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Babymetal – Babymetal (2014)

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Eu francamente já desisti de me surpreender musicalmente com o Japão; se bem que, não só musicalmente. Seja na música ou no cinema, nos games ou literatura… Culturalmente o Japão sempre esteve em uma escala que beira quase que a insanidade artística, cada vez mais eu me convenço que não há absolutamente nada que esses seres de olhos puxados não possam criar em seu campo cultural. Não existe a palavra “limite” no dicionário japonês, existe, sim, uma perspectiva e busca incessante de sempre tentar se superar na arte, mas essa transcendência está na arte habitual, de conhecimento comum; a necessidade de procurar transpor na música o que há de mais mundano e trivial nos gêneros e nichos, transfigurar toda a normalidade possível no mais completo absurdo, em absoluto plano psico-surreal. O pop japonês, hoje, faz uma curiosa aliança entre, o que acostumamos chamar de música de vanguarda ao longo da história, com o que atualmente existe de mais popular no meio mainstream. Em 2012, por exemplo, tivemos o Sigh com sua proposta absurda de heavy metal, associando o já exposto avant-garde a gêneros tidos como segregados ou até mesmo marginalizados, sendo o power metal o exemplo melhor aproveitado pela banda japonesa. No ano passado foi a vez do trio 385, dono de um dos melhores discos de 2013, fazendo de sua obra um pandemônio de fúria jazz-punk excepcionalmente bem articulado. Chega a parecer inverossímil o que esses caras fazem com tão pouco recurso, lembrando, volta e meia, o John Zorn dos tempos de Nake City e que brincava de transfigurar a música pop em anarquia escatológica.

Pois bem, estamos em 2014, e agora parece que esse caminho de insensatez artística na música será ocupado e continuado pelas meninas do Babymetal, já no seu primeiro álbum de estúdio o trio entrega uma obra abusiva, megalômana e que não tem vergonha de esbarrar no quase caricato, mas que incrivelmente consegue corromper e contagiar pelo sentimento de espanto que desperta no ouvinte mais despreparado ou, digamos… Intolerante (?). Babymetal, o álbum, certamente será figura carimbada por aí entre os piores discos de muita lista no final do ano, isso se alguém realmente “perder o seu tempo” e escutá-lo do início ao fim sem prejulgamentos, até porque o diferente nunca foi sinônimo de aceitação, é verdade, e isso expõe uma face interessante do quão farsante o popismo é com sua pregação de igualismo sem distinção de gêneros. Existe, sim, distinção – e muita! Enquanto o k-pop banhado nas referências mais óbvias da música norte americana, do R&B ao hip-hop, do brostep ao electro house, vem sendo idolatrado pelos mesmíssimos motivos que suas apropriações são renegadas, o heavy metal continua com seu tratamento segregado e elitista, o mesmo com vertentes mais populares de gêneros enraizados como o punk rock, metalcore também é um bom exemplo dessa separação, o post-grunge então, sequer existe no contexto popista. Enfim, existem inúmeros modelos menosprezados pelo popismo de araque que privilegia aquilo que sustenta e ajuda a alimentar em sua própria bolha, mas que no discurso abraça um contexto completamente distinto.

Mas, antes que eu termine o texto inteiro falando sobre esse campo analítico-popista, voltemos a falar sobre as meninas do Babymetal. Sabiamente, como dito anteriormente, e a exemplo de outras grandes obras, as garotas criam um contraste de extremos nesse primeiro álbum, o choque de guitarras apoteóticas traçam um conflito com os vocais infantilizados do trio, esses que volta e meia assumem o modelo habitual em um processo de metamorfose no que mais parece um novo método evolutivo da música, música essa que, aqui, não tem um caminho certo ou predestinado; afinal, o que prevalece na obra é uma espécie de verso livre, ou melhor: música livre. Pode-se tudo e a qualquer momento, como no instante que, em êxtase esquizofrênico, death metal vira reggaepower metal com nuances de trancecore vira hip-hop, o que as meninas do Babymetal fazem aqui é música não-gênero, música-random, sem etiquetas, o que consequentemente, por sua vez, também pode tornar tudo muito gratuito e, ao mesmo tempo, completamente instigante – tudo em um curto espaço temporal, pois digo: há as duas coisas aqui, e acredito que tal transtorno tenha me impossibilitado de apreciar o disco em sua completude.

Em certos momentos Babymetal é uma bagunça que imerge o ouvinte de um modo tão devastador em seu delírio esfuziante que a banda parece ser a mais divertida do mundo, já em outros, tudo parece muito pasteurizado e nada consegue surpreender, geralmente isso ocorre quando quase não há muita exorbitância, exageros e mais exageros amalucados, nos momentos mais centrados a atenção some e a expectativa aumenta, e muitas vezes essa expectativa não é plenamente saciada, o que por sua vez contribui para a construção de um caráter comum da banda, coisa que ela definitivamente não é. De qualquer forma, Babymetal, em seus melhores momentos de imprudência e demência benigna, consegue entreter tão bem que, por alguns instantes, nada no mundo parece ser mais incrível do que japonesas fofinhas fazendo coreografias em um mar de guitarras barulhentas.

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Publicado às 27/02/2014 por em Música, Resenhas e marcado , , , .
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