Papel Cult

Alkerdeel & Gnaw Their Tongues – Dyodyo Asema (2014)

gnwaphoto

Colaboração entre a mente solitária que rege o Gnaw Their Tongues – projeto de noise e música experimental do músico holandês Maurice de Jong – e a banda belga de black metal Alkerdeel, Dyodyo Asema consegue ser uma obra muito maior do que os inúmeros trabalhos individuais dos seus dois representantes, tanto Gnaw Their quanto Alkerdeel, que se sobressaem aqui como poucas vezes se sobressaíram. Aproveitando a similaridade estilística que ambos os projetos possuem, algo que basicamente se apoia em uma espécie de dark ambient com elementos voltados para o black metal drone, músico e banda criam um pequeno manifesto lo-fi de dissonâncias dramáticas que instauram um ocultismo climático de pouco menos de 20 minutos de duração. Um pouco mais melódico e menos carregado de brutalidade como nos trabalhos do Gnaw Their Tongues, Dyodyo Asema se assemelha mais com o espectro centralizado e primário do black metal presente na discografia do Alkerdeel, o que fica caracterizado pelo dark ambient imersivo que se cria ao longo da faixa-única que compõe o  álbum.

Ilustrada por um clipe cru, pintado em uma estética suja e amarelada, Dyodyo Asema se utiliza da climatização sombria de sua obra para compor uma atmosfera carregada e repugnante; no entanto, os exageros de gêneros, aqui, são inexistentes, das afetações presentes em vocais rasgados de um black metal tradicional à desordem interminável de um disco de harsh noise, quase nada dá as caras em Dyodyo Asema, há somente a insinuação e simulação do desespero, da fobia; a representação do imagético de pânico se dá pelo terror psicológico, não-óbvio, sem apelações grosseiras e premeditadas, a repulsa é quase que contraditoriamente sedutora, um susto prazeroso e de escrúpulo sutil. A repulsa criada pela dupla é um repúdio instintivo que se caracteriza de um modo naturalista, como se a raiva contida no esfolar pêndulo de guitarras fosse reflexo da violência em sua condição congênita, o ódio aqui me parece uma representação não do absoluto, da utilização da força como argumento, mas da condição essencial da maldade como algo impassível de escolha.

Pois Gnaw Their Tongues e Alkerdeel fazem de Dyodyo Asema essa representação extrema da crueldade, representada obviamente pela arte, pela música; a perversão não é o fator hegemônico aqui, a misantropia assume o ofício em sua acepção pura e nativa do instinto irracional, a aversão, o negativismo são todos sentimentos virulentos do qual o ser-humano é o portador desde sua gênese em um pessimismo aparentemente sem complacência. O ódio, a desordem, o caos… todos assumem o seu estado natural em Dyodyo Asema, a harmonia nunca existiu – ou parou de existir em seus 19 minutos de aniquilação.

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Publicado às 18/01/2014 por em Música, Resenhas e marcado , , .
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