Papel Cult

[bleu] – Clara Altantsegtseg (2012)

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“Em minhas andanças pela cidade, ouvira uma ou outra vez, ao passar diante de uma capela das imediações, o som de um órgão, sem que me detivesse nunca a escutá-lo. Mas ao ouvi-lo outra vez, quando voltei a passar por aquele sítio, parei para escutá-lo e reconheci um coral de Bach. Aproximei-me da porta da capela, encontrei-a fechada, e, como passasse pouca gente por aquela ruazinha, sentei-me num marco da porta, fechei a gola do casaco e pus-me a escutar. O órgão, embora não muito potente, era bom e o organista tocava maravilhosamente, com uma personalíssima expressão de vontade e tenacidade, que soava como uma prece. […] Tecnicamente, não entendo muito de música, mas desde criança podia compreender, por instinto, essa expressão da alma e sentia em mim o gosto musical como algo natural e inato. 

O músico tocou em seguida uma obra moderna, creio que algo de Reger. A capela já estava quase às escuras, só um vago resplendor se filtrava através de uma das janelas. Esperei que a música terminasse e fui logo postar-me diante da capela para ver sair o organista. Era um homem jovem ainda, porém mais velho do que eu, de figura robusta e bem fornida, andando depressa e com passo firme e quase automático.

Depois disso voltei à capela em várias outras tardes, sentando-me junto à entrada ou passeando defronte à fachada. Certa vez encontrei a porta aberta e permaneci meia hora no interior solitário e frio, enquanto o organista tocava lá em cima, à plácida luz de um bico de gás. Na música que tocava eu não ouvia só ele. Parecia-me também que todas as peças executadas eram afins entre si, que todas elas estavam entremeadas numa secreta conexão. Tudo o que tocava era fiel, era fervente e piedoso; piedoso não como os beatos e clérigos, mas como os peregrinos e mendigos da Idade Média; piedoso como uma entrega plena a um sentimento do mundo, superior a todas as confissões. Os musicistas anteriores a Bach e os antigos italianos eram interpretados com perícia. E todos diziam o mesmo, e todos diziam aquilo que o organista também trazia em sua alma: nostalgia, intima apreensão do mundo e violenta separação dele, tensa atenção ardente aos movimentos da própria alma sombria, fervorosa entrega e profunda curiosidade pelo maravilhoso.

Uma tarde, segui dissimuladamente o organista, ao sair da capela, e o vi entrar numa taberna das imediações. Não pude conter-me e entrei após ele. Pela primeira vez pude observá-lo à vontade. Estava sentado a um canto, diante de um jarro de vinho, e conservava o chapéu de feltro negro e abas largas na cabeça. O rosto era tal qual o havia imaginado: feio e violento, inquisidor e obstinado, firme e voluntarioso, mas ao mesmo tempo, no lado da boca, suave e infantil. A virilidade e a força se concentravam nos olhos e na fronte, enquanto que a parte baixa do rosto era terna e como inacabada, imprecisa e débil. A barba, adolescente e indecisa, contrastava com a fronte e o olhar. O que mais me agradava eram os olhos, cheios de orgulho e de hostilidade.

Silenciosamente fui sentar-me a uma mesa frente à sua. Não havia ninguém mais na taberna. Ao dar com minha presença, olhou-me irritado, como se quisesse expulsar-me dali. Mas eu sustentei o olhar, até fazê-lo exclamar em tom rude:

— Por que estás me olhando desse modo? Queres algo de mim?
— Não, nada — respondi-lhe. — Ainda assim, o senhor já me deu muito. Franziu a testa.

— Ah! és amante da música? Acho uma tolice o amor pela música. Sem deixar-me intimidar, repliquei:
— Tenho ouvido o senhor tocar muitas vezes na capela vizinha. Mas não desejo molestá-lo. Pensava encontrar no senhor algo, algo especial, não sei bem o quê. Mas o senhor não precisa importar-se comigo. Posso continuar ouvindo-o na capela.
— Fecho sempre a porta.

— Ainda há pouco o senhor se esqueceu, e estive lá dentro ouvindo-o tocar. Às vezes fico do lado de fora, sentado junto á porta.
— Ah! é? Da próxima vez podes entrar. Basta chamar-me à porta. Mas com força, e quando eu não estiver tocando. Agora vamos… dize-me o que querias. És muito jovem; provavelmente um colegial ou universitário. Estudas música?

— Não. Gosto de ouvi-la; mas só como esta que o senhor toca, música totalmente incondicionada, na qual se sente que o homem conjura o céu e o inferno. Creio que a música me agrada por sua completa ausência de moralidade. Todo o resto é moral, e procuro algo que não o seja. A moral nunca me trouxe nada que não fosse doloroso. Mas não consigo expressar-me corretamente…”

Esse pequeno fragmento de Demian, obra do escritor alemão Hermann Hesse, poderia falar e resumir tudo aquilo que notei e senti ao escutar Clara Altantsegtseg, segundo disco da banda francesa [bleu]; por isso, tentarei permanecer nele, me apropriarei de tamanha genialidade da obra-prima de Hesse para que possa buscar constatar o meu humilde raciocínio sobre o disco. Pois bem, o que mais me instigou ao ler essa fração de Demian foi notar o quão, à primeira instância, ela nos aparenta ser trivial na acepção que o livro tenta nos transferir. A princípio, o estilhaço de pensamento artístico de Hermann, exposto na personagem principal, parece apenas compor um papel secundário, uma linha aditiva para o real silogismo que o escritor alemão propõe no texto. Ledo engano! Tal passagem é ponto determinante para o entendimento do argumento de Hesse em Demian, o contexto – do qual o personagem principal (Emil Sinclair) se utiliza em sua fala – consegue sintetizar praticamente todo o conteúdo da obra. Não contarei a história do livro, mas os dramas existenciais, o questionamento acerca dos valores morais, do Estado, família e afins são todos compendiados ali, naquele instante, de modo simples e direto, em um diálogo aparentemente vulgar sobre a desmoralidade que – segundo Hermann-personagem – a música possui.

Outra obra, agora não literária, e sim cinematográfica, que igualmente explora esse espécime de resposta subconsciente/subitânea presente em Demian, seja prévia, tardia ou num contexto que beira o cotidiano, é o filme Gosto de Cereja (T’am e Guilass) do cineasta iraniano Abbas Kiarostami. Em um dos diálogos mais interessantes do longa, o personagem principal – um senhor de 50 anos (Sr. Badii) que viaja de carro durante quase todo o filme, com inúmeros passageiros diferentes, à procura de alguém que o auxilie no seu suicídio planejado, enterrando-o após o ato ser concretizado – é apresentado, por um dos seus passageiros, a uma curiosa anedota/parábola – parábola essa de um homem que vai ao médico pois diz estar com uma dor incansável no corpo:

“Um turco foi ao médico e disse: ‘Quando toco o meu pescoço dói, quando toco a minha cabeça dói, quando toco o meu corpo dói’. O médico respondeu: ‘Não tem nada de errado com o seu corpo, é seu dedo que está machucado’.”

Não fosse o rigor diretriz com que a piada atinge os mesmos sentimentos incompreendidos do personagem principal, que igualmente encontra-se  em oscilação caótica sobre a sua existência, sobre os seus empecilhos e dores, ainda que não saibamos o  real motivo de todo o seu motim sentimental, tudo ficaria à margem e passaria completamente desapercebido e  descontextualizado da narrativa do filme. Mas não, a resposta vem antes, pois na realidade não há resposta definitiva, há somente a certeza da agonia incompreendida do personagem, tanto de Kiarostami quanto de Hermann Hesse. Agonia também sobre a arte.

Assim como é a música, assim como agora se encontra a minha percepção, distinta, longe de qualquer mundanidade. Poderia, mais uma vez, ter me jogado em suposições de gêneros, em pessoalidades que se restringem a gostos, individualidades que, em tese, representam absolutamente nada – a não ser em seu campo propício, que não ultrapassa o próprio limite do particular e  rasteiro. E sim, certamente cairei novamente nesse tipo de perspectiva crítica, mas sempre com a certeza de suas limitações, pois, afinal, ela é uma alternativa, mas não a definitiva. Posso dizer que, depois de escutar Clara Altantsegtseg, me encontro como Emil Sinclair em Demian e como o Sr. Badii em Gosto de Cereja: estou sem rumo, sem saber o que pensar direito, dou opiniões de outrem como busca do meu próprio ponto de vista, esse que pode ser o mesmo de inúmeras pessoas – e certamente o é. Covardia, talvez? Não sei… provavelmente sim, no entanto, procurei algo distinto, fora do eixo em resposta a excentricidade congênere, uma saída incomum, pois tecnicamente não entendo muito de música – e de fato, ninguém entende. Ninguém, Emil. Mas a expressão da alma, essa sim é compreensível. Apenas procurava algo que não fosse moral, pois fico feliz de ter encontrado, mesmo que agora também não consiga me expressar corretamente… e há como? Acho que não, tenho certeza que não.

“— Por que estás me olhando desse modo? Queres algo de mim?
— Não, nada — respondi-lhe. — Ainda assim, o senhor já me deu muito.”

Digo o mesmo.

3 comentários em “[bleu] – Clara Altantsegtseg (2012)

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Publicado às 22/07/2013 por em Música, Recomendado, Resenhas e marcado , , , , .
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