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Quando a arte me surpreende

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Tenho completo fascínio por toda obra de arte – não só no campo da música – que consegue romper com qualquer expectativa que eu possa previamente impor a ela, gosto daquele sentimento liminar de incapacidade analítica que involuntariamente vai se perdendo ao longo do tempo, aquela virgem sensação que desvanece gradativamente junto com o aperfeiçoamento e o progresso que temos do nosso senso crítico, particularmente quando estamos diante de um trabalho artístico; um processo de análise natural – que é obviamente saudável -, mas que, no entanto, também possui as suas nocividades. Nos acostumamos cada vez mais a pressupor a arte, a analisar o seu conteúdo antes do que nos é apresentado: sem surpresas, sem abalos ou assombros. Somente casualidades. De modo involuntário, o senso crítico acaba por maquinalmente privar o ouvinte do inesperado, do envolvimento raro e ainda inocente diante daquele conteúdo artístico que nem sempre clama por interpretação – ao menos em sua gênese -, mas que muitas vezes apenas suplica por assimilação em seu caráter primário e simplista, por um mínimo momento de solitude intelectual, de complacência desprovida de todo tipo de sentença arbitrária.

Talvez por isso tenha encontrado tamanho contratempo ao tentar expor de modo mais habitual ou menos, digamos… Incomum o que compreendi ao escutar o Clara Altantsegtseg da banda [bleu]. Possivelmente porque também é um tanto prescindível e enigmático tentar rotular o que eles fazem aqui. Clara é um turbilhão de referências, alusões – não só musicais -, que englobam inúmeros segmentos, setores, movimentos artísticos… Tudo dos mais diversos espaços e meios culturais distintos, o que fica exposto de modo evidente nas diferentes camadas climáticas e etéreas que cada faixa introduz o ouvinte nos segmentos que Clara Altantsegtseg faz questão de estabelecer de modo sublime, flertando excepcionalmente com o erudito, mas que volta e meia também encontra o convencional, sempre com a destreza do cuidado de não prevalecer a face extrema dos dois horizontes, criando assim uma obra exigente, por vezes difícil e um tanto distante, mas mesmo assim longe de segregação diplomática ou algo semelhante.

Clara se estabelece como poucos nesse transe provocativo, um arrebatamento sonoro que aguça em minúcias a curiosidade do ouvinte transferindo-o um novo significado àquela sensação de prejulgamento crítico perdido em seu princípio, sentimento esse que agora busca encontrar, no meio da bagunça – ora harmoniosa, ora barulhenta, ora as duas coisas –, o seu real espírito interpretativo.

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Clara mostra-se um trabalho extremamente diversificado, como disse anteriormente, com uma bagagem criativa absurdamente exaltante e próspera. No entanto, a banda tem a inteligente destreza de não transitar cegamente em todos os meios de gêneros e referências que ela carrega em abundância, tal fertilidade é exposta aos poucos em cada seguimento de cada faixa que o disco possui, faixas essas que são sempre extensas a instaurar um ambiente carregado, sombrio e muitas vezes surreal e raivoso com suas rupturas de quebras rítmicas que ligam uma música à outra de modo adjacente e quase sempre alarmante, com uma fúria instantânea que dispara e cessa no mesmo instante – algo que eventualmente foge à regra, o que ocorre nos momentos mais efusivos do álbum e que flertam de modo contagiante em uma espécie de free jazz/jazzcore com elementos de noise confusos em um black metal ainda que tímido e embrionário, mas sempre com o aspecto peculiar e original no som que não deixa prevalecer nenhuma das vertentes, um traço bem característico de bandas de avant-prog e do movimento rock in opposition – é possível notar traços de Magma e Henry Cow aqui, igualmente de Univers zero e Art Zoyd, mas é um traquejo longe de assiduidade e que confere uma identidade própria ao grupo.

O mais interessante é que todo esse arrocho musical – aparentemente complexo em sua gênese – entra em contraste com nuances mais solenes que a banda explora em Clara, algo que propriamente ocorre na última faixa do álbum, uma canção evanescente em seus diversos disparos estilísticos e que poderia ser dividida em inúmeros momentos mas, que, contraditoriamente, contrapõe-se com a sua longevidade durativa, já que trata-se da música mais longa do disco com os seus mais de 18 minutos de espalhafato vistoso e abarcante: o início lounge jazz dá o cartão de visitas falso para, em sua metade, assumir um manifesto aparentemente de credo cultural com os seus curiosos cantos folclóricos, isso para na terceira parte da canção esse mesmo canto tomar um corpo clérigo regido em batidas industriais numa espécie de processo evolutivo cultural da música que se constrói na faixa de modo absurdo e involuntário.

Albert Camus

Posteriormente, do contexto pré-histórico à revolução das máquinas, essa interposição – que obviamente fica somente no caráter subjetivo do ouvinte – acaba por entrar no mérito que tratei no início do meu discurso sobre senso crítico, mergulhando a minha então estimativa em um redemoinho de contradições e pensamentos que só a arte pode provocar, seja ela qual for, seja ou não desprovida de análise, pois é sempre bom entrar em contato com esse tipo de manifestação artística: livre de preceitos e limitações, inconformada com o habitual; uma arte que causa todo esse empecilho analítico, onde a sua melhor definição seria o indefinível.

“Música verdadeiramente fértil, o único tipo que irá nos mover, que devemos apreciar verdadeiramente, será a música propícia ao sonho, que expulsa toda a razão e análise. Não se deve desejar primeiro compreender e depois sentir. A arte não tolera razão.” – Albert Camus.

(Texto originalmente publicado no site 4 Track como resenha para o álbum Clara Altantsegtseg, do duo francês [bleu], que também já escrevi sobre aqui no blog.)

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Publicado às 16/11/2013 por em Artigos, Música e marcado , , , , , , , .
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