Papel Cult

Entrevista: [bleu]

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Em seu primeiro álbum de estúdio (o excelente Clara Altantsegtseg, que eu inclusive falei e recomendei aqui no blog), a banda francesa [bleu] desponta de vez como um dos nomes mais interessantes no cenário da música de vanguarda, incorporando elementos de rock progressivo, jazz e música minimalista, tudo de um modo incrivelmente instigante e singular.

Em entrevista concedida por e-mail, bati um papo quase que introdutório com uma das mentes (Emmanuel Vion-Dury) por detrás desse belo projeto, ainda desconhecido, e que precisa urgentemente ganhar os ouvidos daqueles que são aficionados por boa música nesse mundo afora. No mais, acho melhor deixar que ele mesmo apresente a banda e nos explique tudo nessa conversa que tivemos.

Papel Cult: Primeiramente, Emmanuel: como a [bleu] surgiu? Os integrantes já se conheciam antes da banda?

Emmanuel: A [bleu] é uma dupla, embora nossos caminhos tenham cruzado muita gente ao longo desse projeto que existe desde 2009. Na verdade, nós dois tivemos experiências musicais diferentes, tentativas mais ou menos frutuosas de fazer música em banda, mas nada de muito concreto. Paralelamente a isso, nós nos conhecemos via um fórum musical, na época pra montar um projeto experimental que no fim nunca aconteceu – pelo menos não como o havíamos conceitualizado num primeiro momento, embora nós morássemos a apenas 80km de distância um do outro. Apesar de tudo, nós mantivemos contato, conversamos, trocamos experiências e opiniões e um belo dia (4 anos mais tarde) nós decidimos finalmente nos encontrar, pra criar a [bleu]. No primeiro dia em que nos vimos, era pra gravar Sincère autopsie de la finesse. Em uma semana estava feito.

Papel Cult: No entanto, na página do grupo no Bandcamp, é possível ver que a banda é composta por mais pessoas, são quantas no total? Todos ajudam no processo de composição?

Emmanuel: Como eu te disse antes, a base da [bleu] é unicamente uma dupla. Mas como nós não sabemos tocar todos os instrumentos necessários pra atender às nossas vontades criativas, nos quisemos nos cercar e expandir nossos horizontes. Nós dois vivemos em esferas cheias de músicos, e não é difícil de cruzar e fazer contato com eles através de conhecidos diretos ou indiretos.

E não houve um processo claro e estabelecido pra cada um. Cada encontro foi diferente e nós deixamos o acaso fazer o seu papel. Algumas vezes completamente espontâneo e imprevisto, outras vezes velhas gravações que ainda não haviam sido utilizadas, porque nos pareciam interessantes em um lugar preciso, e evidentemente algumas partições. Mas na maioria das vezes nos quisemos utilizar a personalidade e a criatividade de cada um, e disso saíram maravilhas, é um pedaço deixado ao acaso porque nós não podemos controlar as improvisações de cada um, e eu acredito que nós utilizamos ao menos um elemento gravado de cada pessoa que nós encontramos.

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Papel Cult: Na descrição do site da [bleu] também consta uma dupla nacionalidade para o projeto, qual a relação de vocês com a França e a Suíça?

Emmanuel: Simplesmente eu sou francês e o Gilles é suíço. Mas na verdade nós dois temos nossas origens em regiões que são uma do lado da outra, e tendo morado em uma região de montanha meio longe de tudo, a Suíça e Genève foram particularmente pra mim a maneira de me aproximar da música, de músicas inovadoras, e é, entre outros, graças a isso que eu me abri tanto ao mundo, porque, na verdade, embora esses dois países se encontrem, existe uma grande diferença cultural, e é uma oportunidade muito interessante a aproveitar quando você é jovem.

Papel Cult: Vocês acham complicado definir o som da banda? Se encaixariam em algum gênero específico?

Emmanuel: A minha resposta te parecerá provavelmente conveniente, mas eu não acho que seja necessário nos definir artisticamente. Nós estamos longe de brigas entre grupos de estilos diferentes, e nós utilizamos suficientemente de influências pra dizer que só aproveitamos uma delas.

“[…] não acho que seja necessário nos definir artisticamente. Nós estamos longe de brigas entre grupos de estilos diferentes […]”

Dito isto, aqui, nos dão a etiqueta de post-rock, provavelmente pelo lado etéreo e estético que nós gostamos de desenvolver.

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Papel Cult: A capa do Clara Altantsegtseg é muito bonita e a princípio chama bastante a atenção. Ela tem algum significado especial para a banda? Vocês sabem quem fez a arte da capa?

Obrigado! Nós também gostamos muito dessa capa. Na verdade nós a realizamos a dois, é uma foto tirada pelo Gilles que eu retoquei pra dar um pouco mais de calor de melancolia. Ela tem exatamente esse lado surrealista e abstrato que nós gostaríamos de desenvolver em Clara Altantsegtseg, com um dimensão claramente feminina e sutil.

Papel Cult: A maioria das músicas do álbum tem o francês como idioma principal, o que acham de bandas que deixam de cantar no seu idioma para conseguir maior destaque no mercado da música? Mesmo sendo uma banda quase que somente instrumental, vocês veem algum problema em assumir outra língua no processo de composição de um álbum?

Emmanuel: É estranho que você faça essa pergunta, porque é um problema pra nós de alguma forma, e para o próximo disco nós trabalhamos em cima disso particularmente. Uma constatação se impõe infelizmente: nós cantamos um pior que o outro… E nós encontramos poucos bons cantores, fora num registro mais lírico. Então, dado a isso, nós temos pouco de canto tipicamente rock nos nosso álbuns. Sendo assim, isso nos encorajou a desenvolver todas as possibilidades que pode apresentar a voz, e você pode ver o resultado claramente em Clara Altantsegtseg, em vários momentos diferentes. A voz (cantada, falada, eletronicamente transformada) é empregada aqui como um instrumento, uma textura sonora, sem nunca tomar o lugar de um “fundo instrumental”.

Sobre os textos, não querendo cair numa música a textos, o engajamento a uma ou várias causas vãs, na reclamação interminável ou qualquer outro parasita da música, nos desenvolvemos a nossa ideia do abstrato e do surrealismo até os nossos textos, 90% em francês, como você disse (mas nós temos também um pouco de alemão, polonês, japonês). Eles são normalmente escritos em escrita automática ou semi-automática, ou por outros processos, sempre estruturados musicalmente, como um haïku que se teria armado de um vestido gramatical, digamos.

“Nós não compomos pra ter mais ou menos visibilidade artística, nós compomos pra criar uma obra e compartilhá-la com quem quiser ouvi-la, nada além disso.”

Enfim, fugi um pouco do assunto. Pra nós, não existe fronteira artística, elemento tabu, excluído. Se um dia nós encontrarmos um cantor excelente numa língua que é completamente desconhecida e que o que ela traz nos interessa, então nós trabalharemos com ele. Nós não compomos pra ter mais ou menos visibilidade artística, nós compomos pra criar uma obra e compartilhá-la com quem quiser ouvi-la, nada além disso. Então com o que os outros fazem, eu te confesso que a gente não se importa muito, melhor pra eles se eles são felizes com o que eles fazem, nós somos com o que nós fazemos.

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Papel Cult: Clara Altantsegtseg é um disco bastante complexo, tanto musicalmente quanto em suas letras e títulos das canções. Existe algum conceito por detrás do mais recente disco de vocês?

Emmanuel: Claro que existe um conceito! Em regras gerais, e muito além da [bleu], são as vanguardas e as obras não miméticas, poderosas e originais que nos agradam. Bom, depois são as obras expressionistas e antes de tudo o surrealismo e a arte abstrata em todas as suas formas que nos tocam. Isso é uma influência considerável pra nossa música, e é muito interessante pra nós de pensar na maneira de transformar a música em abstrata e surrealista, porque na verdade ela é a única arte que produz na sua essência uma obra abstrata e realista, enquanto as outras artes precisam se transformar e sofrer uma metamorfose pra chegar a esses estados.

“Nosso álbum é uma pessoa, que vive, que sofre e que se maravilha. Uma presença forte.”

Nós partimos dessa ideia para o Clara Altantsegtseg, e nós pensamos muito na maneira de tornar a música abstrata e realista, não esquecendo de manter a sua beleza. Depois de muito trabalho, nós conseguimos realmente criar um personagem. Nosso álbum é uma pessoa, que vive, que sofre e que se maravilha. Uma presença forte. Nós não criamos esse personagem exatamente assim, mas porque nós trabalhamos muito em cima disso, nós chegamos a esse resultado. Então nós quisemos dar um nome a esse disco, como pra um humano. Evidentemente, como você pode notar, nós o criamos surrealista. E nos era muito importante dar um nome feminino, porque esse disco nos parecia feminino por várias razões.

Papel Cult: Como vocês lidam com as influências musicais? E outros modelos de arte, como cinema e literatura, também influenciam nos trabalhos da [bleu]? Quais são as principais influências que vocês possuem?

Emmanuel: Como eu te disse na minha outra reposta, nós nos interessamos pelas vanguardas naturalmente, e depois cada um com seus gostos pessoais, como pelo expressionismo, a abstração e o surrealismo. Nós dois somos loucos por cinema e literatura, e nós fazemos muitas trocas sobre isso, sem falar é claro da música. Depois disso, não há uma ou algumas influências que se sobressaiam, é um gigante mosaico de tudo o que nós podemos assimilar e que ressurge quando nós começamos a criar, é bem inconsciente, no fim.

Papel Cult: Como funciona o cenário underground e independente da música francesa? Vocês recebem algum tipo de apoio da mídia? Existem festivais voltados para a cena?

Emmanuel: Na França nós temos, como em todo lugar eu imagino, a nossa cena independente. Ela é essencialmente composta de bandas com glórias mais ou menos efêmeras, que se contentam de imitar os grandes exemplos americanos e ingleses. Mas como em todo lugar, eu imagino também, existem alguns projetos que valem a pena, e que se apossam de verdadeiros propósitos artísticos, e isso em todos os níveis de notoriedade, tanto nos mais conhecidos quanto nos menos conhecidos. Mas tudo isso é muito fechado.

“[…] tudo funciona por modas, e se você não se encaixa em tal classificação (o nosso caso), a mídia não se interessa por você, e consequentemente o público também não.”

A França vive se vangloriando de ter um sistema cultural único no mundo, o que é provavelmente verdade, mas ele acaba completamente com as diferenças e a criatividade. Os maiores tomam conta da visibilidade, e com a chegada da internet e a música-em-todo-lugar-o-tempo-todo, eles conseguem produzir artistas cada vez menos interessantes. E contrariamente a outros países europeus, a abertura de espírito das pessoas foi completamente assassinada. Felizmente, existem pessoas que lutam, como em todo lugar, e que apoiam as cenas menores, e é o que faz muita gente ficar aqui. Mas é muito complicado, tudo funciona por modas, e se você não se encaixa em tal classificação (o nosso caso), a mídia não se interessa por você, e consequentemente o público também não.

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Papel Cult: O som que vocês fazem é popular na França e na Suiça? O que acham da música pop nesses países?

Emmanuel: Nossa música não é popular em lugar nenhum, na verdade. Ela requer muito tempo pra ser assimilada, e não é isso que as pessoas procuram. Mas particularmente na França, como eu te disse, as pessoas são muito fechadas e isso é complicado. Nós fomos muito melhor recebidos na Suíça e na Alemanha, por exemplo, e as pessoas se dispuseram mais a “perder” o tempo da descoberta.

“Nossa música não é popular em lugar nenhum, na verdade. Ela requer muito tempo pra ser assimilada, e não é isso que as pessoas procuram.”

Na França o pop é bem formatado, bem clássico. Existe uma tradição da “variedade francesa”, que ainda vai perdurar um bom tempo. Na Suíça é mais engraçado. A música que você vê na TV vem totalmente do folclore tradicional, e isso tem como resultado coisas bem rudes e rurais que são motivo de chacota pra todo mundo, mas isso também dá muito lugar pra diversidade.

Papel Cult: Conhecem algo da música brasileira? Se sim: isso de algum modo afetou no processo de composição do Clara Altantsegtseg?

Emmanuel: Não muito, pra ser honesto. Eu gosto muito de bossa nova e da dimensão social que tiveram o tropicalismo e nomes como Gilberto Gil, Gal Costa e Caetano Veloso, mas a verdade é que aqui pouca gente conhece realmente sobre esse campo preciso, e é difícil de realmente se documentar.

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Papel Cult: Já tocaram fora da França ou pensam em tocar?

Emmanuel: Nós estivemos na Suíça e na Alemanha, mas onde quer que nos queiram e que seja possível materialmente, nós iremos! Então, o Brasil também!

Papel Cult: A banda já possui dois álbuns lançados, mesmo com o recente Clara Altantsegtseg lançado agora em 2013, existe a hipótese de um novo disco?

Emmanuel: Com certeza, nós estamos em plena composição do novo álbum e nós já temos várias músicas bem estruturadas.

Papel Cult: Vocês acham que a sonoridade da banda modificou muito desde o primeiro disco? Pensam em adotar novas influências e sons de gêneros diferentes para os futuros trabalhos do grupo?

Emmanuel: Sim, com certeza! Para o primeiro disco nós trabalhamos apenas uma única semana, e Clara Altantsegtseg demorou 3 anos pra ser finalizada. Então tudo é mais trabalhado, mais complexo em Clara. Sincère Autopsie de la Finesse era mais uma demo e uma tentativa, Clara Altantsegtseg é o desenvolvimento do que a [bleu] queria dizer desde o começo, um pouco mais complexo e atormentado.

“Clara Altantsegtseg é o desenvolvimento do que a [bleu] queria dizer desde o começo, um pouco mais complexo e atormentado. Agora nós somos mais livres.”

Agora nós somos mais livres. Eu acho que no próximo álbum o nosso propósito ficará mais simples, sempre mantendo a nossa identidade. Clara nos exigiu muito e nós queremos algo mais simples.

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Papel Cult: O que estão escutando ultimamente? Não precisa ser algo novo, mas também poderiam indicar uma banda francesa ou suíça da cena que vocês fazem parte?

Emmanuel: Eu tenho escutado pouca coisa de música francesa. Eu te recomendo, no entanto, o último álbum de Gangpol und Mit (Ipecac Recordings) que se chama The 1000 Softcore Tourist People Club. É de alguma maneira meio parecido com a nossa música, no sentido em que é completamente livre e imprevisível.

Na Suíça, um lançamento recente e inacreditável é o disco de Cortez, Phoebus, que é uma pérola de super violência regada de desespero e de fúria (se você gosta de hardcore e screamo). Além disso, fora da França, eu tenho escutado de novo toda a obra do Cardiacs, que é uma das minhas banda preferidas de todos os tempos. Também, o novo Kayo Dot parece excelente, e o Tim Hecker, Ben Frost também.

Papel Cult: Emmanuel, agradeço a você e a todos da banda [bleu] por conceder essa entrevista, para terminar: deixem uma mensagem, site, rede social… tudo para que o pessoal que acompanha o blog possa conhecer melhor o ótimo trabalho da banda.

Emmanuel: Sou eu que agradeço de ter nos encontrado daí do Brasil, é inacreditável! Eu lembro apenas que nós compartilhamos gratuitamente a nossa música no nosso site, e que não há razões pra não ir escutá-la.

2 comentários em “Entrevista: [bleu]

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Publicado às 21/09/2013 por em Entrevistas, Música e marcado , , .
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