Papel Cult

Sobre arte e erotismo

Man Looking at the Origin of the World, 1998

Man Looking at the Origin of the World, 1998

As palavras aqui expostas podem soar como uma espécie de resposta a um recente texto que li na plataforma Medium, e de certo modo elas representam isso mesmo: uma resposta. Não vou negar isso, por mais que já tenha pensado em escrever sobre tal assunto, há muito tempo, e meio que já tenha abordado a temática em algumas publicações, aqui mesmo no blog. Hoje me peguei lendo o seguinte texto com o seguinte título “Por favor, parem de desenhar pinto, buceta e cu”, cujo autor chama-se Thiago Capanema. A matéria aborda, basicamente, o incômodo e descontentamento do sujeito com o conteúdo de uma feira de publicações independentes que ele supostamente visitou. A princípio, não há nada de errado com o seu tratamento, afinal, é evidente que existe subjetivismo na arte e no gostar de arte, o problema maior mesmo reside na abordagem que o rapaz faz no decorrer do seu texto, para assim assumir um traço depreciativo e analítico sem muita relação com a realidade, hierarquizando vulgarmente o caráter artístico das exposições presentes na feira.

Thiago começa dizendo que, aos poucos, passou a notar, em demasia, o conteúdo escatológico das exposições: “[…] tudo tinha uma piroca desenhada”, segundo palavras do próprio. Pouquíssimas linhas após esse comentário, Thiago abandona a cria e mira no criador, ridicularizando agora o espectador da feira.

“Aquilo era uma feira de impressos com desenhos de caralhinhos para uma juventude de 22–35 anos? […] Só então resolvi parar de olhar para os materiais e comecei a notar as pessoas que me cercavam e, então pude notar: eu estava cercado por babacas. Ou por outra: — não sei se eram babacas, mas se vestiam com o uniforme deles.” 

Sentencia Thiago.

Depois disso, sua fala torna-se uma regurgitação do ciclo de adjetivação pejorativa que ele criou, assim como à sátira ao agente e público da obra. Seu discurso não possui mais valor algum, é a defesa pura de alguém que simplesmente rejeita aquilo, apenas repudia sem saber muito bem o porquê, por motivos alheios que basicamente vão em confronto aos seus.

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Egon Schiele

A defesa de Thiago não se apoia mais no sustentáculo do estranhamento, e sim na rejeição pelo fato de que tudo aquilo (nudez, sujeira, escatologias e afins) agora possui um gênio trivial, mas o que não fica exposto é que sua concepção não expressa a supremacia popular, muito menos possui uma natureza universal. Pois esse é um ponto de imensa importância, quase toda arte que se sujeita a isso (nunca é bom generalizar, como Thiago) busca, de algum modo, através do confronto de ideias, do shock value, transfigurar a repulsa-vulgar em normalidade-vulgar. Thiago deveria reconhecer que, a sua percepção, não é a mesma sustentada pelo senso comum, deveria conceber que sua assimilação é limitante e cega, semelhante a de um crítico que esbraveja repúdio à falta de originalidade de determinada cena alternativa, pelo seu feitio possivelmente ordinário, banal, quando a mesma é minúscula, quase insignificante comparada ao campo ecumênico. O público da feira igualmente não conduz esse pensamento comum, tudo faz parte de um contexto, um ambiente fechado. Logo, sua alegação da arte sacra, espiritual, como, hoje, a real representação da essência revolucionária, transgressiva, é obviamente inválida por não se encaixar em uma tonalidade.

A alegação de Thiago, em sua grande parte, assume um temperamento quase que infantil, submetendo a arte erótica ao posto de inferioridade, como podemos notar na seguinte passagem:

“Para os moleques até essa idade não parece haver nada de mais revolucionário do que imprimir ou desenhar a imagem de uma piroca. Mas convenhamos que desenhar pintos depois dos quinze anos de idade configura uma obsessão ou atraso mental grave. […] O que essa classe — que se entende como a classe revolucionária por excelência — não entende é que os seus pintinhos não podem mais chocar a nossa sociedade.

Nós temos internet. Nós vemos pinto e escatologia o tempo todo, em alta definição. E eis que isso abriu um enorme espaço para a verdadeira loucura: a loucura de crer em Deus, por exemplo. A loucura de rezar um terço — e não a de retirar um rosário de dentro do cu em uma performance artística: isso não nos choca. Dedilhar um rosário em silêncio é muito mais louco do que retirar as contas de dentro de um ânus.”

Óbvio que hoje alimentamos um sentimento de familiaridade muito maior do que antigamente, entretanto, o fetiche, seguido do estranhamento, eles ainda existem em torno desses temas. Não é preciso ir muito além para notar a abordagem em meios populares como o cinema, internet e TV, principalmente TV e internet. Sites pornográficos existem aos montes com suas infinidades de bizarrices, mas isso não torna o receptor, o analista-comum da arte em um ser completamente acostumado a temáticas eróticas ou que envolvam certo grau de violência, e falo sobre a violência que fuja do habitual, até porque são assuntos que, por mais genéricos que sejam atualmente, ainda possuem uma natureza estranha, são objetos que se sujeitam ao anonimato do receptor, à sua análise individual, o pudor se revela quando torna-se coletivo. Para focar no campo da violência, por exemplo, tivemos recentemente o caso do jornalista norte-americano executado friamente por um membro do Estado Islâmico. O vídeo está aí, flutuando na internet para tudo e todos, com o seu convite mórbido ao espetáculo escatológico, não há barreiras para isso; no entanto, a aflição, a repulsa, elas ainda existem, negar isso é defender um comportamento quase que sociopata.

Gustav Klimt

Gustav Klimt

No fim das contas, toda arte que se sujeita à abominação, à renuncia formal, está buscando um compadecimento do público com a questão exposta. Quem não vê mais razão para isso é porque, involuntariamente, já foi afetado – caso do nosso amigo Thiago Capanema. Tudo está mais habituado, socializado, é verdade, também existe a diferenciação qualitativa, também é outra verdade. Não seria o problema aqui se fosse o assunto abordado por Thiago em seu texto, o que não acontece. Isso não se restringe apenas a um modelo artístico especificamente, na arte erótica não poderia ser diferente. Existem performances e performances, existem artistas e artistas, existem obras e obras, não é o seu arquétipo a ser analisado substancialmente, mas sim os artifícios para o seu resultado final, se em sua exibição, completude, se aquilo foi efetivo ou não – entrando na análise subjetiva. Entretanto, a mensagem que Capanema nos deixa, com esse texto, é a da construção de uma persona ingênua, de tom infantil, em contrariedade gratuita, quasi-birra, muito mais descomedido do que qualquer outra coisa. Por isso, não vejo motivo para a suspensão da arte erótica, por mais simples e habitual que esteja a sua concepção e acolhimento na atualidade.

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Publicado às 23/08/2014 por em Artigos e marcado , , , .
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