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A arte não existe

Hermann Nitsch - Oedipus

Hermann Nitsch – Oedipus

Não pretendo me alongar nesse texto, nem mesmo criar uma análise aprofundada e crítica sobre o assunto, até mesmo porque não quero ser taxativo, por mais que o título deixe subentender isso ou soe involuntariamente contraditório ao enfrentamento de ideias que procuro expor aqui, pois gostaria mesmo era de apenas manifestar um descontentamento recente que tenho adquirido ao tentar compreender melhor algumas situações, casos criados por pessoas que buscam julgar a arte de um modo que corrobora cada vez mais para uma construção teórica prejudicial à liberdade e ao confronto de pensamentos que apenas a arte pode propiciar, sendo essa a melhor forma de comunicação e assimilação de emoções e propósitos que instauram uma obra, seja ela um filme, livro ou uma escultura… O modelo não importa, o que importa, aqui, são os meios utilizados para a sua execução, a percepção artística, mas agora sob a ótica de outrem, nesse caso: do crítico. Faz um bom tempo que venho pensando em escrever sobre isso, sobre essa relação conflitante e extremamente questionada de arte e julgador da arte, de autor e receptor, artista e crítico.

Existe um culto involuntário da negação e ojeriza à arte-incômoda, à arte que busca, no conflito de sentimentos, uma nova percepção e tentativa de ser apresentada ao espectador-crítico, mas esse último o nega por conta dessa liturgia e rejeição que busca, justamente na negação, nesse antagonismo, a verdadeira experiência subversiva que toda “arte-maior” provoca. Mas, veja bem, existe a interpretação de um leigo real e a de um leigo que não o deveria ser, a análise  simplista daquele que busca na arte o que basicamente lhe convém, o que lhe acata o afago e não o estorvo artístico-idealístico de uma obra de arte. O primeiro, esse é um caso legítimo, onde não há julgamento embasado, é o mero “gostar” sem explicação. Do outro lado, entretanto, existe a superfície da ignorância que não reconhece a sua incapacidade de percepção sensitiva, o campo covarde que não se dispõe minimamente ao enfrentamento da arte sob todas as suas faces sujas, garras e tentáculos sombrios que destroem o mundo correto: essa é a arte mal interpretada em sua completude intelectual fantasiosa de criticismo. Mas vamos lá, decidi expor isso em palavras porque de uma certa forma começou a me incomodar. Dia desses estava assistindo a alguns filmes, entre eles algumas obras do cineasta austríaco Michael Haneke. Fiz uma pequena maratona de sua excelente filmografia – ainda que não tenha completado o seu acervo artístico – quando comecei a me questionar o motivo das pessoas classificarem algo como basicamente “bom” ou “ruim” sob a análise subjetiva do seu criador (nesse caso o Haneke) e não dos motivos que o levaram a fazer isso (no caso Amor, seu filme de 2012).

Ivan, o Terrível, e seu Filho; por Ilya Repin

Ivan, o Terrível, e seu Filho; por Ilya Repin

Explico. Vale tanto para Haneke quanto para qualquer autor que flerte com a arte de vanguarda, que deforma a realidade e a expõe em vísceras, mostrando assim a sua realidade concreta, sensível, porém próxima do humano e não do sobrenatural e idealizado. Na análise crítica, existe quem avalia o resultado e não o(s) motivo(s) que levaram ao tal resultado, quem julga a matéria realizada e não o processo de sua fabricação… Os meios de manipulação, nesse caso, passam desapercebidos em sua grande maioria, limitando a arte no que chamo de “subjetividade nociva”, em contraponto à subjetividade benigna – essa última que expõe a perspectiva profusa que o intelecto privado pode provocar, por isso a discrepância analítica. Porque é óbvio, o desvencilhamento do subjetivo é algo impossível em qualquer obra sujeita à interpretação, todos sabemos disso, seja na arte ou não, mas não é o que busco aqui, o problema, na verdade, é a diferença entre os modos de abordagem que podemos absorver do subjetivismo. Peguemos o caso do nocivo, por exemplo, a liberdade inexiste em sua psiquê, é como a visão pura e simples de um leigo que não se sujeita ao estranho, ao embate estético e emocional que a arte-estranha lhe provoca; enquanto, a segunda alternativa, a benigna, aponta para a completa libertação, para o aceitamento do distinto como algo a acrescentar e aperfeiçoar a sua psiquê, e não atormentá-la como acredito que seja erroneamente idealizada no senso comum. Pois, assim como a arte própria de sua gênese, a arte é algo que inexiste, quando aceitamos tal afirmativa: tudo pode ser arte.

Logo, é evidente que o mesmo ocorre aqui, é como algo extremamente necessário e saudável à arte, assim como à sua análise crítica. Não existem limites, freios discriminativos, tudo é válido na subjetividade benigna, o fator preponderante é o percurso para a obtenção da arte com “a” maiúsculo – e minúsculo ao mesmo tempo, já que é irreal, invenção apoiada em elitismo. O que nos leva a estudá-la é o que a transforma consequentemente em algo valioso, por isso a segregação, o evitamento dessas novas experiências, que surgem como fonte de aprimoramento, reduzem a relação arte-receptor. É interessante e de uma certa forma surpreendente abordar esse assunto agora, pois, anteriormente, via-me enquadrado na subjetividade nociva, fui gradativamente oscilando de pensamento quando notei a falta de igualidade apreciativa que sustentava e da qual me sujeitava erradamente, e isso acredito que o tempo nos impõe aos poucos aliando ao conhecimento que adquirimos; de todo modo, é importante ressaltar que a igualdade, aqui, não está em sua acepção de mediocridade, de nivelamento ao pobre e desprezível, de modo algum, mas sim ao sentido de marco zero, de ponto de partida congênere, pode-se tudo, a distinção surge posteriormente, e isso em razão do processo elaborativo e não da intolerância a priori.

Gustave Courbet - L'Origine du monde

Gustave Courbet – L’Origine du monde

A beleza não é estática, o realismo não é singular na arte, e sim plural; o ineditismo não é o elemento-base importante a ser explorado; entretanto, todos esses tópicos apontados são, sim, complementos que transformam o processo elaborativo de uma então obra de arte pariforme, igual em gênese, em um conteúdo qualitativo de valor superior. Quando presencio uma obra expressionista, por exemplo, obviamente que não espero a serenidade de uma obra impressionista. Isso é evidente. A diversidade é importante justamente por esse motivo, é necessário salientar que existem razões erradas para não gostar de arte, para não gostar de música, de certos gêneros musicais, de filmes, movimentos cinematográficos, de quadros, correntes artísticas… Existem inúmeras razões imprecisas para rejeitarmos a arte em sua real acepção que vá em contraste ideológico com o realismo, com a beleza do senso comum, o conhecimento limitado… E isso – ora vejam só! – também cai no âmbito do indivíduo, mas do indivíduo que lhe oferece alternativas para resolver a problemática que é exposta, essa em razão de sua subjetividade, óbvio, mas que dessa vez não evita o problema sem tentar entendê-lo ou apreciá-lo pelo o que ele é em sua essência.

Voltando novamente ao meu descontentamento, para terminar. Me desanima quando vejo que alguém deixa de ver um filme, ou escutar determinado gênero musical por conta dessa fuga que descentraliza o agente passivo da arte e suas ações quase que dogmáticas, algo que possa expulsar o receptor para um espaço fora de sua extensão costumeira, visto que isso só reforça a repressão da arte-livre que expus anteriormente, é algo que me desanima de verdade porque a arte é muito maior do que esse afunilamento de gostos e dogmas. Quando o esquivo não existe, e essa barreira é finalmente quebrada, ainda é preciso enfrentar a fase de autocrítica e de compreensão dessa repulsa gratuita e normativa, sem entendimento, quase pré-escolar. Esse certamente é o maior desafio, mas um desafio que surge diante de um avanço. Pois digo e repito: quando finalmente aceitamos que a arte não existe, a arte torna-se tudo. E isso é maravilhoso! Quando finalmente deixamos de julgar o ponto final de uma obra e passamos a analisar as suas vírgulas, a arte assume uma forma imensurável e nos propicia a sua plenitude. E isso só a transforma na coisa mais interessante do mundo.

3 comentários em “A arte não existe

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Publicado às 27/03/2014 por em Artigos, Cinema, Música e marcado , , , .
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