Papel Cult

Momoiro Clover Z – 5th Dimension (2013)

photojpopedit

Nos últimos anos grande parte do hype atribuido, não só ao j-pop, mas ao pop asiático como um todo, deve-se basicamente ao seu fator aculturativo de modelo ocidentalizado que o gênero se propôs a representar de forma quase que arremedadora, sendo essa representação, em particular, do pop mainstream norte americano. Ok que isso não é novidade para ninguém e que atualmente o pop asiático tem ganhado muito mais atenção do que a sua real fonte poética e inspiradora – justamente por essa apropriação um tanto alienativa. Quem me acompanha no 4 Track já deve saber que acho um afronte tal condição essencialmente subordinada de arte, que limita qualquer índice de transgressão artístico-cultural da música nipônica e oriental em uma deliberação de caráter expanso-mercatório que, qualquer um com o mínimo discernimento artístico, sabe que não tem significado algum no seu âmbito de análise crítica, ao menos quanto ao seu valor fora da dimensão técnica e industrial.

Também já expliquei que tal atitude não é nociva quando o encorpo canibalesco de culturas não assume a práxis meramente expositiva do antropofagismo de comportamentos e manifestos, dessa absorção por simples absorção; quando isso acontece, o resultado da obra tem que se sair superior ao regente e não uma paródia banal e mal feita do seu arquétipo espelhado, logo que abordado sem meio para contraposição ou fuga dessa representatividade cega, a obra deve tentar manter ao máximo as características do modo mais fidedigno possível, ou justaposta à esfera cultural da qual ela pertence, criando assim um enlace ou agrupamento democrático, o que a meu ver é preferível e que ocorre muito bem nesse álbum das meninas do Momoiro Clover Z, em uma fusão de música eletrônica coetânea com o rock corrente e megalômano de estádio .

5th Dimension se aproveita da explosão já saturada que o brostep sofreu nos últimos anos, acrescenta à pretensão do pop rock de vitrine, aquele que vende – simultaneamente – imagem e som, para olhos e ouvidos sedentos por exageros e espalhafatos, e busca incorporar esse ensejo de espetáculo, no contexto da música nipônica tradicional – obviamente mais contida -, junto à maquiagem do pop ocidental mainstream que, como já exposto, é a fonte dessa troca heterogênea à procura da homogeneidade cultural presente no álbum. A introdução sinfônica já escancara uma obra ambiciosa, mas que a princípio não parece estar muito preocupada exclusivamente com tal ostensão, na verdade 5th Dimension expõe a mesma ridicularia paródica que predomina em grande parte do j-pop/k-pop habitual, a diferença – como dito anteriormente – está na execução, essa que é convincente e nos faz mergulhar no mundo ficcional que as meninas vendem de modo contagiante em um universo cyberpunk contraditoriamente colorido, mas que caminha nesse paradoxo por também gerar um impacto que assusta.

Na maior parte do tempo as canções são cantadas em harmonia por todas as integrantes da banda, isso de modo frenético e pestilento – em sua melhor definição da palavra -, como líderes de torcida de um time de futebol americano no ano de, sei lá, 3500 pós Terceira Guerra Mundial ocasionada por uma rebelião das máquinas – o que soa involuntariamente irônico, ridículo e… incrível! Assim como o humor despretensioso do quinteto com clipes que lembram os programas enlatados – mas não menos divertidos – de super heróis japoneses, o que também fica evidente na imagem que as garotas assumem na banda. Volta e meia, nas últimas faixas do disco – para ser mais específico -, o grupo deixa de lado um pouco toda a festividade multicolorida e nos brinda com toques de sutilezas como, por exemplo, o inesperado manifesto de blues enka em “Soratobu! Ozashiki Ressha”, um blues enka mas que excentricamente não é enka no meio de todo o turbilhão de guitarras dançantes e instrumentos de sopro, teclados e outras infinitudes interrompidas por uma voz de fundo semi-robótica que corta a faixa gradativamente. Em resumo: uma viagem, a décima primeira faixa é um susto de abrir um enorme sorriso no rosto, um dos melhores momentos do disco.

A mesma alegria se repete na excelente “Saraba, Itoshiki Kanashimitachi yo”, aqui o êxtase bombástico se instaura já instantaneamente nos riffs de guitarra que regem a introdução e se alastram de modo contagioso até o meio da faixa, esse o momento em que a surpresa novamente assume o papel de destaque no álbum com um solo bizarro de órgão fúnebre-festivo que, logo em seguida, se misturam com beats industriais mergulhados na já bagunça irresistível do brostep, e o mais incrível é que essa anarquia de gêneros, culturas e modelos artísticos distintos acabam encontrando o seu lugar-comum justamente nas diferenças, do pop cotidiano que ganha suplementos pelo requinte mirabolante e espalhafatoso que o álbum equilibra sem aposição de gêneros ou algo semelhante, todos estão na mesma caldeira e fervem na mesma temperatura. Depois de todo o espetáculo explosivo e da overdose sonora de cada faixa do álbum, as meninas do Momoiro Clover Z terminam o disco de modo solene com uma canção acústica tradicional e fazem de 5th Dimension uma projeção moderna do Ryūkōka, isso em sua acepção mais literal possível.

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Publicado às 30/09/2013 por em Música, Resenhas e marcado , , , .
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