Papel Cult

Sobre comportamento, internet e falta de identidade

Trout Mask Replica, 1969

Trout Mask Replica, 1969

Recentemente tenho achado interessante notar como os limites do desnivelamento artístico, hoje, são quase que inexistentes. Os confins para gostar de arte, seja ela música, cinema e suas divisas, no nosso tempo, ocorrem, em grande parte, na prevalência do passado e na exaltação de pensamentos envelhecidos e puristas. Por exemplo, acho curioso, confesso que com um certo complexo de vergonha disfarçada de graça, a contrariedade de uma ideologia que mais se assemelha ao de uma sociedade da aparência às avessas, não aquela sociedade questionada e inocente: do belo no senso comum, do material no senso comum, dos hábitos e gostos no senso comum. Não, não é isso. De modo ilógico, na arte e no gostar de arte, hoje em dia, e acredito que principalmente em razão da era digital pós-internéticaredes sociais e afins, isso ocorre de um modo distinto e assustadoramente falso; o pavoneio atual me parece algo antagônico aos valores do criticismo da arte-comum em sua gênese, dos apreços da arte adquiridos e estabelecidos com o tempo, em contraponto ao seu modelo vigente.

Ora, punk, no wave… Até mesmo o indie teve o seu momento de, digamos… Rebelião. Também tenho consciência, é verdade, que a arte sempre sobreviveu desse confronto estético. Bem, a arte em termos, os analistas da arte é que continuamente procuram esse rompimento com a cultura pop em um dualismo que, ao longo da história, ficou encarregado de classificar o que é popular e de rotular o que é marginal, em um jogo onde o inferiorizado é enaltecido. Do rompimento de valores, da suposta arte superior a inferior, sendo, em sua grande parte, o inferior-estético superior ao popular; no entanto, hoje me parece que não há mais motivos para tamanha discórdia, eu diria que atualmente a autenticidade está em um contexto muito mais próximo da música pop, do mainstream, do que da música experimental, de vanguarda; o experimentalismo e o classismo da arte, do seu apreciamento, melhor segmentados no campo musical, não operam mais como antigamente; porém, não saberia dizer se isso já reflete em um contexto cultural de grandes proporções, acredito que há, sim, um comedimento por parte da crítica especializada, essa que cada vez mais prevalece no seu ideal de convergência reflexiva, com o pop e o que ele estabeleceu nesses extremos de gêneros; no entanto, ainda existe, por parte da crítica e público, uma certa resistência a esses valores, e acredito que sempre existirá, o que por sua vez proporciona um conflito saudável – eu mesmo mantenho ideais de ambas perspectivas.

Filth, 1983

Filth, 1983

Hoje, a música, antes postergada e que via na revolta de preceitos a razão de sua particularidade, não possui mais motivos para tal embate, já que a arte experimental está cada vez mais unida à arte do senso comum, as duas englobam o envoltório público e crítico da música popular. Pois, voltando à velha concepção da contra-arte, da arte incômoda e desconforme, manter essa concepção, atualmente, seria como plantar um distanciamento artístico que é notoriamente inexistente. No presente, esse empirismo, quando dissecado, sobrevive de conceitos que poderiam, facilmente, ser utilizados como indulto da mediocridade sentenciada na música pop; ou seja, sua arma alegativa é inválida. Não há mais uma definição, um isolamento predefinido de gostos e dogmas, hoje está tudo muito parelho e caminhando quase que para uma comunhão de afunilamento e questões, em um singularismo estético pouco perceptível na história da arte, seja ela na música ou não, apesar de sua força argumentativa ser muito mais destacável no meio do que em outras vertentes artísticas. A pintura, por exemplo, passou por isso com a pop art; pois já na literatura não presenciamos algo de caráter empírico e reformador como esse há tempos. A música, por sua vez, vem se transformando gradativamente com o popismo, ignorar isso é ignorar a evolução da mesma, a evolução do pensamento crítico.

Contemporaneamente, o que prevalece é cada vez mais a pluralidade cultural, essa em tempos onde distinção da apreciação e gênese criativas são completamente ilícitas. Mas ok, digamos que esse desprendimento ainda exista, sobretudo, de certo modo, em nichos, dogmas e até mesmo em gêneros musicais, substancialmente sob um pensamento anacrônico e pobre, fruto de Frankfurt e suas peçonhas de raciocínio crítico. Como rebatido anteriormente, suponhamos que esse desapego cultural resumitivo ainda diminua-se, em boa parte, a contextos segmentados como os da internet, ou mesmo de tribos e “corporações”, como a crítica musical, mentes resumitivas que condenam a arte/música ao contexto de feiura e transgressão como algo transcendente, de valor superior ao senso comum; ou, em casos específicos, como o da música erudita, no ideal purista, limpo e que beira o chauvinismo estúpido.

Rome 78, por James Nares (1978)

Rome 78, 1978

Hoje, a internet faz parte da natureza de qualquer um, ela está a alcance de todos; logo, a chancela do criticismo também encontra-se defasada em razão de um igualismo evolutivo, para não dizer natural. Justamente por isso, o progresso digital vem demolindo gradativamente esse conceito separatista, que sobrevive do pensante-estagnado, da nocividade desse ideal no qual não há discernimento na arte. Inúmeras plataformas de pensamento também estão ao alcance de todos, o Twitter, por sua vez, é a maior ferramenta de pensamento crítico-instantâneo da atualidade; a qualidade desse pensamento, bem… Isso já é outro assunto, assim como o lado da moeda que é defendido na plataforma, sendo essa, basicamente, uma ferramenta de hostilidade gratuita e que vive em função do invento da imagem que se cria nela, apoiada na insegurança de seus usuários. Rate Your Music, Facebook, Last.fm e afins também figuram no mesmo perfil.

Entretanto, a eficácia comunicativa nisso tudo possui um real significado, o funcionamento válido dessa premissa que rompe com o primeiro argumento de segregação de nichos, quando o mesmo é ilusório em tempos modernos, a insistência em tal silogismo reforça a falta de identidade e insegurança da geração atual, como dito; geração essa que me parece momentânea, tão comum e superficial quanto a do conhecimento vulgar e questionado, da imagem de um ideal estacionário e que sobrevive do fetiche que se cria ao seu redor. No fim, não é errado manter um pensamento como esse, ou mesmo buscar na representação de ideias a sua concepção de arte, de criticismo, a reproduzi-la sem qualquer naturalidade, por mais negativo e desanimador que isso me soe; porém, seria incorreto da mesma forma negar que esses são pontos de raciocínio que a arte e a sua apreciação nos proporcionam, isso é interessante e saudável para o processo de discussão; ainda assim, é igualmente importante notar o quão empobrecedor e mecanicista você pode transformá-la (arte e percepção) ao tentar resumir algo tão grandioso em tamanha miséria reprodutiva.

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Publicado às 26/06/2014 por em Artigos, Cinema, Música e marcado , , , , , , .
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