Papel Cult

Lista de meio do ano: 2014

vinylimg

Estamos na metade do ano, a Copa do Mundo já não habita mais terras tropicalistas e nos deu um adeus, eu diria… Um tanto que melancólico demais, ao menos para as nossas expectativas. Presenciamos o maior vexame de todo o histórico da seleção nos mundiais da FIFA; no entanto, também vimos os nossos hermanos argentinos sofrerem o seu maracanazo particular, ainda que de forma menos vergonhosa. Fora desse contexto futebolístico, que paralisa e emociona a nação a cada 4 anos, e rapidamente vai embora para deixar um enorme vazio cultural, eis que aqui estou eu, mais uma vez, para tentar listar alguns nomes interessantes que me marcaram musicalmente nesse movimentado ano de 2014. Até então, nesse meio caminho andado, posso dizer que já escutei o maior número de discos em todos os anos que me dedico a acompanhar o que rola pelo mundo da música, não cheguei a catalogar o que escutei até aqui, coisa que pretendo fazer em 2015, mas certamente ouvi muito mais coisa do que no ano passado.

De modo surpreendente, ainda que até agora o ano não tenha me impressionado tanto como me impressionou em 2013, 2014 já está sendo um ótimo ano para a música, nesse meio trajeto andado eu pude escutar bons e ótimos lançamentos, dos mais diversos gêneros e estilos, movimentos e nichos. Pois bem, como na lista do ano passado, selecionei aqui alguns nomes que, provavelmente, figurarão na minha lista de fim de ano, outros podem eventualmente ficar de fora, já que ainda temos muito tempo pela frente e, decerto, novos e bons discos irão surgir nesse médio percurso; mesmo assim, os lançamentos apresentados aqui são aqueles que, de algum modo, conseguiram mostrar algo além do que eu esperava musicalmente de 2014. Sem mais enrolação, sem mais conversa, vamos à lista:

a4226942446_10

The Kurws – Wszystko co stale rozplywa sie w powietrzu 

Banda polonesa, já em seu segundo álbum de estúdio, o pessoal do The Kurws fez desse recente trabalho, até então, o melhor disco do que eu, na verdade, não sei muito bem se posso chamar de, digamos… noise ou noise rock, mas incluindo nesse conjunto certamente está entre os melhores discos do gênero que escutei no ano. O mais interessante desse álbum é como o grupo conduz o free jazz, característico da obra, arrastando-o durante os vários minutos de suas faixas, a implementar a estética improvisada perceptível no trabalho do grupo, sendo ora para um campo próximo ao de um post-punk desfigurado, que volta e meia é violentado pelas guitarras distorcidas do disco, e ora conduzindo a obra para um contexto mais tradicional e regrado, por isso o distanciamento do termo no início, algo mais adjunto ao free improvisation do senso comum, eu diria, já que o disco, esporadicamente, cria um distanciamento do jazz, ainda que tênue, em seu caráter de gênero, como nos momentos onde são utilizados, minuciosamente, elementos eletrônicos como uma espécie de acessório fora de contexto, que surge do nada, introduzindo o conjunto da obra em uma natureza completamente distinta e sedutora.

O The Kurws, com esse lançamento, opera como uma habilidosa e versátil experimental big band, coisa que a maioria dos conjuntos, não só atuais, geralmente os de free jazz mesmo, não conseguem ser, caindo sempre no mesmo conjunto estático-estético do jazz habitual. Ainda que o pouco tempo de vida do grupo queira nos provar o contrário, os poloneses do Kurws nos passam muito mais atrevimento musical do que estandartes da música experimental, nomes como os do grupo AMM, que esse ano (seria mais enfático e incluiria a discografia inteira da banda) entregou uma das piores peças de picaretagem musical, o seu recente álbum de estúdio Place sub. v. Diferente da chatice de quem ainda vive da imagem, e de pioneirismo insignificante, aqui a música possui vida, a harmonia do grupo contrapõe a anarquia que o disco propõe, em um dualismo pouco notável em 2014 e na música experimental.

Acid-Mothers-Temple-The-Melting-Paraiso-U-F-O-Astrorgasm-From-The-Inner-Space

Acid Mothers Temple – Astrorgasm From The Inner Space 

Astrorgasm From The Inner Space certamente será um dos discos mais lunáticos e psicodélicos que você vai escutar em 2014, senão o mais psicodélico e lunático. Os veteranos, e sempre prolixos japoneses do Acid Mothers Temple, retornam em grande fase com esse lançamento, Astrorgasm From The Inner Space é um mergulho transcendental nas viagens narcóticas que Kawabata Makoto e cia procuram sempre instaurar na discografia da banda, pois nesse mais recente trabalho do grupo não é diferente. No decorrer das longas sessões de guitarras drone, cantos asiáticos e transe psico-musical, o ouvinte não sabe muito bem para onde direcionar a sua atenção, o raciocínio é apenas um: o de entrega, de submissão e aceitação complacente daquela realidade paralela e vertiginosa proposta pelo grupo.

Se recentemente os integrantes do Acid Mothers Temple tem demonstrado um certa queda inspirativa, o que os levaram a construir gradativamente uma imagem paródica da própria alegoria, apoiada no que mais parece um arremedo de outras grandes obras da história da música, como ocorreu em 2009 com o Dark Side of the Black Moon: What Planet Are We On?, e mais recentemente com Son of a Bitches Brew, no ano de 2012, com Astrorgasm From The Inner Space esse estigma reprodutivo se rompe para a prevalência do retorno da identidade tão marcante da banda, um enorme feito para um disco que poderia, como dito, ser apenas mais um entre os outros inúmeros que o grupo lança a cada ano aos quatro ventos. FelizmenteAstrorgasm é uma ótima e grata exceção.

ambroseakinmusire_imaginedsavior_cover

Ambrose Akinmusire – The Imagined Savior Is Far Easier to Paint 

Ambrose Akinmusire é um trompetista norte-americano de jazz e já possui três álbuns de estúdio em seu currículo musical, junto contando com esse que vos indico aqui. Não cheguei a escutar o resto da discografia do rapaz, coisa que pretendo fazer futuramente, mas alguma coisa me diz que essa é a sua obra-prima – de uma ainda curta e próspera carreira, é verdade. The Imagined Savior Is Far Easier to Paint reúne um conjunto de peças complexas e sofisticadas, mas sem nunca esbarrar no easy listening frágil de elevador, ou em música lounge de restaurante granfino. Na realidade, The Imagined Savior, em certos momentos, parece uma obra completamente inabitual para a sua cena, teria a audácia de dizer, sem escrúpulo algum, que esse disco do músico norte-americano consegue algo além do que Miles Davis propunha em sua fase post-bop.

Explico a heresia. Ambrose nos entrega uma obra menos arredia e linear, sua música consegue ser ainda mais ostensiva que o post-bop clássico, há um entusiasmo poético mais perceptível em seu disco do que a fase-Davis, por exemplo, o que é identificável pelo senso melódico que Ambrose possui, sabendo, de modo inteligente, lapidar os excessos do campo livre da música jazz, com o seu âmbito mais tradicional, eu diria até mesmo sentimental. A parceria com cantores de outros gêneros musicais, que colaboram nas faixas, como a canadense Cold Specks, dona de um dos melhores discos de 2012, elevam a obra de Ambrose a novos caminhos além dos quais o músico se apropria em seu campo propício, criando assim um trabalho rico e de múltiplos insights, nos mais diversos meios que Ambrose pode trilhar em sua promissora carreira.

maxresdefault

Juçara Marçal – Encarnado 

Encarnado não é só um ótimo disco brasileiro nesse ano de 2014, mas sim um símbolo da representação evolutiva que a música nacional tem sofrido nesses últimos anos, um marco informativo que nos alerta para o grande passo que a Música Popular Brasileira apresentou de uns tempos para cá, algo que vem se construindo gradativamente depois de um grande período infértil da nossa música. Encarnado resgata grande parte daquilo que morreu e vem morrendo na MPB, algo que as bandas e artistas, mídia e público nunca deram muita atenção no Brasil, o que me faz retornar ao recente texto que escrevi sobre a falta de interesse por parte da crítica e desprezo pela cena alternativa no Brasil, essa que foi morrendo na Tropicália e esqueceu-se o corpo, ali mesmo, moribundo, até hoje em decomposição.

A Vanguarda Paulista nunca foi sinônimo de grandes massas e atenções, nem mesmo nos seus primórdios de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e companhia, na realidade era pior; como dito, artistas, bandas, mídia e público deixaram sucumbir o que a nossa música possuía, e ainda possui, de mais marginal e instigante, em prol do seu representante mais popular: o Tropicalismo. Juçara pode não ser a primeira a tentar reerguer esse torso jogado no meio da rua da música brasileira, mas seguramente foi a que conseguiu com mais força e imponência representar esse recomeço. Se a música nacional tem cada vez mais peregrinado para o seu campo eletrônico, em função do fim de um real movimento ou revival significativo, Encarnado surge como um enorme clarão de esperança para a MPB.

nadja_ess021_560px

Nadja – Queller

Um dos melhores discos de shoegaze que escutei no ano, competindo somente, talvez, com o novo do Fatal Nostalgia, ainda que os dois sejam completamente distintos esteticamente. Tenho me decepcionado bastante com o shoegaze nos últimos anos, esse ano mesmo foram poucos os álbuns que me marcaram substancialmente, parece que o gênero está cada vez mais morto e repetitivo, tudo me soa semelhante demais ou inofensivo. Esporadicamente, também é verdade, surge algo interessante, mas nada muito impactante; pois esse novo disco do Najda, banda já com bom tempo de estrada, consegue dar um novo vigor ao estilo já tão castigado pelo tempo. Queller não é um álbum de shoegaze tradicional, é bom que fique claro de antemão. Como era de se esperar de uma banda como o Najda, que sempre flertou com inúmeras vertentes do rock alternativo, sendo aqui o drone e o sludge metal os mais notáveis, Queller é um disco singular no gênero.

Se utilizando dessas características atributivas mais incomuns ao shoegaze, o Najda acaba conferindo mais força ao estilo, esse que cada vez mais tem deixado de lado a imersão sensitiva de outrora, algo que era bem característico no auge noventista, para o acolhimento de um dream pop com guitarras docinhas e semi-distorcidas. No entanto, em Queller, a coisa felizmente é diferente, trata-se de uma obra pesada, principalmente quando imerge o ouvinte em sua atmosfera mais densa e penetrante do drone metal, por isso pode desagradar os já familiarizados com esse neo-shoegaze inofensivo – o que na verdade eu encaro como um elogio. Por introduzir um lampejo de lucidez em um contexto já tão desgastado como o do shoegaze, o pessoal do Najda certamente figura entre os melhores lançamentos de 2014 com o esse seu ótimo e mais recente álbum de estúdio.

2 comentários em “Lista de meio do ano: 2014

  1. Pingback: Melhores Discos Brasileiros de 2014 | Papel Cult

  2. Pingback: Lista de meio do ano: 2015 | Papel Cult

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: