Papel Cult

Recomendado: Empty Desert Blues Band

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Parafraseando a descrição que se encontra na página do grupo no Bandcamp, o Empty Desert Blues Band parece mesmo um projeto longe de qualquer limitação artística. “Biorhythm”, ou em bom português “biorritmo”, é como descompromissadamente definem o gênero da banda no site. Na psicologia, biorritmo é o nome atribuído aos períodos cíclicos que o corpo humano possui e que podem influenciar – entre outras coisas – na força física, coordenação motora, estabilidade mental, pensamento lógico e no aprendizado. Pois aí que entra o fator interessante nesse que, aparentemente, trata-se do segundo álbum de estúdio do grupo. Russian Hieroglyphics também se apropria da mesma concepção cíclica psicológica em sua estrutura musical minimalista e quase que mecânica. No mesmo modelo rotativo que ocorre no corpo humano, as extensas faixas de Hieroglyphics estabelecem uma consonância de vocais e instrumentações repetitivas que criam um ritual ambient inefável, com melodias orientais e africanas difusas no campo celeste que o disco constrói – através da sua uniformidade fixadora – em um plano musical inerte e hipnótico, esse que o grupo vasculha até a sua escassez na resultância de um ensaio experimental estranhamente psicótico.

Novamente no âmbito da psicologia, são quatro os ciclos conhecidos do biorritmo: físico, emocional, intelectual e instintivo. Cada um possui o seu tempo de duração e correspondência de acordo com esse período de tempo, todos passam por um momento positivo e negativo que vai do máximo rendimento até o seu decréscimo gradativo. Por exemplo, na parte emocional temos a criatividade, a estabilidade mental e a sensibilidade emocional, todos fatores que no biorritmo podem atingir o seu ponto extremo e, aos poucos, ir perdendo o seu encorpo valorativo. No intelectual, temos a habilidade para aprender, pensamento analítico, lógica e memória, novamente correspondentes que, de acordo com a marca limite de seu fator crítico ou semi-crítico, acaba por resultar na sua perda inspiradora ou de produção. É possível estabelecer em Russian Hieroglyphics algumas correspondências semelhantes as que figuram no biorritmo da psicologia, certas faixas instauram uma monotonia sonora que incita o ciclo físico do ouvinte, que provoca a sua disposição e resistência diante daquela pressão harmônica incessante numa mistura de prazer e angústia que parece não ter fim.

Nessa situação, o ciclo instintivo assume a pragmática do álbum para um melhor proveito da percepção inconsciente que ele propõe, sob uma correspondência instintiva e não-vítima de reflexão, Russian Hieroglyphics acaba ganhando um corpo artístico e intelectual maior do que o exposto à primeira instância, da mera purificação através da música pela música, antes de qualquer análise ou julgamento explanativo – algo que também presenciei no belíssimo Clara Altantsegtseg da banda [bleu]. Difícil conceber esse estado de nirvana natural e puro, livre de catarse falsa ou subordinações artísticas semelhantes, pois em Russian Hieroglyphics Band é evidente isso em seu plano hieróglifo particular, no despimento da contraposição meramente superficial e na real fonte de encantamento e sublimação, como se o ciclo do biorritmo nunca abandonasse a sua fase positiva.

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Publicado às 13/10/2013 por em Música, Recomendado e marcado , , , , .
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