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PoiL – Brossaklit (2014)

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Banda francesa, já com dois álbuns de estúdio no currículo, o PoiL fez aquele que, até então, é um dos 10 melhores discos que escutei em 2014. Todo ano eu espero por um disco como esse, atemporal, que sabe utilizar os artifícios do passado ao seu favor, porém aliados ao presente e ciente do progressismo que a música possui, coisa que poucas bandas e artistas sabem assumir na contemporaneidade, isso sem soar de modo copista ou reprodutivo. Nesse álbum do power trio francês, a representação estética, musical, é própria do regente, sem floreios simulatórios ou algo que transpareça uma apropriação criativa em demasia, a dissipar a singularidade do grupo. Brossaklit, um golpe avant-prog dos mais fortes e incríveis que tomei nos últimos anos, lembra o também icônico e intenso Clara Altantsegtseg, dos conterrâneos do duo [bleu], dono do melhor álbum que escutei no ano passado, e que até hoje, dos discos recentes, foi o que mais me impressionou com sua gama de engenhosidade e força artística. No entanto, a diferença que existe nessas obras, está fixada na abordagem que os grupos atribuem ao seu conteúdo, enquanto o [bleu] foca a sua interpretação em um caráter dramático e trágico, os integrantes do PoiL fazem do seu espetáculo um semblante próspero, quase que jocoso, exagerado em uma espécie de dualidade yin-yang: sendo Yin o [bleu] e Yang o PoiL.

Entretanto, apesar dessa duplicidade cósmica e sensorial, o PoiL chega no mesmo ponto extremo que os franceses do [bleu] conseguiram chegar: o de estarrecimento diante da arte e do que ela pode proporcionar ao seu agente contemplativo. Afinal, nem toda arte se aproxima da alegoria sublime que escutamos no álbum dos franceses do PoiL e do [bleu], e nem toda relação arte-analista pressupõe isso de uma maneira tão direta e efetiva, ou ao menos busca esse acercamento frontal, poucas são as que conseguem estabelecer esse convênio do artista com o observador. Cada um possui os seus motivos, é verdade, mas alguns se apoiam no sustentáculo de fragilidade, de fácil identificação – não em um campo de inferioridade, é bom que fique claro, e sim interpretativo, de aceitação. Inclusive já divaguei sobre isso em alguns artigos, aqui mesmo do blogtratando dessa conexão, e muitas vezes da dissimulação que se cria em torno desse ideal.

Já no campo oposto, outras obras procuram esse pensamento em uma passagem mais tortuosa e obscura, a libertação se dá em um modelo oblíquo, da transição que se cria no conflito sensitivo, de sentimentos diversos e inexplicáveis, muitas vezes ligados a afeições de ódio, confusão e atrocidade. Essas emoções, difusas no pior do mundano, fazem da dramatização a cria de um método de difícil compreensão no confronto com o habitual, algo que somente obras, como Clara Brossaklit, conseguem alcançar ao incorporar o ouvinte em uma natureza distinta e arrebatadora. Mas o curioso é que o PoiL não faz uso disso de modo tão definido, sua purgação, na verdade, como dito anteriormente, é do processo inverso ao da banda [bleu]. O que escutamos aqui está muito mais próximo do ativo, diurno, quente, luminoso… Do Yang, diferente do Yin do [bleu], ainda que ambos busquem o mesmo objetivo em sua música: o da sublimação. 

Pois esse álbum do PoiL consegue imergir o ouvinte no que há de melhor no jogo displicente da arte-incômoda, que é proposto nessas obras, mas aplicando meios não tão fáceis de execução: o humor, por exemplo. Geralmente a tragédia, tristeza e afins são sentimentos mais comuns a todos, são emoções que permeiam mais o senso comum; o humor não, o humor é algo mais flexível e suscetível a inúmeras oscilações interpretativas e sensitivas, o que torna o trabalho do PoiL ainda mais admirável. Assim como Frank Zappa, que era mestre na arte cômica da música, o PoiL faz de sua versão burlesca o contexto pandemônico e atormentador da música enquanto peça-arte cabalística, propiciando ao espectador o maior número de possibilidades interpretativas possível, parte sublime essa que se aproxima de algo transcendental, mas utilizando-se de outros mecanismos, que não sejam apoiados na catástrofe, no pessimismo, criado e dissecado pelo regente e pelo seu observador.

Afinal, os valores, em sua maioria, são atribuídos pelo ouvinte, que também faz da obra o seu apreço, a sua própria criação e visão de mundo, universo magnânimo, concebido por conta desse álbum excepcional do trio francês, sendo diversamente multiplicado em inúmeras variantes e vertentes. Brossaklit instaura o caos e o paraíso, em comunhão de risadas que se misturam em desespero e graça genuína, ao mesmo tempo, no acordo sensorial de suas longas passagens subversivas, que ferem e afagam o ouvinte sem maiores escrúpulos, de jeito jocoso e espalhafatoso, deixando uma marca indelével dessa experiência única, das melhores, senão a melhor que a música pôde me proporcionar em 2014.

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Publicado às 05/08/2014 por em Música, Recomendado, Resenhas e marcado , , , , .
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