Papel Cult

Recomendado: [bleu]

artworks-000039610167-xfl7sd-original

Faz pouco tempo que terminei de ler Os Prazeres e os Dias, uma coleção de contos e poemas de Marcel Proust, obra escrita ainda na época de juventude do então desconhecido escritor francês. Não tenho muito contato com a obra de Proust,  lembro de ter lido apenas o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, isso nos meus primeiros anos de faculdade, também me recordo de pecaminosamente não ter dado devida atenção à gênese do enorme conjunto de novelas que Proust conferiu vida de modo magistral durante toda a sua existência. Notei que cometi um grave desacerto justamente agora, ao ler Os Prazeres e os Dias, mais especificamente quando terminei O Mar, um dos contos da coleção. Uma narrativa efêmera, sem rodeios, mas precisa no contraste entre a sua leveza e a visceralidade da análise existencial e simbólica que Marcel concede ao mar: um mergulho, um afogamento, um soco seguido de afago. Também tem pouco tempo que conheci essa banda francesa chamada [bleu] – bleu que, em francês, significa azul. Azul como o mar de Proust.

marcel-proust

“O mar há de fascinar sempre aqueles nos quais o desprazer da vida e a atração do mistério já ultrapassaram os primeiros aborrecimentos, como um pressentimento da insuficiência da realidade em satisfazê-los. O mar há de consolar, há de exaltar vagamente os que têm necessidade de repouso antes de experimentarem algum cansaço.

O mar não traz, como a terra, vestígios dos trabalhos dos homens e da vida humana. Nada o habita, nada passa por ele a não ser de modo fugaz, e, dos barcos que o atravessam, como se desfaz rápido o sulco! Daí essa grande pureza do mar inexistente nas coisas terrestres. E essa água virgem é bem mais delicada que a terra endurecida que precisa de uma picareta para ser cortada.”

É desse modo que Proust nos apresenta o mar: cordialmente, com tratamento exacerbado e elogioso imergido nas primeiras linhas úmidas de seu conto, passagens molhadas de desânimo, um relato um tanto pessimista acerca do mundano, mas esperançoso em relação ao caráter de conforto, quase que divino, que o escritor atribui ao mar. Do mesmo modo, a banda [bleu] nos acalanta de qualquer angústia terrena, nos presenteia com a sensação de anonimato, de isolamento ao passo que ficamos inertes no náufrago transcendental de cômodos e incômodos, de descanso e inquietação que se (con)fundem nas ondulações de timbres, ruídos, distorções, falas… enquanto a prolixidade labiríntica de Proust está nas palavras, a de [bleu] está no som das palavras: um pandemônio sedutor e ameaçante, como um mar em fúria que esbraveja por horas e horas até se cansar e voltar à placidez de uma criança que se cansa de chorar, como se nada tivesse ocorrido, desavergonhada na sua violência solitária, na cólera das ondas que só enaltecem o seu vistoso balé  disfarçado de zanga.

truffaut2

Inúmeras vezes já tentei exteriorizar na escrita o que escutei, vi e senti, seja qual for o modelo de arte, mas poucas vezes me pareceu tão hermético expor em palavras o que presencio aqui, talvez porque não haja o que ser dito e, sim, estimado – no melhor do que o senso comum pode oferecer, sem qualquer vergonha ou objeção. Conforme a mesma dubiedade que o mar, dissimulado, nutre um falso nirvana em sua aparente placidez, essa que pode, em fração de segundos, virar caos. Tudo aqui é acaso, é incerteza; e é essa certeza da incerteza que faz tudo ter o seu devido valor, uma virtude de  não saber o que esperar, o traço peculiar da não obviedade.

“O mar possui o encanto das coisas que não se calam à noite, que são para nossa vida inquieta uma licença de dormir, uma promessa de que nada se extinguirá, como a lamparina das criancinhas que se sentem menos sós quando ela brilha. Não está separado do céu como a terra, está sempre em harmonia com suas cores, sensibiliza-se com suas nuanças mais delicadas. Rebrilha sob o sol e a cada tardinha parece morrer com ele. […] Ele refresca nossa imaginação porque não faz pensar na vida dos homens, mas alegra nossa alma pois esta é, como ele, aspiração infinita e impotente, ímpeto permanentemente cortado de quedas, queixa eterna e suave.

Encanta-nos como a música, que não carrega, como a linguagem, o vestígio das coisas, não nos diz nada dos homens, mas imita os movimentos de nossa alma. Nosso coração, impulsionando-se com suas ondas, caindo com elas, esquece dessa maneira suas próprias fraquezas e se consola numa harmonia íntima entre sua tristeza e a tristeza do mar, que confunde seu destino com o das ondas.”

Proust pronuncia as suas últimas palavras, traça de modo inteligente uma linha de pensamento entre a música e o mar, entre as ondas marítimas e as sonoras, essas que nunca se encontram, que nunca são as mesmas, pois não há como se banhar duas vezes no mesmo rio. Aqui, a música pode ser tudo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 15/08/2013 por em Música, Recomendado e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: