Papel Cult

Recomendado: Ulysse Carrière

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Enigmático projeto experimental canadense que faz uma interessante mistura de gêneros, aparentemente distintos em sua estética, mas que acabam encontrando a concórdia em seu resultado final. Sendo especificamente tais vertentes o noise e a música erudita, que, aqui, encontram-se em um embate da música e da “não-música” proposto no classicismo e no avant-garde (o erudito e o noise, como dito) a traçar o caminho de variantes sonoras entre as faixas, essas em que o disco explora e propõe sem qualquer espécie de aviso prévio, despertando assim uma admiração diante do espanto imediato que a estranheza provoca, obviamente por parte dos ouvintes mais, digamos… Desacostumados. Com a emblemática imagem da cena de Persona estampando a arte da capa, Shallanews Wash instaura uma atmosfera dramática e intensa semelhante a qual o cineasta sueco Ingmar Bergman observara em sua obra-prima da sétima arte; no entanto, aqui, por sua vez, o que escutamos e presenciamos é a transfusão de sentimentos parelhos às personagens de Bergman, e não completamente fidedignos. Mas agora vemos com os ouvidos as imagens sustentadas pela melodia e desespero, um concerto agora liderado por outro regente, que é igualmente anônimo, transferindo ao ouvinte (incógnito tal qual Ulysse) a funcionalidade de paciente da obra, agente passivo da arte, como uma vítima que é imposta a um espetáculo de reprodução musical, uma representação da realidade que se transforma a todo instante, sem nunca assumir a sua verdadeira face.

Cada canção de Shallanews Wash exerce quase que um cargo de submissão no álbum, as músicas entregam-se em um jogo sórdido, mas estranhamente sedutor. Os cortes que mutilam a obra a todo momento, destruindo o seu normalismo estrutural, acabam por sustentar um show aparentemente desarmônico de demolição da trivialidade da obra, da distinção do apurado, sublime… Com o obsceno, imperfeito… Na realidade, essa dissonância plástica e estilística estabelece, contraditoriamente, o quase completo acordo em sua extirpação do corretismo musical, não só da música pop, mas da música segregada em gêneros, nichos… Do sentimento vulgar que expus anteriormente, dessa estrutura melódica da canção que é repartida em inúmeros momentos, ora passeando em seu completo modelo de caos pandemônico: ruídos, cortes severos de estrutura, vociferações eletroacústicas agudas e corrosivas, como acontece magistralmente em Lurch of Lawn, sendo o seu ápice; e ora acalantando em seu absoluto gracejo versado, ciente e hábil de seu descanso composto de placidez presente na música erudita, na música dita não-pop. Ora, uma besteira tamanha! Pois Ulysse, aqui, junta esses pontos díspares do vazio, do gratuito estabelecido pelo senso comum, com a música sublime, essencial… Sendo essas mesmas atribuições e conceitos igualmente estipulados pela acepção popular, pois Ulysse nos expõe isso de um modo certeiro, ainda que me pareça um tanto involuntário e sem compromisso – o que na realidade pouco importa.

Ficha

Artista: Ulysse Carrière

Ano: 2014

Álbum: Shallanews Wash

Gênero: Noise/Experimental

Origem: Canadá

Onde escutar: Bandcamp

Um comentário em “Recomendado: Ulysse Carrière

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Publicado às 12/04/2014 por em Música, Recomendado e marcado , , .
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