Papel Cult

Omar Souleyman – Wenu Wenu (2013)

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“Eu sou sírio e só se fala sobre este homem por aqui! Falam que, as pessoas que vivem na Europa e nos Estados Unidos, realmente gostam de sua música. Esta é uma tradição muito antiga da nossa música local – na Síria e no mundo árabe, para falar a verdade. É a música dos beduínos no deserto. Eu não escuto esse tipo de música, nem mesmo a população da Síria ouve isso. Estou surpreso que as pessoas no oeste admiram esse cara! Realmente não me importo, apenas estou surpreso!”

O que vocês acabaram de ler – em uma tradução livre – trata-se do comentário de um usuário do Youtube, chamado modarXmodar, para o vídeo de divulgação da faixa-título de Wenu Wenu. Resolvi iniciar o texto com esse comentário pois foi um tanto curioso e inesperado, para mim, a reação que tive ao ler esse relato que – de modo evidente – corresponde à real vivência expositiva sócio-cultural de um sírio sobre os valores contemporâneos que a música islâmica adquiriu ao longo do tempo – e, óbvio, como isso se relaciona com a apropriação/aceitação da música de Omar Souleyman em um mercado extremamente segmentado e seletivo como o do ocidente. Alguns meses atrás escrevi sobre “Wenu Wenu” para o site 4 Track, comentei como a apropriação cultural feita por Four Tet – produtor do disco – era condizente e respeitosa com os valores tradicionais da música árabe, reproduzo aqui um trecho das minhas próprias palavras:

“Four Tet faz muito bem isso em não tratar a faixa – e Omar – com atitude penosa de estrangeirismo e excentricidade artística -, até porque a cerne de “Wenu Wenu” é muito mais regionalista do que qualquer “cultura de massa” […]”.

Em suma, me referia ao fator canibalesco da arte que, agora ao ler esse comentário no Youtube, pude conferir o quão sutil e inteligente foi essa ocupação artística regida pelas mãos de Kieran Hebden. Traçando uma linha de pensamento com outras vertentes culturais mais regionalizadas, é possível notar como tal exploração, vista pela pequena fenda de uma porta analítica limitada, por olhos e ouvidos chamuscados de conhecimento turvo e distorcido, por mais que queira, não consegue reproduzir o real contexto do que pretende abordar de modo fidedigno. O relato sempre será às cegas, como um brasilianista que não faz a sua pesquisa devidamente instalado em território verde e amarelo, isso se colocarmos somente no âmbito nacional. É o caso, por exemplo, da MPB, que possui até hoje a mesma imagem estrangeira de outrora ainda sustentada no estandarte da tropicália e da bossa-nova, é cada vez mais a música, os valores, costumes e aparências estereotipados pela globalização e pelo pós-modernismo que, de modo contraditório, estabelece uma aproximação – tardia – de culturas distintas, que muitas vezes já passaram de sua vigência até mesmo em seu campo propício. Um aspecto estranho que sentencia retratos periódicos, e não-momentâneos, ainda que esses mesmos flashs culturais, fragmentados, não deixem de atribuir verdade no seu discurso aparentemente superficial e perdido no tempo.

A presença de Four Tet no álbum – e no meio dessa antinomia cultural pós-moderna – é algo que parece imperceptível tamanha concórdia entre o electropop ocidentalizado e o folclorismo do dabke que se instaura no disco, assim como a inteligente atitude de Tet em não querer tomar a obra de Omar completamente para si, assimilando a sua já excentricidade característica com a de Souleyman em uma atropelação psicodélica de ritmos festivos e contagiantes que, no entanto, também consegue ser perfeitamente nivelada com a mente maluca de Kieran, essa que é parte importante e igualmente essencial de Wenu Wenu. A sutileza na produção cria uma aliança completamente improvável da dance music costumeira, ocidental, de boate, com a tradicionalidade restrita de uma manifestação artística que é/era feita por peregrinos no deserto sírio (muita, mas muita ênfase nisso!), uma insanidade tão fora do comum que poucos botariam fé, mas que incrivelmente deu certo pela atribuição cuidadosa e certeira de Four Tet.

Wenu Wenu segue o processo inverso ao de artistas como Natacha Atlas, por exemplo, que faz da antropofagia um modelo ativo – e no seu caráter original – de apropriação a incrementar, à música árabe, culturas e afins, sobrepondo-as em um jogo de misturas que pode, entre outras consequências negativas – à primeira instância -, anular esse equilíbrio que é marca presente no álbum de Souleyman. Pois com Omar é diferente, assim como no ótimo Jazeera Nights de 2010, Wenu Wenu é, antes de tudo, uma viagem explorativa ao mundo da cultura islâmica, do folclore e das tradições árabes, esses já perdidos até mesmo – como dito anteriormente – no próprio habitat natural, mas que, por acaso, teve a felicidade de encontrar um excelente pesquisador londrino disposto a enxergar, no estranho, o revigor de uma manifestação artística que já parecia esquecida.

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Publicado às 15/10/2013 por em Música, Recomendado, Resenhas e marcado , , , , , , .
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