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Pior Faixa: Silva – Janeiro

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Lúcio da Silva Souza – ou simplesmente Silva – talvez seja um dos melhores representantes desse conjunto de músicos que, não fossem as suas mínimas condições pertencentes à uma chamada nova música brasileira – neo-MPB, como queira -, seriam, tão somente, uma daquelas figuras tratadas com indiferença e desprezo pela cena alternativa – se bem que, o que o músico capixaba faz aqui, pouco tem a ver com “alternativo” ou algo semelhante. A esfera da qual Lúcio faz parte condiz com uma recente parcela da MPB, essa cada vez mais inofensiva e preguiçosa em sua proposta de um revival de bossa-nova, indie pop com ares “modernizados” – inclua nessa safra figuras como Marcelo Jeneci, Phill Veras, Cícero, entre outros inúmeros artistas pariformes; Cícero que aparentemente já percebeu tal comodidade em seu bom e mais recente disco Sábado, apostando em uma entrega mais lo-fi e menos pomposa. Se bem que, na realidade, a música de Silva é o que a MPB possui de mais óbvio hoje em dia. “Janeiro”, por exemplo, single que constará em seu novo disco de inéditas, é a completa reformulação do pop mais simplório e insignificante que já presenciamos na história da música nacional, a faixa representa o retrato do que há de mais cafona nas raízes da MPB e que atualmente tem ressurgido com força graças à idolatria de um indivíduo igualmente irrelevante: Guilherme Arantes. O novo queridinho da cena alternativa.

Novamente, a exemplo da péssima “Amor Pra Depois”, lançada no ano passado, Lúcio relembra o músico agora tido como menosprezado por crítica e público – sim, público, já que até então Arantes nunca tinha abandonado a sua condição de Phil Collins tropicalista. Pois não consigo imaginar outro cenário para Silva que não seja o mesmo de seu mentor: fazer parte da trilha sonora de uma novela em um algum momento meloso do horário nobre de uma grande emissora, ou, quem sabe, integrar um irônico apanhado de canções de greatest hits. Lúcio, ao tentar atribuir requinte… Refinamento à sua música, acaba esbarrando justamente no completo oposto em sua proposta ridícula de reincidência kitsch setentista/oitentista da música popular brasileira, criando o que mais parece um smooth rock de elevador e loja de roupas. Se os seus maiores representantes possuíam o mínimo ímpeto pop e, digamos… Alguns espasmos de criatividade apoiados nesse mesmo soft-rock e folk-pop trivial e americanizado, Oswaldo Montenegro ou até mesmo Ivan Lins são bons exemplos disso, com Silva a exceção passa longe de acontecer, as suas “sacadas” são pobres e óbvias, como o sax manjado no final de “Janeiro” em um fade-out irrisório que faz reconsiderar qualquer Kenny G da vida. Consigo até mesmo imaginar a cena do solo em meio a um temporal.

Por mais que Silva tenha sido correto, até agora, em sua ainda pequena discografia, e isso é bem notório em seu debut de 2012 e no EP de 2011, esses que – também sejamos igualmente corretos – possuem momentos inspirados; a música de Lúcio ainda permanece em um habitualismo nocivo que causa o pior dos sentimentos: a apatia, o desinteresse. Pois é isso que Silva é aqui: desinteressante. A sua arte não consegue almejar voo e perdura nesse sentimento nostálgico brega-pop, a neo-MPB está dividida em nichos, sujeitos como Silva assumem os holofotes a partir da mediocridade e falta de percepção do que a música popular pode realmente oferecer, consequentemente procriando o que há de mais raso e anêmico na MPB e o que ela futuramente pode nos propiciar. Óbvio que falo por mim, mas isso certamente não é nem de longe o melhor que podem fazer pelo pop nacional; entretanto, felizmente existem outras vertentes nessa nova MPB, vertentes que, mesmo não possuindo tamanho apreço popular como o de Silva, ainda demonstram muito mais furor criativo do que o músico capixaba e seus representantes congêneres. Da cena eletrônica – que hoje é o que melhor possuímos na música brasileira – a figuras como Juçara Marçal, que recentemente lançou o ótimo Encarnado, ainda podemos acreditar em melhores momentos para a MPB, mesmo que sejamos obrigados a abdicar de sua importante letra “P”.

Ficha

Artista: Silva

Ano: 2014

Álbum: Vista Pro Mar

Origem: Brasil

Gênero: Indie Pop

Onde Escutar: Soundcloud

3 comentários em “Pior Faixa: Silva – Janeiro

  1. Paulo
    23/03/2014

    É verdade, artistas mesmo só Carla Peres, Katinguelê, Belo, Luan Santana, dentre outras preciosidades da nossa mpb. E viva a cultura de massas!

  2. Rodrigo
    24/03/2014

    muitíssimo bem escrito teu texto Ramon. Felizmente discordo de ti nos teus apontamentos. Minha opinião de leitor, que deve ser respeitada, é que SILVA nada tem a ver com Guilherme Arantes, apesar de eu não ter nada contra a obra desse senhor. mas ressalto que a música do rapaz é rica, sim, além de bem escrita, bem arranjada, e nela não há nada de ridículo, simplório ou, ela não possui qqer uma das (des)qualificações citadas.

    enfim, como não tiveste o trabalho de embasar tua crítica com algo além de “achismos subjetivos” eu tbm não terei o trabalho de fazê-lo, e, apesar ser músico profissional há 30 anos, com doutorado em música, o título certamente nada poderá me ajudar na tarefa, visto que sim, sou parcial, pq sou muito fã.
    Sou fã do Lúcio SILVA

  3. Ivone
    04/07/2014

    Lendo aqui esse texto tão carregado de detonação a esse rapaz que tem SIM um diferencial na sua música, mesmo que inspirada por seja l[a quem ele se dê ao direito de ter, eu só posso entender que críticas são infestadas de sombras da invejinha.

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