Papel Cult

Não existe crítica musical no Brasil

Lúcio Ribeiro, jornalista cultural

Lúcio Ribeiro, jornalista cultural

Vários elementos, ao longo desse meu ciclo de dedicação à música além do seu universo meramente reprodutivo e mastigado, apoiado basicamente nas recomendações do que a crítica internacional nos indica para ouvir, me levaram a crer que não existe crítica musical no Brasil, muito menos cena independente ou algo semelhante. Seja ela tanto por parte da própria crítica especializada, quanto por parte do público, que, além de não consumir a própria cena musical, também não se interessa por crítica. Pois o mesmo ocorre com os artistas que fazem parte desse contexto, em sua maioria eles possuem uma vida útil mais curta do que a de boy band criada em reality show ou qualquer um desses hits fáceis de verão. Infelizmente, digo isso com o pior dos sentimentos, o mais pessimista possível. Me parece que, desde a sua gênese, a crítica musical brasileira vive apenas à base de reprodução, reflexo de conteúdo alheio sob um certo, eu diria… compadecimento pela cena nativa, uma espécie de piedade disfarçada, atitude eufemística para não excluí-la efetivamente das páginas amarelas de revistas encalhadas em bancas de jornais e dos míseros cliques em sites e blogs de cultura.

Antes de tudo, também gostaria de deixar claro que o que sugiro aqui não é para soar como uma espécie de nacionalismo infantil e bobo, de vitimização por parte do que chamam de aculturação, ou seja lá o que for. Esqueça isso, o fato exposto aqui é outro, é a percepção de um sentimento de negligência implantado no criticismo desde os primórdios, que perdura há anos, e é duplicado pelo público que consome música brasileira, da preguiça que existe no ser crítico (pessoa e ato) e na tarefa de acompanhá-lo, algo que acontece muito bem lá fora, revertendo na ótima comunhão entre ela (crítica) e de quem a segue.

Pois o que há no Brasil é algo bastante distinto do que existe nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo. Basicamente, o que temos em terras tupiniquins é uma crítica compassiva, da boa vizinhança, sumariamente fundamentada na apatia que os artistas sofrem das mídias de massa, e, igualmente, por mais incrível que pareça, da mídia e cena alternativa. Sim, ela mesmas. Expliquemos. Hoje foi anunciado o fechamento de uma das casas de show que, a princípio, funcionaria como um berço da cena alternativa no Rio de Janeiro, um espaço de divulgação de novos artistas e bandas. O Studio RJ, a exemplo de seu irmão paulista, que também já bateu as botas em um curtíssimo período de vida, sempre me passou a feição de que não teria lá uma jornada das mais duradouras. Inaugurado em meados do não tão distante 2011, a versão carioca do Studio SP nem mesmo completou metade da existência de seu irmão paulista, esse que ainda perdurou durante 8 anos e conseguiu meio que estabelecer um protótipo de cultura alternativa – explico mais à frente o porquê do negativismo. Entre um dos vários motivos apontados pelos idealizadores do projeto (Ale Youssef e Plinio Profeta) para o seu insucesso prematuro, o que mais chama a atenção é justamente o da fraca resposta que existe por parte do público em sustentar novos artistas, nesse contexto pouco atrativo que existe em torno da cultura indie nacional.

“Sentimos muita dificuldade de formação de público. E, como não tínhamos patrocínio, precisávamos ter autossustentabilidade. Acabamos tendo que criar as festas pós-show, o que gerou um outro tipo de público e reclamações de vizinhos. A noite do Rio é forte, bomba no samba da Lapa, no funk. O problema é o alternativo. Para essa cena acontecer tem que haver empreendedorismo de quem a ama. É necessário ter outros Audio Rebel (palco que hoje é a maior referência para a música alternativa na cidade). Uma casa não faz a cena, a cena faz uma casa.”  

Diz Ale Youssef, em entrevista ao site do jornal O Globo.

Já Plinio é ainda mais enfático:

“Não querem pagar ingresso, isso é um fenômeno do Rio. E o paulista é mais curioso por coisas novas. Aqui vão no hype.”

Outros motivos também são apresentados pelos dois na entrevista, é verdade, como a capacidade do local (que foi reduzida), a localização, mas nada que soe tão preocupante e primordial para o rompimento de um projeto quanto a indiferença do público enquanto consumidor, enquanto força motriz de uma cultura local fraca, que se rejeita até mesmo a pagar o ingresso para assistir ao show. Afinal, esse me parece o real motivo dessa reação em cadeia: não há cena, não há casa, como bem disse Youssef.

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Studio RJ

Plinio também aponta para o diferencial de interesse que existe entre cariocas e paulistas, que os nossos vizinhos são mais ávidos por coisas novas, pois é aí que retorna aquele meu ceticismo que apontei anteriormente. É realmente notável uma diferença cultural por conta da cena de São Paulo em relação a carioca, até mesmo nos últimos anos surgiram alguns nomes interessantes desse contexto de SP; no entanto, se pararmos para analisar, esses casos são raríssimas exceções, que até mesmo podemos contar nos dedos da mão. Precisamente, essa escassez fortifica um dualismo curioso da crítica brasileira: o bom mocismo que tratei no início do texto, da propagação automática em prol publicitário e de autopromoção, com a criação da figura clássica do crítico como algoz rabugento, descrente com a música popular brasileira atual e afins, mas que na verdade acaba sendo apenas o reflexo de todos esses empecilhos, da preguiça que é espelho do descaso do público, que por sua vez é espelho do descaso das mídias de massa, numa bola de neve que só cresce culturalmente.

É ainda mais interessante notar como esse efeito dominó funciona na televisão, por exemplo. A maior das mídias de massa acaba criando um ideal que reflete automaticamente nas mídias alternativas, como blogs sites de música. Por exemplo, esse ano a Rede Globo inaugurou um novo reality show musical chamado Superstar, nos moldes de inúmeros programas do tipo: The Voice, American Idol e afins. Entretanto, não é a falta de originalidade que chama a atenção no programa, e sim o comedimento que se cria quando é necessário aprofundar qualquer tipo de criticismo por parte dos jurados, esses que não medem esforços para passar a mão na cabeça das bandas e cantores. “Ah, mas tudo bem, Ramon. É um programa qualquer”, você poderia dizer. Sim, é um programa como outro qualquer que, em suma, não tem compromisso algum em revelar a nova “salvação” da música brasileira, não há erro nisso; contudo, é importante notar como a demasia da frouxidão no julgamento, o excesso de prudência projetado em atrações como essa consegue refletir diretamente no comportamento do espectador, ecoando em inúmeras outras plataformas.

Óbvio, também não é o ponto culminante disso tudo, não trata-se de uma paranoia infantil e anti-global, mas não seria exagero ressaltar como isso possui um significativo aditivo na fortificação da concepção passiva e supra-civilizada que a crítica nacional possui. Recentemente, em outro programa televisivo, o The Noite, do SBT, apresentado pelo humorista Danilo Gentili, a cantora Sky Ferreira foi uma das atrações musicais e se apresentou em uma espécie de pocket show à lá programa de entrevistas norte-americano, logo após ceder uma das entrevistas mais vergonhosas que assisti na minha vida. Bem, seria somente mais um talk show ruim e enlatado, é verdade. De um entrevistador igualmente ruim e incompetente, também é verdade. Atitude de alguém que não sabia o que fazer com a sua então mega valiosa atração internacional; no entanto, o espetáculo vexatório possui um significado muito maior quando, o seu valor simbólico, representa uma parte do que expus aqui até agora.

Quem acompanha a crítica internacional sabe que Sky Ferreira é fruto do que dá certo na crítica estrangeira, e que apontei como contradição à crítica brasileira. Seu disco de 2013, Night Time, My Time, foi muito bem recebido por inúmeros sites formadores de opinião, entre eles Pitchfork NME. Pois o que isso tem a ver com o programa e a entrevista vergonhosa de Danilo Gentili? Primeiro, seria mais do que conveniente notar como Gentili, até então, nunca havia levado uma atração musical alternativa em seu programa, sendo a primeira uma figura internacional. Em programas como os de Jimmy Fallon, por exemplo, Sky seria uma atração quase que corriqueira, Fallon esse que é nitidamente espelho para Gentili em seu talk-show. Enquanto lá fora a música alternativa gradativamente invade as mídias de massa, em uma linha tênue com o mainstream cada vez mais inexistente, aqui permanecemos na importação de cultura alternativa com ares de mega atração pop, isso em programas adaptados e igualmente importados, e no fim esse intercâmbio cultural é tratado como um produto nacional pela sua inabitualidade patente da cultura nativa. Seria coerente, na realidade, já que, como dito inicialmente, no âmbito internacional, está cada vez mais frágil essa separação, mas infelizmente não é o que vemos no Brasil.

Chico Dub, produtor cultural

Chico Dub, produtor cultural

Fica até mesmo complicado estabelecer um veredito de quem influencia quem nesse jogo de desconsideração e inferioridade com a música alternativa brasileira: seriam as mídias de massa, que influenciam as mídias alternativas, que influenciam o público? Ou seria um processo diferente, reverso? A música brasileira, desde os tempos da bossa nova, sentiu nesse embate a necessidade de ganhar primeiro o mundo, para depois tentar ganhar o Brasil. Conseguiu em primeira instância, apesar do resultado hoje ecoar apenas lá fora. Pois também foi o caso do heavy metal nos tempos de Sepultura. Também conseguiu, novamente com ênfase exterior. Atualmente o caso está na música experimental, precisamente mais na música eletrônica, não sabemos se o resultado no futuro será semelhante ao da bossa-nova e do heavy metal, por mais que minha expectativa não seja lá das mais otimistas.

Ok, é verdade que temos alguns nomes importantes hoje em dia, que ajudam nessa tentativa de mudança do pensamento crítico nacional e do reduto da cena alternativa brasileira, ainda que de modo involuntário. Chico Dub é um desses que tem sido uma espécie de porta-voz da proliferação do que acontece no submundo da nossa música, mas o incômodo ainda prevalece no visar outro campo cultural que não seja o nosso, pois não há como ascender unicamente em território próprio, em terra brasileira. Não existe como, não há um grande formador de opinião no Brasil para tal feito, não há uma cena forte para fomentar isso, o que vejo é basicamente reprodução de conteúdo atrás de reprodução de conteúdo, quando não é isso, é divulgação gratuita, que não é correspondida em grande escala. Os que fogem disso caem no arquétipo do crítico desacreditado e ranzinza, como disse, pois consomem o bom mocismo daqueles que apenas reproduzem. Para mim, a crítica musical nunca existiu no Brasil, e acredito que ela jamais existirá, ao menos enquanto pensarmos desse jeito.

4 comentários em “Não existe crítica musical no Brasil

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  4. Vinícius
    10/04/2016

    Fantástico artigo, parabéns ao escritor!

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Publicado às 06/07/2014 por em Artigos, Música e marcado , , , , .
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