Papel Cult

O adeus de um gênio inconformado

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Uma vez comentei que o intuito do Velvet Underground era, unicamente, ao menos em sua gênese, reproduzir o que seria a experiência psicodélica nos anos 60, e que o fato do grupo influenciar meio mundo de bandas e músicos foi apenas um mera consequência dessa tentativa descompromissada – inclusive reproduzi isso ontem, aqui mesmo no blog, depois da triste notícia do falecimento de Lou Reed. Pois bem, relendo agora esse comentário eu vejo que não fui muito explícito na minha análise subjetiva do conjunto da obra dessa que, certamente, trata-se de uma das bandas, senão a banda mais influente de todos os tempos. Não retiraria o que foi dito, mas acrescentaria um pouco mais de palavras à minha sentença.

Lou Reed foi, antes de tudo, um niilista musical, o músico e mentor-ícone da música alternativa não se encaixava em nada, não seguia absolutamente nada, ou pelo menos não tinha tal ambição, ainda assim, de modo contraditório, acabou por firmar quase tudo que surgiu posteriormente ao icônico The Velvet Underground & Nico. Durante toda a sua trajetória artística, Reed fez o que bem entendeu, e fez quando achava adequado, para si próprio, pois ele era o centro de sua obra. Em uma espécie de fuga do psicodelismo hippie paz e amor que começava a reinar nos anos 60, tempos de Woodstock e pacifismo, Lou vinha justamente na contramão com a sua rajada de sombras e veracidade mundana, o músico queria expor o seu experimento, mas sob a visão escurecida e urbanista esquecida pelas bandas da época. Reed trouxe o baile narcótico para as ruas, para o corpo a corpo e o escancarou em pessimismo e vísceras existencialistas.

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Enquanto a maioria das bandas da época estava preocupada com um ethos festivo e quase impressionista da psicotropia, Lou Reed veio com o seu hedonismo expressionista e despudorado, seus álbuns exploravam a condição humana da forma mais imoral e libidinosa possível, mesmo em carreira solo esse seu semblante libertino nunca cessou, seus discos foram tudo, menos previsíveis. E é um tanto curioso notar que, antes de falecer, Reed explicitou esse seu desprendimento musical em um comentário sobre o álbum Yeezus do Kanye West – outro artista igualmente inconformado – para o site The Talk House, onde músicos assumem o papel de críticos e, obviamente, falam sobre música. Em certo momento do texto Lou Reed solta esse comentário:

“[…] eu nunca pensei em música como um desafio – você sempre imagina que o público é pelo menos tão inteligente quanto você é. Você pode fazer isso porque você gosta do seu público e acha que o que está fazendo é lindo. E se você pensa que é bonito, talvez eles também pensem que é bonito.

Quando eu fiz Metal Machine Music, o crítico John Rockwell, do New York Times, disse: “Este é realmente um desafio.” Eu nunca pensei nisso. Eu pensei “Puxa, se você gosta de guitarras, guitarra pura, do começo ao fim, em todas as suas variações. E se você não está preso a uma batida.” Isso é o que eu pensava. Não “eu vou desafiá-lo para ouvir algo que eu fiz.” […] Você faz coisas porque é o que você faz, e ama fazer isso.”

Lou cita o seu álbum mais controverso, Metal Machine Music, para expor o seu completo desprendimento artístico. Metal Machine, uma anarquia de guitarras distribuída em 4 faixas, todas com mais de 15 minutos e com praticamente o mesmo tempo de duração, alenta para um perfeccionismo musical evidente do líder do Velvet Underground, assim como transfigura a imagem que o músico sempre fez questão de ostentar, a de um artista inconformado e que nunca cessou mesmo quando o julgavam errado, algo que novamente se repetiu, antes de nos deixar, em parceria com o Metallica. Eu realmente não ficaria surpreso se, futuramente, Lulu se transformar em objeto de culto, mesmo hoje detestando o disco, pois a trajetória de Lou Reed evidencia tudo: desapego artístico, transgressão, inclusive dúvidas, muitas dúvidas. O seu percurso sempre foi complicado, o músico caminhou entre o questionar e ser questionado – muito mais questionado do que questionar, é verdade, mas na maioria das vezes estávamos errados. Muito errados.

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Lou Reed era um desacreditado, não via limite na música, por isso mesmo sentia-se livre para fazer o que quiser. Sujeito a críticas, fracassos (momentâneos ou não em seus fragmentos temporais), míseros elogios… A verdade é que Reed enxergava longe, muito longe, além do olhar de um músico profano, seu discernimento artístico era visionário até os últimos momentos de vida, do glam ao noise, do drone ao punk, tudo possui um resquício desse senhor que, como ele mesmo disse no texto sobre Yeezus, nunca pensou em desafiar ninguém, a não ser a si mesmo. Sem subestimar os poucos que acreditavam no ineditismo de sua gênese artística, Lou desafiou a todos nós inconscientemente, desafiou a música, desafiou a arte quando viu no reflexo, no narcisismo, o próprio desafio. Nós simplesmente compramos a sua ideia, assim como os poucos que formaram uma banda depois de comprar os míseros exemplares vendidos do Velvet & Nico.

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Reed e cia criaram um contraste ideológico que, para a época, causou espanto pela falta de pudor e autenticidade. Foram os regentes de uma rebeldia pessimista, erótica e descrente em um momento onde a aristocracia encontrava-se em decadência.  O Velvet Underground, um então vírus anômalo em um corpo sadio, expôs, sozinho, uma verdade diferente da que prevalecia, uma transparência que a princípio assustava. O cinismo e a subversividade do grupo instauraram o espírito do que a música independente seria futuramente, a essência da música livre de regimentos, podre e mal vista, rejeitada pelo normalismo fidalgo, palavras que Lou Reed sempre viu estampadas em sua retina suja, e que sempre as seguiu como uma sombra até o desfecho dessa sua maratona solitária e descrente, desse percurso ausente de qualquer limitação artística. Foi-se um gênio, poeticamente em uma manhã de domingo, o domingo mais triste de todos. Já sentimos saudade.

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Publicado às 28/10/2013 por em Artigos, Música e marcado , , .
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