Papel Cult

O funk carioca é a nova MPB

Primeiros bailes da Furacão 2000

Primeiros bailes da Furacão 2000

Pouco a pouco o funk carioca vem se transformando no gênero de maior apelo e aceitação popular da atual música brasileira. “Atualmente”, pois me parece um tanto curioso notar como o funk carioca, hoje, engloba praticamente todos os grupos sociais, deixando gradativamente o seu aspecto segmentado, e antes visto apenas como manifestação cultural de nicho, para assumir um contexto mainstream. Tanto musicalmente, quanto comercialmente, sem se restringir apenas ao âmbito nacional, o funk vem mostrando enorme potencial para figurar entre os charts da música pop global. No entanto, o que falo aqui não se trata mais do funk carioca como aprendemos a conhecer em sua gênese, ou como nos acostumamos a escutar ao longo do seu caminho marginalizado. Repetindo um passado semelhante ao de outros gêneros, o funk carioca vem percorrendo o mesmo caminho que o samba percorreu, assim como o jazz (se ampliarmos o seu contexto), entre outras manifestações que provocaram uma reviravolta de conceitos e noções culturais na sociedade.

Não se trata de saudosismo, ou mesmo de purismo ou elitismo cultural, trata-se apenas de uma análise de como o funk carioca mudou no domínio do mercado fonográfico e suas derivações, já que hoje nem mesmo a chamada “nova MPB” se sustenta comercialmente. Está certo que os tempos são outros, a indústria, hoje, é muito mais cruel do que antes, mas o funk sempre conseguiu sobreviver mesmo em sua completa precariedade, com os mínimos recursos. O embate reside justamente nessa problemática: o funk carioca, em sua gênese, quase nunca recebeu suporte de fora do seu ambiente, sendo essencialmente um trabalho simples e escasso, ao estilo “faça você mesmo”, com os mínimos recursos possíveis. Atualmente a proposta parece outra, o funk virou objeto de estudo, do campo acadêmico à abordagem em sua proposta essencialmente musical, apesar de contraditoriamente se segmentar, inicialmente, como um objeto sem valor, segregado, precário. Todo esse alarde passou a dar status de manifestação artística “genuína” ao funk carioca, apesar de sua composição minoritária. É um campo controverso, é verdade, que dá margem a opiniões favoráveis e divergentes; diria que o auge do enaltecimento popista internacional também teve o seu enorme papel colaborativo nisso tudo. O pop passou a ser aceito nos meios alternativos, o funk sempre foi pop, logo, também recebeu a chancela da crítica.

Tom Jobim Loves Baile Funk (2011)

Tom Jobim Loves Baile Funk (2011)

No entanto, vejam só: essa chancela confirmou um avanço para alguns, seguido de retrocessos para outros. Em certos aspectos, por exemplo, o pop-funk carioca (ou funk melody, como queira chamar) surgiu com melhorias significativas no âmbito da produção, mudança de ritmos e composição… por outro lado, surgiram alguns possíveis retrocessos em sua abordagem. Resolvi escrever esse texto depois de alguns exemplos dessa eminência do pós-funk carioca. Primeiro: a mixtape das meninas do conjunto Pearls Negras, um projeto que musicalmente pouco lembra funk carioca em sua essência urbana, com uma produção caprichada aos moldes do R&B norte-americano. Segundo: a nova música da Ludmilla, “Sem Querer” – que pode ser ouvida no vídeo abaixo.

Na tentativa de elucidar como o funk carioca sofreu mudanças radicalmente expressivas ao longo de sua história, talvez não seja novidade alguma o assunto que busco esclarecer aqui. O objetivo, antes de tudo, e tentar explanar o impacto social da ascensão pop que o funk vem sofrendo, e ressaltar as consequências desse impacto (sejam elas positivas ou negativas). Apesar de possuir suas origens na música eletrônica norte americana, o funk carioca acabou gradativamente provocando uma grande reviravolta na nossa cultura, o produto que existe hoje nos reflete algo muito semelhante ao que a bossa-nova fez com o jazz no auge de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, tempos de ouro da MPB, mas que estranhamente foi se perdendo com o tempo em razão de um aparente colapso cultural da nossa sociedade. O funk, diferente da bossa-nova, sobreviveu a atenção do próprio povo e do mundo, e ainda cultiva um processo evolutivo contínuo, virando quase que o retrato atual do Brasil que conhecemos. A bossa-nova, por sua vez, morreu estagnada, virou um sonho nostálgico, pois nem mesmo aqui reside mais, sendo uma mera perfumaria de tempos distantes.

Com status de superprodução, selo da Warner estampado no topo do vídeo e outros adereços, a nova música de Ludmilla conseguiu estabelecer de vez o paradigma de como o funk carioca, aos poucos, vem se firmando como o grande estandarte do que seria a futura música popular brasileira. Existe um fator considerável nessa faixa e que se diferencia do álbum de estreia da cantora Anitta, por exemplo, outra representante do progresso estilístico que o funk carioca vem sofrendo, assim como também constitui essa transmutação de gênero que Ludmilla representa. A ascensão do funk carioca de Ludmilla é representado sob uma evolução que teve início praticamente do zero, diferente de Anitta, que partiu de um ponto em linha reta, já pegando no embalo o processo dessa transformação. O crescimento de Ludmilla, aqui, é ostensivo pelo resultado da própria artista, que chegou a presenciar o funk em seu composto embrionário, até atingir a sua formação contemporânea, carregando consigo um aspecto gradual.

Furacão 2000 hoje

Furacão 2000 hoje

O funk carioca sempre flertou com a música pop desde os seus primórdios, no auge do funk melody noventista que mergulhava mais no freestyle do que propriamente no miami bass, assim como em um universo pop dançante bem semelhante ao de hoje em dia. Correto, pois é isso mesmo que curiosamente realça o processo rotativo que o funk carioca possui, e nos comprova (ainda que involuntariamente) uma espécie de retro-progresso da música popular brasileira: o funk de hoje retorna ao funk de outrora, misturando inúmeras referências e com muito mais aparato do que tinha antes, muito mais investimento do que o pobre funk de antigamente. O funk, hoje, diante de suas inúmeras variações, nada tem de pobre, em alguns casos, na verdade, é a pura celebração do culto e ostensividade – temos o surgimento do funk ostentação, por exemplo, que é exatamente dedicado a isso. A divergência primordial é que, anteriormente, o fator pop não deixava de lado o seu aspecto marginal, comedido, sem implementos. Hoje, o que vemos é justamente o contrário, há um distanciamento dessa imagem.

Mais estrangeiro do que nunca, o funk carioca, em épocas menores, era culturalmente como foi a new wave nos anos 80, ou o glam do mesmo período: popular, mas pouco levado a sério. Era objeto à parte, boicotado pela crítica. Fora do seu campo sócio-cultural, no entanto, e voltando-se unicamente para a música, essa transformação também evidencia o fato do quão self-made o funk carioca era em sua concepção, e que aos poucos foi se dissipando para assumir um caráter cada vez mais mecânico e pasteurizado. Ou seja, o funk teve que passar pela sua revolução industrial. Hoje, o funk carioca encontra-se direcionado cada vez mais para o disputado universo da música pop. É um confronto difícil, mas que há espaço para aceitação.

Pearls Negras

Pearls Negras

Com anseios de pop globalizado, o pós-funk carioca, estranhamente, cria um contraste evolutivo: a produção hoje caminha gradualmente à excelência, enquanto o valor criativo da obra desvanece em desespero do traço mimético. O funk carioca é cada vez mais pop, e pop dos mais comuns. O funk vem deixando de ser o centro das atenções para se tornar apenas alternativa, reprodução de matéria, e não conteúdo bruto a ser explorado, um processo inverso à sua origem. Pois agora o funk me parece apenas a base do seu estudo; por outro lado, é importante salientar a evolução e o alcance popular que o funk carioca conseguiu nos últimos anos, e não digo somente sob o caráter explorativo que viveu durante esse processo, ou mesmo da condição cômica que quase sempre lhe foi característica, e que parece haver um certo distanciamento recente dessa imagem, buscando uma padronização diante da esfera popista, do seu futuro comercial rentável e promissor. Já no âmbito sócio-cultural, em tempos de glamourização do que é minimamente questionável, de “safáris” em favelas com direito a personalidades internacionais e afins, espectadores assíduos e distantes de um caos real e diário, o funk segue o passo da bossa, mas de um jeito distinto e menos tímido: ele constrói uma identidade nacional para gringos e nativos, brasileiros e estrangeiros. Um novo rosto do Brasil é idealizado, propagado e cultivado. Mas será realmente isso que queremos?

Um comentário em “O funk carioca é a nova MPB

  1. Pingback: Pior faixa: Anitta, MC Zaac & Bei Maejor – Vai malandra | Papel Cult

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Informação

Publicado às 06/02/2014 por em Artigos, Música e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: