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Sun Kil Moon – Benji (2014)

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Seguindo na linha estética de atenuação sonora semelhante ao que Bill Callahan seguiu no seu processo de rompimento com o aspecto lo-fi aperfeiçoado sobre a alcunha de Smog, Mark Kozelek faz desse mais recente álbum do Sun Kil Moon uma representação de amolecimento, enfraquecimento sensitivo e perceptivo que Kozelek tem sofrido se nivelada ao seu principal e extinto projeto Red House Painters. A exemplo de Bill, Mark passou a assumir um envoltório simples e frágil de suas composições, buscando um lugar comum, um campo de aceitação no porto seguro do indie folk, flertando volta e meia com uma country music ligada especificamente à raiz americana pomposa, diferente da proposta de entrega quase que ritualística dos primeiros trabalhos do Red House, esses mergulhados em mantras depressivos e intensos. Por sua vez, no Sun Kil Moon, isso se desfaz para a prevalência de uma delicadeza quase que parnasiana, e não expressionista como de antigamente; a beleza, aqui, ainda é um argumento substancial, é verdade, mas essa imponência não alcança mais a sua intensidade e veemência de outrora, o que era de intensa inserção não só subjetiva em sua concepção no Red House, assim como Bill-Smog.

A busca simétrica de Benji me parece uma remessa banal demais em prol de valores que mais se assemelham ao da simples arte pela arte, nesse caso, do sofrimento solitário e sem respaldo, de uma difícil – mas simples – confissão sentimental. Não seria decepção a palavra a ser utilizada aqui, mas a sensação de conveniência disso tudo é o que me impossibilita de celebrar mais efusivamente esse disco do Sun Kil Moon; por alguma infelicidade, ou falta de empatia da obra – ou minha, vai saber? -, Benji pouco corresponde à plenitude do seu sentimentalismo com a sustentação melódica do álbum; essa, que sim, é verdade, também possui os seus momentos de puro âmago criativo e êxtase romanticista, sendo o melhor exemplo disso a excepcional “I Watched the Film The Song Remains the Same” onde Mark destila todo o seu melancolismo envolto à mortalidade temática da obra.

Com toda certeza Benji é um trabalho extremamente íntimo e confessional de Kozelek, talvez como não presenciávamos há muito tempo, o músico igualmente continua sendo um dos maiores liristas da atualidade, suas composições ainda permeiam um estágio sentimental pouquíssimo atingível na arte; no entanto, como dito anteriormente, essa sua evidente inclinação poética ultrarromântica e subjetivista não corresponde melodicamente à altura de sua construção lírica, a sua poesia curiosamente cria uma convergência com o versilibrismo ficando em um caráter unicamente da escrita, do discurso penoso de Mark e que ganha exclusivamente pela comoção, devendo um pouco em sua representação musical do sentimentalismo e que, como podemos observar, é tão bem exposto em palavras. Benji agrada, mas não chega a surpreender.

2 comentários em “Sun Kil Moon – Benji (2014)

  1. Felipe Eugenio
    06/03/2014

    Olá, gostei da forma como conduziu o texto, porém, não concordo muito com ele. A beleza por trás do disco está nas histórias pessoais de Mark Kozelek. Também fiz um review do disco, se quiser conferir, ficaria agradecido: http://www.jooqebox.com/review-sun-kil-moon-benji/

    A propósito, gostei muito do site, parabéns.

  2. Ramon R. Duarte
    07/03/2014

    Olá, Felipe.

    Bem, o que busquei explicar no texto foi a dificuldade que tive ao tentar unir o discurso subjetivo de Kozelek, o apelo retórico e nitidamente representado pelo pathos da obra (comoção, compaixão e afins), algo que inclusive explico ao término do texto, com o lirismo da música, o seu resultado melódico-poético e que está além do retrato da poesia não musicalizada. Para mim, isso foi algo que deixou a desejar, apesar de alguns momentos inspirados – como citei no texto.

    Poderia usar como analogia um filme que se utiliza de meios “sujos” de dramatização para ganhar a empatia do espectador, o mesmo vale para a literatura, teatro ou qualquer outro meio artístico, é uma busca falsa pela catarse, pela evocação de sentimentos, quando isso fica perceptível na arte é preciso que haja dissimulação ou um completo arrebatamento/purificação que nos faça desconsiderar esses meios, algo que não consegui notar em Benji. Como disse, realmente trata-se de uma obra linda em sua subjetividade poética, mas que infelizmente não alcança igualdade no êxito melódico.

    E poxa, obrigado. Feliz que tenha gostado do blog, também achei o seu muito interessante, bacana o texto sobre o Benji.

    Enfim, grande abraço e valeu pelo feedback.

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Publicado às 11/02/2014 por em Música, Resenhas e marcado , , , .
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