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Xiu Xiu – Angel Guts: Red Classroom (2014)

xiuxiu

Com inspiração em inúmeros temas controversos e obscuros, entre eles a criminalidade e a violência das ruas de Los Angeles, a história de um edifício onde dois esqueletos de crianças foram encontrados e um filme erótico japonês de 1979, esse último que inclusive dá nome à obra da banda norte americana, Jamie Stewart e cia fazem de Angel Guts: Red Classroom um estudo dramático e horrificado sobre a face suja da sexualidade, do ser humano e suas insanidades mundanas, construindo assim um jogo de cotejo entre elementos relacionados à vida, ao nascimento, sexo… Com elementos relacionados à morte, criminalidade, suicídio… Angel Guts: Red Classroom é, antes de tudo, uma obra apreensiva e sobrecarregada, difícil como quase toda a discografia da banda. Por vezes alcançando a excelência de sua obra-prima agonizante de 2003 (A Promise), Angel Guts: Red Classroom estabelece a mesma carga psicodramática do principal disco do grupo, a persona schizo-doentia de Jamie Stewart mais uma vez explora os limites do habitual com o seu lirismo profano e despejado, assim como musicalmente Angel Guts se aproxima da extasia arrebatadora do disco de 2003 – ainda que aqui, em certos momentos, Jamie produza uma atmosfera muito mais ameaçadora do que a que presenciamos em Promise.

Aproveitando o período que passou junto ao Swans durante a turnê do álbum The Seer (2012), o Xiu Xiu abraça nitidamente as raízes musicais de Michael Gira, buscando na gênese do grupo as suas referências para esse mais recente álbum, sendo a música industrial e o noise os estandartes desse regimento desatinado. A linha tênue que estremece entre a música e a não-música e que é marca quase que indelével da banda, aqui, pode parecer pouco perceptível diante de discos mais antigos e libidinosos dos californianos; no entanto, o grupo segue em um processo de nivelamento do avant-garde e da música popular que é semelhante ao que o Pere Ubu seguiu ao longo de sua discografia, principalmente nos seus novos registros, tentando instaurar uma linha de raciocínio com as duas extremidades da arte. Mesmo assim, não se engane, Angel Guts: Red Classroom é uma obra extremamente excêntrica e instigante, o humor também trabalha em comunhão ao clima sórdido que Angel Guts faz questão de sustentar, por mais soturno e sujo que seja o disco, a banda se utiliza de tal imoralidade para estabelecer um deboche sórdido, descrente, ridicularizando o seu próprio modo de roteiro artístico, no modo de cantar aos seus diversos traços estilísticos, buscando sempre elevar a música em uma condição cabalística e quase que kafkiana.

Tais floreios já são característicos do grupo, é verdade, mas ao longo do tempo isso tem se aperfeiçoado gradativamente, com destaque nos seus álbuns mais recentes, sendo um ótimo exemplo o controverso Nina, lançado no ano passado, com a proposta de ser um álbum só de reformulações propositadamente destroçadas das canções de Nina Simone: vocais choramingados em um complexo de agonia e aflição com um avant-garde jazz de trilha de fundo. Heresia? Homenagem? Brincadeira sem graça? Não sei, mas que o gracejo – ou tentativa de gracejo – teve lá os seus momentos de inspiração, ah… Isso teve. Pois bem, mas de volta ao que interessa: o culto-ensaio digno de um Marquês de Sade e Henry Miller composto pelo Xiu Xiu. Posso dizer que a banda fez de Angel Guts: Red Classroom um exercício quase que patológico sobre a condição humana, seus desejos e anseios, dramas e conflitos existenciais, Angel Guts me parece uma abordagem que se automutila e acha graça de tal atitude masoquista, é cruel e cômico ao mesmo tempo, atraente e igualmente repugnante, e nós achamos graça como um freak show libertino onde os seus astros não possuem o mínimo de discernimento da ordem e da realidade, o que consequentemente lhes possibilita o máximo de autonomia. A liberdade, aqui, surge em proveito da arte.

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Publicado às 10/02/2014 por em Música, Recomendado, Resenhas e marcado , , , .
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