Papel Cult

Drops Review: Bill Callahan, Nvblado e Ultrademon

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Nvblado – Afogado (2013)

Regido por um quarteto de catarinenses de Balneário Camboriú, o Nvblado faz de Afogado – primeiro EP da banda – uma boa mistura de post-hardcore e post-rock, mais precisamente com quase dois pés no screamo. O vocal, furioso, cessa em certos momentos do disco para estabelecer um contraste interessante entre o desespero e raiva gritantes e o clima etéreo e ameno criado na atmosfera instrumental que a banda propõe tão bem durante as faixas mais longas do álbum, sendo justamente esses momentos, mais solenes, o grande ápice criativo que o quarteto nutre em Afogado. O disco por vezes também instaura uma sensação estranhamente sedutora de desconforto semelhante a provocada pelo monumental Slint com a sua influente obra-prima Spiderland. Por mais que o lirismo da banda, em certos momentos, transpareça uma inocência e infantilidade involuntariamente cômicas, assim como igualmente cria uma atmosfera dramática estereotipada e mergulhada no pior do que o senso comum pode oferecer – o desfecho prenunciado sintetiza bem isso -, Afogado ainda assim consegue contornar todos esses empecilhos subjetivos e entregar uma obra densa de fúria adolescente, por vezes um tanto vulgar e pueril demais, ok, mas não menos sensitiva e sincera. 

Ultrademon – Seapunk (2013)

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seapunk, assim como a maioria dos movimentos e gêneros (?) surgidos da internet para a internet, se firmou inicialmente como uma piada. E convenhamos, a imagem adotada pelos adeptos do movimento já não ajuda(va) muito com o seu ar involuntário de zombaria e falta de noção do ridículo em roupas e acessórios que mais parecem vindos do submundo aquático da Pequena Sereia, enfim… cada qual tem o seu espelho estético e não cabe a mim o julgamento do que é belo, feio… o que seja. Modas e tendências à parte, coloquemos a música no eixo. O seapunk caiu rapidamente no ostracismo sob a cruel sentença da efemeridade memética que a internet possui – ele não teve, por exemplo, a mesma sorte que o seu contemporâneo vaporwave, esse que vigora até hoje e que volta e meia rende bons resultados sob uma condição, digamos… apassivadora de arte.

Pois bem… me vem, agora, em 2013, Albert Redwine, mais conhecido como Ultrademon ou o grande-mentor-líder-desse-manifesto-digito-cultural-esquecido-pela-própria-internet, tentar retornar e reviver o seu projeto musical submarino com o que parece – até então – ser a obra mór do seapunk – o que pela falta de concorrência não deixa de ser mesmo. Numa mistureba eletrônica quase kitsch de sons que mais parecem trilha sonora de videogames 8 e 16-bits, Ultrademon cria uma obra divertida, despretensiosa e que consegue despertar um fio de lucidez no que antes era visto apenas como chacota, traz para o cenário central o videogame/computer music, esse que é tratado com apatia por boa parte da crítica musical e com pouca ambição até mesmo pelas bandas e artistas da cena: leia chiptune e seus derivados. Seapunk – o álbum – vem para tentar dar voz ao seapunk movimento, não sei se será ouvido, provavelmente não, mas arrisco dizer que, agora, dá para começar a acreditar em sua proposta.

Bill Callahan – Dream River (2013)

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Bill Callahan tomou para si uma figura curiosa desde que deixou de lado a alcunha Smog, gradativamente o músico foi se tornando um ser recluso em sua própria introspecção artística e pessoal, deixou de lado toda a experimentalidade rústica e lo-fi de sua gênese para, aos poucos, assumir uma espécie de símbolo folk-country pop tradicional nos moldes de um Hank Williams contemporâneo, mas que faz questão de viver em um passado próprio. Em Dream River, Bill continua nessa mesma concepção de passado no presente com uma obra que poderia facilmente figurar no melhor catálogo dos principais nomes da cena da música caipira norte-americana; no entanto, ao mesmo tempo em que o disco possui uma beleza plástica encantadora com a sua placidez distante e intocável, Bill diminui cada vez mais qualquer ímpeto de transgressão artística que era cerne enquanto Bill Smog. Sua obra se dilui a cada novo álbum, quando isso ocorre é necessário ganhar por catarse, nem que seja pelo melodrama arrebatador e covarde. Pois aqui pouco acontece isso, a purificação está apenas na imagem, na plasticidade indiferente e no aspecto limpo do seu som que, sim, ainda encanta, ainda é belo, mas pouco instiga no seu corretismo quase parnasiano, estranhamente como uma obra abstrata que deveria provocar, mas não provoca.

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Publicado às 07/10/2013 por em Drops Review, Música, Resenhas e marcado , , , , , .
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