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Dale Cooper Quartet and the Dictaphones – Quatorze Pièces de Menace (2013)

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Em uma das cenas mais memoráveis de Twin Peaks, ainda no início da famosa série dos anos 90 criada pelo cineasta David Lynch, Dale Cooper – um dos personagens principais da trama – está dormindo e começa a ter um estranho sonho no qual alguns detalhes importantes são revelados sobre a investigação da morte de Laura Palmer, personagem que é a cerne narrativa do suspense lynchiano. No sonho, o jovem Dale aparece com uma imagem mais envelhecida do que na vida real, Cooper se encontra em uma sala avermelhada e pequena, sentado de perfil em uma poltrona escura, logo mais descobrimos que Laura Palmer também está presente nessa sala. Enquanto isso, um anão, de aparência bizarríssima, denominado o Homem de Outro Lugar ou Man From Another Place, personagem interpretado magistralmente pelo ator Michael J. Anderson – uma típica criatura oriunda da mente insana de Lynch -, fica de costas para os dois, Laura e Cooper, enquanto se estremece de uma maneira igualmente excêntrica para a dupla. Palmer parece não se importar, já Dale assiste atônito a tudo e, a princípio, demonstra não compreender o que se passa naquela confusão onírica – assim como o próprio espectador se encontra, em um inteligente jogo onde personagem e observador (eu, você ou seja lá quem for), são todos tratados como vítimas dessa brincadeira maluca e surreal que Lynch propõe, não só em Twin Peaks, como também em toda a sua obra artística.

Depois disso, continuamos em meio aos frames que cortam as cenas e, obviamente, o sonho do agente Cooper, para em seguida tomarmos conhecimento de alguns pontos importantes da trama, sendo um desses a emblemática frase “Fire Walk With Me”, assim como a futura revelação do suposto assassino de Laura Palmer. Posteriormente, retornarmos à estranha sala com cortinas vermelho-sangue onde Dale Cooper e Laura Palmer ainda aguardam o término do freak show epilético do Homem de Outro Lugar. Terminado o seu breve espetáculo, o exótico anão senta-se próximo à Laura e ao agente Cooper em uma espécie de talk show onde não há diálogos, pois Cooper continua extremamente casmurro com a situação e apenas observa, Laura ainda parece tranquila com todo aquele clima de absurdo kafkiano, a bela moça olha fixamente para o agente e aponta, de modo simbólico, para o próprio nariz como se dissesse “está tudo tão óbvio, não consegue notar?”. Enquanto isso, o Homem de Outro Lugar finalmente cessa o silêncio abismal e enigmático da cena para dar início à discussão com a seguinte exclamativa: “Tenho boas notícias!” Pronto, dá-se início a representação televisiva mais excepcional  do teatro do absurdo.

O pequeno homem conta, de modo nonsense, que a goma de mascar preferida de Cooper voltará em grande estilo, também diz que a moça ao seu lado, que até então nos era apresentada como Laura Palmer, na verdade trata-se de sua prima. O agente indaga, ainda confuso, diz que ela não poderia ser outra pessoa senão a própria Laura Palmer; pois, diante do questionamento de Cooper, a então doppelgänger de Laura também cessa o seu mutismo cabalístico e fala que apenas sente-se como se conhecesse a verdadeira Laura Palmer, mas que não é ela de fato. Em seguida, o anão diz que a jovem apenas tem muitos segredos, dando fim a um dos diálogos mais incríveis e surreais que a televisão já presenciou. Totalizando esse devaneio lynchiano ilógico e angustiante, o Homem de Outro Lugar comenta que, de onde eles vieram, os pássaros cantam uma canção muito bonita, pois novamente articula: “E há sempre música no ar”, para em seguida se levantar da poltrona e dar início, mais uma vez, ao seu freak show estranhamente persuasivo, porém, agora, em forma de espetáculo de dança.

Já sozinhos, a cópia conforme de Laura levanta-se da cadeira, enquanto o anão afasta-se em sua dança solitária ao som de um soft jazz de cafeteria, Palmer-clone vai até o agente Cooper, que ainda encontra-se sentado e irresoluto, Laura o beija e solta-lhe algumas palavras ao pé do ouvido, palavras essas que não conseguimos ouvir, muito menos decifrar. Obviamente uma tática sádica de Lynch. Pois Dale Cooper finalmente acorda do seu sonho, euforicamente pega o telefone, em êxtase de epifania, liga para Truman e diz: eu sei quem matou Laura Palmer. Feito: Lynch nos ganhou no completo mistério e nem sequer sentimos o tempo passar no seu sedutor vazio interpretativo, o cineasta nos explicou absolutamente nada, não de modo direto, apenas confundiu mais e mais a nossa percepção da trama.

No livro The Philosophy of David Lynch, Simon Riches disserta, entre outros assuntos de diversos trabalhos de David Lynch, sobre esse episódio específico de Twin Peaks, o escritor aponta para o fato do sonho na sala vermelha representar, na verdade, o contratempo que o personagem de Kyle MacLachlan tem para racionalizar um conhecimento precedente do assassinato de Laura Palmer, então o agente Cooper abandona o seu conhecimento empírico e habitual da investigação para assumir uma abordagem intuitiva, no caso, através do sonho, para assim contrair o caráter interpretativo de uma filosofia analítica. Lynch estabelece uma linguagem privada de sua obra, em um modo distinto de percepção e comportamento integrado e assumido pelas suas personagens, essas que são sempre excêntricas, mesmo fora do âmbito onírico, como se, mesmo no plano físico, as personagens ainda perdurassem em um cosmos metafísico.

Se em seus filmes David Lynch rouba para si um comportamento expressivo e privativo que dá lugar ao comportamento natural e comum do cinema e da televisão – do teatro também, por que não? O Dale Cooper Quartet faz isso justamente com a sua música nesse Quatorze Pièces de Menace – ou Quatorze Peças de Ameaça, em uma tradução literal – desconstruindo o aspecto normalista do soft jazz com uma atmosfera pesada e soturna do gênero. O mais recente álbum do quarteto francês, assim como nos seus álbuns anteriores, estipula um concerto destrutivo e sombrio da alegoria lounge e smooth da chamada new adult contemporary musica banda instaura uma purificação melódica e arrebatadora que poderia facilmente ser trilha sonora de qualquer absurdo fantasioso com a alcunha do cérebro ilógico de David Lynch; no entanto, apesar do grupo, aqui, meio que elevar as composições de Angelo Badalamenti a um contexto analítico muito maior e fora do que seria um circuito restrito tanto televisivo quanto cinematográfico, o quarteto francês vai além do usual, incorpora elementos de krautrock, drone e noise ao melodismo habitual da música lounge, o que já expus anteriormente, em um curioso paralelo metafórico com as personagens de Lynch, essas que se apoderam de situações corriqueiras e as empregam no absurdo.

“[…] o Quarteto e seus convidados construíram um castelo de cartas sonhador que balança e cresce profundamente enraizado na estranheza feroz dos filmes de David Lynch.”

Não é de se admirar que esse fragmento que citei seja a melhor definição que a Denovali Records encontra para “vender” o Dale Cooper Quartet and the Dictaphones em sua página na internet, mais precisamente para o excelente Metamanoir (2011), álbum anterior ao Quatorze Pièces de Menace. Pois é justamente o que ouvimos nesse mais recente disco da banda, um manifestação nefasta da natureza encantadoramente supra-realista de David Lynch, no entanto também poderia ser o questionamento do absurdo existencialista de Albert Camus em O Estrangeiro, ou mesmo do teatro do absurdo de Beckett; todavia, o mais interessante nisso tudo é que não há absolutamente nada de estranho nessa abordagem descentralizada da arte quando o próprio significado de estranho pode ser questionado, como as personagens de Twin Peaks que vivem um sonho contínuo, como a triste história de amor perturbadora de Mulholland Drive, como a falta consciente de um objetivo de vida, de tudo, cerrada na mente delirante de Meursault, personagem de Albert Camus em O Estrangeiro, como a espera interminável de alguém, do sentido, do nada (?) em Esperando Godot, como a completa ausência interpretativa, de espera analítica, de música, arte anteposta dessas quatorze peças de ameaça, que intimidam no seu enigmatismo e falta de acepção.

Afinal, o mundo físico, o mundo cheio de regras e limitações consegue ser mais complexo que o próprio absurdo, até porque: o que seria absurdo? Partir sem se mover? Matar alguém por conta do sol forte? Uma conversa sobre goma de mascar? Acho que tudo isso e nada disso, na verdade. Pois eu diria que a música, principalmente ela, ou a falta dela, essa sim é um completo absurdo. Como a que escutamos nesse disco do Dale Cooper Quartet and the Dictaphones, como um simples assobio ou um cantarolar de pássaros, como a música que sempre está no ar, até quando não a ouvimos.

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