Papel Cult

Drops Review: The Black Keys, Weezer, Current 93…

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Current 93 – Channel (2014)

Compacto com as melhores músicas do mediano novo disco do Current 93, grupo capitaneado por David Tibet, e um dos percussores do chamado neofolk. Diferente do long playing lançado ainda no começo do ano, esse EP sintetiza os acertos que Tibet obteve em seu novo álbum, poucos, é verdade, mas imensamente expressivos naquilo que o músico sempre soube fazer de melhor em sua carreira. Channel cria mantras soturnos, apocalípticos, de enorme força poética, um dark ambient característico à sua obra, aliado ao rock psicodélico e, agora, com toques de avant-gard jazz. Pode não alcançar a sua plenitude, talvez como jamais o músico tenha alcançado em sua jornada musical, afinal Tibet sempre foi um artista de faíscas criativas, de lampejos excepcionais, que volta e meia encontram a primazia; aqui, isso ocorre em “I Could Not Shift The Shadow”, na voz de Nick Cave, em um dos momentos mais bonitos e tristes que a música poderia proporcionar em 2014.

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Especia – GUSTO (2014)

Você sabe o que é city pop? Não se preocupe, eu também não sabia até conhecer esse divertido GUSTO, primeiro álbum de estúdio das japonesas do Especia, uma típica girl band asiática, dessas que brotam aos montes na terra do sol nascente. Bem, eu não conhecia em termos, afinal a estética desse que… Não sei se realmente posso chamar de gênero, ou cena da música japonesa, é bastante característica ao ouvinte mais habituado à música pop – não só asiática. Tendo sua gênese ainda nos anos 70, o city pop é como aquelas tradicionais bandas AOR, irresistíveis, com melodias grudentas e de fácil assimilação, onde volta e meia, depois da primeira audição, você já se pega cantarolando o refrão sem ao menos perceber.

No entanto, o que difere o city pop das tradicionais bandas de album-oriented rock, são as particularidades que são aqui expostas, sendo o smooth-jazz, o funk, e algo recentemente redescoberto pela música pop: boogie. GUSTO ainda brinca com o presente e passado, nesse jogo temporal, ao fazer uma interessante colisão da história da música smooth, a tradicional, e a música smooth contemporânea, sob a forma do famigerado vaporwave. Criativo e divertido, ligando passado e presente em um disco pop, GUSTO certamente está entre os melhores discos do gênero em 2014.

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Odeya Nini – Vougheauxyice (voice) (2014)

Vocalista e compositora norte-americana, Odeya Nini segue os passos de artistas que fazem de sua voz um instrumento a mais no campo musical, figuras proeminentes e já consagradas como Diamanda Galás e Meredith Monk, essa última que inclusive Odeya já trabalhou conjuntamente, em colaboração aos inúmeros projetos artísticos da autora do excepcional Dolmen Music, uma das mais bonitas peças contemporâneas da música clássica. A  exemplo de Monk, Odeya utiliza-se de sua extensa técnica vocal para exprimir a comunicação que existe entre a voz e a linguagem corporal, o diálogo interno onde não há interferência do material, apesar de aqui alguns elementos eletroacústicos quebrarem, volta e meia, essa expressão musico-solitária de Nini, onde muitas vezes a artista se sai melhor ao equilibrar momentos intensos, como os de Galás, e angelicais-desfigurados, como os de Monk.

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The Black Keys – Turn Blue (2014)

Longe de ser o desastre que os mais exagerados e adeptos do ódio-comum a bandas indie hype estão proferindo por aí, porém igualmente distante de um trabalho mais impactante do grupo, esse novo disco do duo norte-americano The Black Keys se apresenta, na verdade, como um registro correto, carregando consigo um apanhado mais leve de canções em comparação ao restante da discografia da banda, uma aposta mais sensorial do que, digamos… Roqueira (?), apesar dos momentos mais característicos blues rock ainda existirem aqui em tímidas passagens que o grupo proporciona. Turn Blue também evidencia para o Dan Auerbach enquanto produtor, aqui dividindo o trabalho com o sempre requisitado Danger Mouse.

Em inúmeras canções, o clima psicodélico desértico aponta para o que Auerbach vêm buscando musicalmente nesse aparente novo Black Keys, e que reflete gradualmente em sua atuação como produtor, só escutar Ultraviolence, por exemplo, novo álbum de Lana Del Rey. Algumas canções guardam em si momentos extremamente inspirados e, ao mesmo tempo, mornos e apagados, tudo em um mesmo intervalo. Um exemplo é a própria faixa-título, que possui um prólogo imersivo, com um senso melódico certeiro como poucos, mas que parece desandar em determinado momento da canção, não por completo, nada que irrite muito, mas ainda assim fica aquela sensação de fuga na curva, de capotagem, apesar de no fim o resultado ser mais positivo do que negativo.

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Weezer – Everything Will Be Alright in the End (2014)

Os fãs mais saudosos dos tempos de “álbum azul” e Pinkerton adoraram, a crítica, por sua vez, como há muito tempo não era com o Weezer, foi imensamente benevolente com o novo trabalho da banda, no entanto, nada, definitivamente nada me fez gostar desse novo disco do Rivers Cuomo e sua trupe de nerds  quarentões, não ao menos com o tamanho exagero que presenciei por aí. Exagero que também reflete na obra de Cuomo, já que Everything Will Be Alright in the End é absurdamente exaustivo, possui refrões e mais refrões que tentam, a todo instante, grudar nos nossos ouvidos, mas que só consegue machucá-los violentamente, o disco também possui solos de guitarra atrás de solos de guitarra, de um modo irritante, buscando uma extasia que nunca chega, que jamais encontra a concórdia. O disco termina sob uma pretensão nociva e megalomaníaca que já parecia morta no quasi-inexistente Songs from the Black Hole, projeto que nunca se concretizou oficialmente, pois o novo-velho Weezer, em tentativa pífia de retorno, se sai pior que o Weezer pop de outrora (ontem) e que tantos se queixavam. Não, Rivers Cuomo, parece que no fim nada acabou bem para a sua banda.

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Publicado às 28/10/2014 por em Drops Review, Música e marcado , , , , , , .
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