais habitual e menos, digamos… bem menos exótica. Pois eu vejo justamente o oposto, percebo um Pere Ubu, sim, nitidamente menos conceitual e mais “preocupado” (coloque muitas aspas nisso) em ser acessível; entretanto, também noto uma banda em contínuo processo de evolução, ciente da condição progressiva que a música possui. Muitas bandas morreram e morrem no tempo por conta disso, é animador notar esse sentimento e percepção de renovação que a banda adquiriu atualmente, é importante distinguir essa vontade, essa sede de aperfeiçoamento – por que não? – que o Pere Ubu vem demonstrando nos últimos anos, de estabelecer um firmamento entre o pop e o avant-garde. Como bem disse uma vez David Thomas: “Pere Ubu não é uma banda experimental, nós sabemos exatamente o que estamos fazendo.” E sabem mesmo, em The Lady From Shamghai eu tenho plena convicção disso, no melhor e mais surpreendente dos resultados.

FotoFlexer_Photo6Bardo Pond – Rise Above It All

Duas faixas, dois covers que não parecem e não se resumem a covers, duas diferentes e incríveis adaptações de Funkadelic e Pharoah Sanders: esse é o Rise Above It All. Bardo Pond transforma duas canções já conhecidas em uma deliciosa viagem jam instrumental, prolonga a vida de “Maggot Brain” em uma jornada psicodélica inebriante, mais de 21 minutos de alucinação e de miragem heavy psych, a faixa percorre um trajeto crescendo que gradativamente contagia e incita o ouvinte em um fluxo quase que narcótico. O solo de guitarra incessante e denso constrói, junto com a bateria igualmente espessa, uma atmosfera de relaxamento em meio ao clima cáustico que o disco assume numa espécie de post-rock desértico – e nisso a capa do álbum explicita muito bem a sensação de oásis iminente que o mesmo provoca. Caminhamos, somos seduzidos pela repetição dos solos de guitarra intercalados à doçura dos instrumentos de sopro que fulminam ainda mais a profundidade do disco. Uma viagem astral das mais formidáveis, disparado um dos melhores álbuns de música instrumental que você não pode deixar de escutar em 2013.

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Verwüstung – Tunnel Ghosts

Nos últimos anos o black metal tem sido o gênero musical que mais me surpreendeu positivamente, só no ano passado me deparei com clássicos modernos e discos extremamente instigantes. O descompromisso com o comercial e a ausência de limites que o gênero propõe, em sua concepção, é algo completamente saudável e que possibilita à música uma margem imensa de criatividade e liberdade sonora. Foi assim em In Somniphobia, na maluquice avant-garde pop da fábula onírica do Sigh, um dos álbuns mais extravagantes de 2012, um disco que soube atrelar muito bem o comercial e o experimental sem prevalecer hierarquicamente nenhuma das faces da moeda; o mesmo se repetiu no mundo escatológico e doentio de Abu Lahab em seu Humid Limbs of the Torn Beadsman, esse que para mim é disparado o melhor disco de 2012, assim como um dos álbuns mais importantes não só para o black metal atual, mas também para outras vertentes da música experimental e do heavy metal.

Tunnel Ghosts, debut do Verwüstung, projeto de um homem só (Chris Broyles), também figura nessa lista de surpresas proporcionadas pelo metal extremo. A diferença é que Verwüstung se apropria de uma raiz lo-fi, que já é característica da cena, para construir o seu conceito de black metal. Não é de estranhar a admiração que “Camellias In Bloom” causa pela sua placidez nos dedilhados de violão que abrem as portas na primeira faixa do disco, sensação bem semelhante aos violinos de “Welt aus Eis” do disco homônimo de 1999 do Paysage d’Hiver. É o encontro entre extremidades, o antagonismo de situações distintas, apesar de em Tunnel Ghosts a diferença ter lá os seus objetivos em comum; poucas vezes lo-fi e black metal fizeram uma dupla tão interessante.

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Wakusei Abnormal – Nandemonai Kyoki

Estamos constatando um recente semeio global e nocivo da música pop, um processo que pode transformá-la gradativamente em um produto mecânico de validade tacanha, que pode reduzi-la a algo minimamente comercial e que não vai além do seu valor ínfimo de mercadoria. Pois bem, Wakusei Abnormal é fruto dessa curiosa massificação da mediocridade, da equidade ofensiva dos valores qualitativos e quantitativos que a música pop estabeleceu no pós-modernismo de charts, visualizações e compartilhamentos da era digital, mas, por ventura, Wakusei é um fruto não contaminado. Números parecem importar mais no cenário atual, os ícones não existem mais, pelo menos os atuais, raros são os que sobrevivem do contraste entre o sucesso adjacente e o zeitgeist de 15 minutos, a música pop vira cada vez mais uma competição a sobrepor status à qualquer manifestação artística. 

O pop asiático ganhou o mundo, o mundo ganhou uma praga. Felizmente, Nandemonai Kyoki foge à regra em Nandemonai Kyoki por nos entregar uma obra sem a tontice e infantilidade dos seus conterrâneos do j-pop, há sobriedade em Nandemonai Kyoki, algo que parece atributo raro no nicho. As meninas do Nandemonai Kyoki – são um duo – merecem todos os elogios por acenderem uma faísca de lucidez não só no pop japonês, mas no pop asiático. Por isso, fica aqui a minha menção e o meu sincero e surpreso obrigado.

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Sir Kay – Two Cats

Existe pouca informação na internet sobre o Sir Kay, nem mesmo o seu nome verdadeiro (se é que Sir Kay é realmente o seu nome) consta em sua página no Bandcamp; o músico, com nome de filho adotivo do Rei Arthur, é mais um das ótimas crias que a internet nos possibilita encontrar pelos garimpos no mundo da música. Em sua breve descrição na parte de informação do Bandcamp, Sir Kay se diz constantemente à procura de sons que foram esquecidos, também podemos notar que Two Cats é o único álbum disponível para audição, o que nos leva a crer que seja o seu primeiro disco. Um dos fatos mais interessantes de Sir Kay é como ele confecciona as suas melodias, já na primeira faixa, a ótima “CWCIII”, podemos notar que há inicialmente um pequeno e curioso flerte com um esboço de jazz fusion, isso fica evidente na parte instrumental notável onde Kay surge como o grande mentor de tudo – algo que parece involuntário, já que o mesmo não menciona como referência em sua página. 

A bateria ágil e marcante se mistura com os vocais arrastados de Kay criando um semblante que, por vezes, insinua ser shoegaze, insinua ser trip hop, mas nunca o é, tudo funciona basicamente como acessório, com um detalhismo que beira o perfeccionismo. Kay abandona por um momento o centro da obra  para que ela encorpore elementos de música ambiente em “Even The Angels Never Seen God”, mas ele retorna e aos poucos o disco vai tomando uma feição slowcore, principalmente nos acordes simples de violão e guitarra, e igualmente na voz de Kay, que se mantem sempre sereno, distante, perdido e sozinho no caos urbano que vemos na capa do álbum. Kay não compartilha a sua tristeza, uma angústia seca e direta, um minimalismo sentimental que lembra os trabalhos do Low e do Red House Painters, dá mesma forma é notável a sensibilidade de um American Football, ainda que novamente não transpareça como influência direta. “Você é todos os dias para mim”, Kay repete somente isso durante os 3 minutos da sétima faixa do disco. Não sabemos o que é, não sabemos quem é, não sabemos por que ele está assim, mas sabemos que há algo, algo que faz despertar essa empatia automática diante do indecifrável.

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Dutch Uncles – Out of Touch in the Wild

Algumas das críticas negativas em torno desse mais recente disco do Dutch Uncles se apoiam no fato dele ser limpo e correto demais. Ora, que idiotice! Engraçado, pois justamente o que escuto em Out of Touch in the Wild é o oposto, Touch in the Wild está longe de ser apenas correto ou simples nessa concepção rasteira de trivialidade, o que noto no álbum está mais para uma obra excessivamente complexa em sua proposta art-pop refinada e elegante, cada melodia é de uma sofisticação que beira o monumental, o regimento, que ao longo do disco ganha ares de pop progressivo, parece vindo das ideias mais grandiloquentes e exuberantes de Peter Gabriel em seu ápice megalômano no Genesis e em carreira solo.

A produção é limpa, sim, mas não em seu sentido comum e pueril da palavra; afinal, onde está o habitual? Na semi-primazia de “Fester” e “Godboy”? A primeira com as suas incríveis orquestrações dançantes que não  deixam em momento algum o “refinado” e “elegante” assumirem um caráter esnobe ou sisudo demais, pois Out of Touch in the Wild também consegue ser comercial sem deixar de lado o apreço pela complexidade das melodias, essas que em certos momentos parecem orientais, em outros parecem africanas, como ocorrem lindamente em “Threads” sobre o regimento excêntrico de marimbas e xilofones. De uma coisa vocês podem ter certeza: Out of Touch in the Wild não é um disco simples, não mesmo! A não ser que a sua definição de simples seja completamente distinta da minha, pois para mim equivale muito bem a um dos álbuns mais asseados de 2013.

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Jamie Lidell – Jamie Lidell

Demorei um bom tempo pra notar a força desse mais recente álbum do Jamie Lidell, a princípio tinha caído no mesmo abismo interpretativo de muitos ao tratá-lo como mais um revival, mais um disco-homenagem que tanto presenciamos nesse ano: Random Access Memories, We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic e The 20/20 Experience são alguns dos exemplos do baile nostálgico que contaminou a música em 2013. Mas não, ele não é (só) isso. “Só” porque ele, sim, também funciona como um angariamento de inúmeros gêneros, ícones e períodos da história da música; no caso, em particular, o synth funk e a soul music dos anos 70/80. Mas esse disco homônimo do Lidell não se limita à emulação automática e ao reverencialismo desregrado e gratuito que a maioria desses discos-homenagem estabelecem de modo presunçoso, o álbum do Lidell é muito, mas muito mais forte do que isso.

Não gostaria de comparar, mas acredito que seja inevitável: Justin Timberlake, esse sim, com o seu enfado de poucos bons momentos, o The 20/20 Experience, como disse anteriormente, pertence ao grupo que citei. Diferente da tentativa de epopeia neo-soul que Justin propôs em 20/20, Lidell pouco está preocupado em soar grandioso em seu disco, o compromisso dele, inicialmente, é apenas entreter, não há faixas e mais faixas gigantescas e chatas que se perdem depois de um tempo, não há exibicionismo fastidioso; existe, sim, a distração de Lidell que involuntariamente pode soar presumido pelos exageros que o disco nutre de forma propositada.

Pois foi aí que me eclodiu a epifania de constatar a veemência de Lidell nesse seu álbum, o músico britânico traz para a atualidade os synth funk kitsch dos anos 70, ressuscita o Soul Train em pleno 2013. Entre toda a sensualidade funk ainda há espaço para o dark-jazz pop futurista de “why_ya_why” e os experimentos de Sun Ra que são condensados inteligentemente por Lidell. Não víamos um disco pop tão exagerado, e tão consciente dos seus excessos, desde os agudos estridentes e solos triunfantes de guitarra de Prince em Purple Rain, Lidell consegue traçar o meio termo entre o Prince alucinado em início de carreira, da breguice indecente que contagia na chuva púrpura ao Prince cerebral-estúpido-sério-visionário, e não menos divertido, de Sign o’ the Times. Uma façanha! Fico feliz por ter atinado pra isso a tempo, pois agora aplaudo de pé, Lidell. Meus parabéns!

2 comentários em “Lista de meio do ano: 2013

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Publicado em 01/07/2013 por em Listas, Música.
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