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Recomendado: Trist

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Projeto paralelo de uma das mentes da banda de black metal Lunar Aurora, Trist, alcunha composta de um aparente jogo de palavras com o nome do seu regente, Tristan, e a palavra latina tristis (triste), nos propõe um interessante enigma sensorial mergulhado em noise, drone dark ambient, um passatempo de absorção e assimilação estética que, através da insistência, da persuasão do seu maestro, nos coloca de encontro-oposto ao normatismo da música, de sua ausência como algo natural. Aqui, por sua vez, é o barulho que assume esse caráter intrínseco, de um modo que sua proposta apocalíptica e pandemônica seja admitida gradativamente como algo genuíno, não diferente do habitual na ausência de música. O seu aniquilamento artístico é incorporado pelo ouvinte de um modo completamente distinto, nativo, complacente à essência anteriormente (não) escutada no silêncio. Para isso, de imediato, somos inseridos em uma atmosfera densa e longa, por vezes complicada de acompanhar e de fazer parte de seu propósito, somos incorporados ao movimento homogêneo e ruidoso de quase uma hora que testa, a todo instante, a atenção e sensibilidade de quem está escutando; no entanto, o afrontamento que presenciamos, aqui, é parelho, corrosivo à concepção de sua gênese, sem nunca abandoná-la a assumir um corpo mais habitual, como visto em bandas mais tradicionais de black metal. 

A princípio, em sua faixa inicial, nos minutos e mais minutos de um black metal quase que todo instrumental em síntese estética-minimalista, somos mutilados por um cosmos enfurecido e virulento, que beira o ritualístico, um dinamismo que nunca cessa e perturba o receptor, mas sem afugentá-lo em ojeriza ao incômodo. Na realidade, é o oposto o que presenciamos em Hin-Fort, a primeira faixa do álbum é um ponto importante da obra, é dela que vem todo o ímpeto artístico do disco e que descamba no furor imersivo e posterior das outras músicas, trata-se de uma introdução obrigatória ao ouvinte, uma espécie de ensaio à resistência de suma necessidade; os sobreviventes que conseguem suportar o masoquismo primário já seguem aptos para o seu epílogo, para o desmoronamento do que tornara-se escombro em poucos minutos, o que escutamos de resto é a exploração da agonia em cima da agonia, já que a mesma tornou-se natureza da obra. Pois Hin-Fort surge como um magnum opus forte e intrépido, vistoso e ao mesmo tempo amedrontador, mas não revela-se um medo aversivo, de imposição cega, e sim de admiração, um medo em respeito à sua monumentalidade.

Em meio a toda carnificina destrutiva que se instaura no disco, não só em seu prólogo, mas em todo o álbum, somos volta e meia instruídos e questionados (?) com retalhos, ou até mesmo pensamentos completos de Tristan, que assumem os vocais tradicionais do black metal em um modelo spoken word. Em um desses momentos, temos o seguinte monólogo:

“[…] Space is my calling, one component to that is, is wanting to have things happen which aren’t usual. Wanting to have perceptions of a different reality than you’re used too. Even wanting illusions to occur and thinking that they are fun. It’s wanting to have an experience. An experience of the real thing and an experience of the unreal things. and so you go into space with a looseness. But it gets back too the idea if you want to understand space, you have to give yourself over too it. If you resist becoming a space creature, its gonna hurt. I think one reason it goes easy for me is because I want things to happen. I want space to effect me. I want it to move me. I want it to do things to me. I think it is compatable with my philosophy of there is only one thing constant in our universe, and that is change. And that is continue evolution in all the forms. Physical, spiritual, any way you want. Change is the only constant. I am the cosmos, I am part of this process that I am doing. I’m part of it. I’m molecules. My molecules are those molecules. The stars that die, that’s me. It’s a real art how to draw yourself perfectly.”

Na segunda parte desse que é um dos fragmentos mais instigantes que interrompem o êxtase transcendental que o disco fomenta, temos essa declaração que deixa transparecer muito bem a síntese do que Hin-Fort passa ao ouvinte ao longo de suas extensas faixas, pois é nesse momento, logo de imediato, que Tristan expõe o sentimento e a própria percepção acerca de sua obra, seja como autor ou agente passivo, pois aqui vale para os dois, o sentimento provocado é o mesmo. O músico, nesse breve estilhaço sensitivo e até mesmo confessional, eu diria, nos revela o que musicalmente já estava mais do que perceptível, a salientar, entre outras coisas, sobre o caráter cósmico de seu disco, da experiência real e irreal que se instaura nesse intervalo de entrega semi-ritualística que nos transcende, mesmo que por alguns instantes. Ele, Tristan, é o próprio cosmos, o conjunto do transe artístico proposto em Hin-Fort, ele sabe disso, e quer nos mostrar que sabe, ainda que todo o conjunto prove que tal atitude seja perfeitamente desnecessária. Explicações, aqui, são mais do que dispensáveis.

Ficha

Artista: Trist

Ano: 2007

Álbum: Hin-Fort

Gênero: Dark Ambient

Origem: Alemanha

Onde escutar: Youtube

 

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Publicado às 17/05/2014 por em Música, Recomendado e marcado , .
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