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Skrillex – Recess (2014)

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Skrillex vem, gradativamente, tornando-se uma paródia daquilo que ajudou a consolidar e popularizar na grande guinada que o dusbtep teve nos últimos anos; Recess, o então primeiro álbum de estúdio do músico norte-americano, representa todo o amontoado de clichês que Skrillex, a princípio, conseguia converter em bom produto de música pop nos seus primeiros EPs, sendo em especial o controverso Scary Monsters and Nice Sprites (2010) e sua explosão bombástica que intercala muito bem o passado hardcore de Skrillex com sua ascensão eletrônica. Pois bem, já nesse álbum de estreia, não há sequer esse acordo temporal de gêneros, na verdade o resultado pode até mesmo frustrar os fãs mais acostumados com a fórmula básica e vulgar de Sonny Moore, a inspiração passa longe em Recess, não há um insight, uma introdução ou refrão chiclete que grude no nosso ouvido, seja por bem ou por mal, aqui é tudo muito genérico e previsível, não existe ao menos um espasmo da percepção de música pop que Skrillex tinha; logo, esse seu primeiro álbum de estúdio me parece vir para ratificar o processo de repetição e ausência inspirativa que Sonny vem sofrendo aos poucos, o seu debut soa como as piores emulações que o músico desencadeou no pós-processo disseminativo que o brostep sofreu, o álbum também nos atenta para a deficiência de uma marca que, até então, era o grande trunfo de Skrillex: a sua incrível capacidade de criar melodias absurdamente contagiantes, por mais incômodas que elas fossem ou parecessem. 

O músico sempre soube capturar como poucos a essência do que uma canção pop precisa, encontrar o ponto certo de uma melodia e manipulá-la, tanto para o agrado quanto para o aborrecimento, é verdade, mas ainda assim de um modo curioso e estranhamente virulento. É interessante como Sonny soube entrelaçar a composição do D&B ao progressismo do electro house, criando assim um meio termo entre o breakcore e o digital hardcore, buscando um âmbito mais grandiloquente e popular dessas vertentes. Pois aqui nem mesmo há resquício disso, coisa que acontecia até mesmo nos seus piores lançamentos, a capacidade de notar a sensibilidade de uma canção e consequentemente alcançar todos os públicos foi se perdendo para um império de reprodução em modo automático – e, quando digo todos os públicos, são todos os públicos – mesmo! É surpreendente – até mesmo admirável, eu diria – como Skrillex conseguiu cair nas graças até mesmo de um público fechado e purista como o do heavy metal, a força e sabedoria com que Sonny Moore uniu a música eletrônica ao metal talvez só tenha sido vista com tamanha intensidade na música industrial. 

Já esse Recess parece afastar tanto o seu público costumeiro, que nitidamente vai se cansando, quanto públicos segregados como o heavy metal. Recess aponta para o retorno do Skrillex que vem de uma aposta mais do que errada, de um Sonny Moore que parece hesitante em relação ao que seguir – um quase-perdão desnecessário, como disse na época, aos críticos que condenam a sua música testosterônica equiparando à gênese de um dubstep lotado de dogmas e conservantismo. Leaving (2012) foi uma enorme bola fora, mas jogando em um campo no qual Skrillex pouco ou nada domina: o da não-extasia. Foi uma busca por novos caminhos e uma tentativa de resposta que não precisava, como disse. Recess não, em seu primeiro álbum Skrillex começa a falhar substancialmente no completo campo propício, apostando novamente em pseudo-experimentos que passam longe de qualquer êxito, como a inexpressão de um moombahton que lembra a ofensividade que foi a dupla Skrillex-Marley em “Make It Bun Dem”, viagem errada que inundou e inunda quase que todo o corpo melódico do disco em faixas previsíveis e acéfalas, aqui não há sequer uma “Scary Monsters…” ou mesmo uma “The Devil’s Den”, o mínimo de lampejo e empolgação de outrora se foi. Dessa vez, diferente da tentativa frustrada em Leaving, Sonny Moore retorna à superficialidade característica de sua gênese para tentar agradar o público, o que não ocorre, um baque ao quadrado. Skrillex começa a dar crédito aos que condenam o seu malabarismo cada vez mais trivial e repetitivo.

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Publicado às 12/03/2014 por em Música, Resenhas e marcado , .
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