Papel Cult

Pior Faixa: Kanye West – Blood On The Leaves

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Eu sinceramente não sei mais o que esperar do Kanye West – e isso por um lado é bom, muito bom! West mostra-se cada vez mais improvável, surpreendente, realmente não sei o que pode brotar dessa mente insana regida – apesar de alguns descuidos – por um dos artistas mais inventivos e profanos da atualidade. Kanye não pretende dominar o mundo da música, pois isso ele já fez há muito tempo em sua concepção existencial narcisista e pomposa – e eu disponho meus sinceros cortejos, afinal, a sua presunção consegue ser estranhamente persuasiva a cada novo álbum lançado, a cada nova colaboração que ganha  maiores status pela sua simples presença. A vaidade de Kanye seduz pela incitação, poucos sabem provocar tão bem quanto ele provoca sem que em algum momento estimule a nossa apatia, mesmo que vez ou outra West dê os seus pequenos tropeços negativos no egotismo anti-heroico que construiu como autorretrato – My Beautiful Dark Twisted Fantasy para o bem, Graduation e 808s para o mal.

Kanye parece ter beijado tantas e tantas vezes o próprio rosto no reflexo do rio que se tornou um ser que vive à parte do seu mundo, de suas vontades, que se esquece inocentemente de tomar o mínimo cuidado de notar se a água do rio é ao menos asseada, Kanye apenas o faz em impulso ao reflexo, esse sim é perfeito. Atira-se, obstinado, em atitude esnobe e arrogante que já é algo característico de sua práxis – de toda maneira, outra atitude de se admirar, eu diria. Por que não? Mas Kanye não é Midas, ele não pode angariar todos os gêneros, ritmos, personalidades, ícones e transformá-los no ouro mais valioso e reluzente, não pode moldá-los de acordo com as suas vontades e mimos. West simplesmente pega a elegância e sutileza de Nina Simone e a transforma grotescamente em uma versão burlesca distorcida de um semi-Alvin e os Esquilos. A fúria, o protesto de Nina Simone (e Billie Holliday) estava em seu discurso tênue, pois Kanye o desconstrói no maior dos sacrilégios, resume “Strange Fruit” a uma quase anedota.

Às vezes tudo parece funcionar basicamente como atributo-base sofisticado de suas injúrias, de suas ofensas já manjadas sobre tudo e todos. Transforma um protesto global em algo confidencial – dessa vez Beyoncé e Jay-Z também entram na sua briga particular, mas como coadjuvantes. Desajeitada como uma faixa perdida e mais sombria da demasia estilística de 808s, “Blood on the Leaves” mostra o Kanye arquiteto de sempre – aqui com o auxílio do duo TNGHT -, com boas ideias e referências, mas que esporadicamente peca quando encontra o seu campo empírico e assume o trabalho braçal. Kanye não pode mais se dar a prepotência de novamente deflorar os nossos ouvidos com excessos e mais excessos de auto-tune, tudo sem o ínfimo cuidado e discernimento autocrítico. Não, Kanye West, você não é um deus.

Ficha

Artista Kanye West

Ano: 2013

Álbum: Yeezus

Origem: EUA

Gênero: Hip Hop

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Publicado às 15/11/2013 por em Faixas, Música, Piores Faixas e marcado , , , , .
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