Papel Cult

O Harmony Korine que eu desconhecia

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Descobri recentemente um projeto de música experimental denominado SSAB Songs, descoberta essa feita por acaso, no meu completo ócio internético vagando pelas páginas infinitas e sedutoras do Rate Your Music, o que no fim acabou se revelando uma belíssima e grata surpresa. Expliquemos resumidamente a historieta: há alguns dias que venho escutando trilhas sonoras de filmes que eu gosto, entre as mais recentes estão a do filme Babel (2006), do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, e de Réquiem para um Sonho (2000), do cineasta norte-americano Darren Aronofsky – esses que são dois filmes que igualmente admiro e que possuem trilhas excelentes, composições que casam muito bem com cada temática proposta nos longas, ajudando assim a criar a atmosfera densa e dramática das suas narrativas. Pois bem, nessa de buscar por soundtracks de filmes, acabei por acidentalmente descobrir que um dos meus cineastas favoritos, o Harmony Korine (o simpático rapaz da foto), um dia também teve o seu lado músico, e que esse tal de SSAB Songs que apresentei no início do texto foi um projeto de música experimental que Korine deu vida no fim dos anos 90, junto ao músico e colega Brian DeGraw – esse último que agora é tecladista do Gang Gang Dance.

Além da surpresa óbvia de descobrir que Korine também já havia enveredado pelos caminhos da música, também me surpreendi por conta do resultado desse seu estiramento artístico: afinal, eu nunca poderia imaginar que SSAB Songs seria tão interessante! Utilizando colagens de sons que passeiam entre a música concreta e o dark ambient, o único álbum do único projeto musical que Korine teve na vida é um retrato de sua natureza cinematográfica, mas agora transposta na música. Sem procurar muitas explicações, fica um tanto complicado definir quem assume o que no disco. Harmony Korine, por sua vez, parece ficar nos vocais do projeto, enquanto Brian DeGraw se encarrega de alguns instrumentos de corda e percussão que constantemente martelam a canção em diferentes meios e formas. A faixa, que possui o mesmo título do projeto e do álbum, vez ou outra adota novos rumos na canção, criando momentos que fundem música erudita com noise e que cortam a estrutura melódica da composição em um corpo desconexo e sujo, sem qualquer tipo de sacrilégio que preze pelo ritmo da melodia.

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O mais estranho disso tudo é que todas esses poréns e contratempos auxiliam positivamente à canção em seu desenvolvimento, como resposta a esse relevo, essa transposição rítmica, a música se divide em uma experiência onde metade da canção assume o completo transtorno esquizofrênico da faixa, distúrbio que parece semi-improvisado em uma espécie de opereta como música de fundo e que arquiteta a incrível discrepância estética que a música sustenta; enquanto, ao mesmo tempo, na outra metade, cria-se um rompimento com esse roteiro cheio de furos desconexos que constroem uma atmosfera mais pacífica e melódica da faixa, harmonizando com a trilha de fundo no que nos aparenta ser um divertido jogo de troca de falas entre personagem principal e coadjuvante, só que agora no âmbito da música, em um curto período temporal. Algo que cessa aos poucos no fim da canção, assumindo gradativamente um semblante mais acústico e próximo de um resquício de freak folk.

Com quase meia hora de duração, tempo esse sustentando uma canção solitária e semi-patológica em sua proposta esquipática, Harmony Korine surpreendentemente nos mostra enorme talento para a música, é verdade que talvez não seja tão surpresa assim se levarmos em conta que o cineasta também já compôs a trilha do seu filme Trash Humpers, de 2009; mesmo assim, nada disso se aproxima da carga e entrega artística de um projeto musical, da força presente nesse SSAB Songs. As criaturas submergidas no descaso da vida e marginalizadas pelo ilogismo dos seus filmes, como as presentes em Trash Humpers, são quase que perfeitas representações agora em seu caráter musical, é um contexto característico da obra de Korine, do ethos morbígeno e nonsense que ele criou ao longo de sua carreira restrita e de acordo com o pensamento artístico que construiu, da identidade esquizóide e atípica que estabeleceu no cinema.

A faixa-única assume inúmeros caminhos ao longo dos seus quase 30 minutos de completo abuso de linearidade e desfruto de liberdade, não há roteiro ou plano-sequência a ser desenvolvido pelo Korine-músico, a melodia que se ouve aqui é tão niilista quanto o discurso vazio de suas personagens em Gummo (1997), tão agonizante quanto a rotina de vida do Julien Donkey-Boy (1999)… Pois SSAB Songs seduz como o show de horrores habitual de Korine, a face que ele nos acostumou a expor nas telas, um enorme nada onde  tudo pode acontecer.

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Publicado às 08/03/2014 por em Artigos, Cinema, Música e marcado , , , , .
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