Papel Cult

Criolo – Convoque seu Buda (2014)

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A minha precoce previsão se concretizou, porém com menos força, é verdade. Até porque o disco está muito, mas muito aquém do desastre que a princípio eu idealizei; no entanto, este novo álbum de estúdio do Criolo, um dos nomes mais badalados que o hip-hop nacional teve nos últimos anos, ainda segue a elucidação que expus sobre a derrocada artística que o rapper vem sustentando em seu momento pós-Nó Na Orelha (2011). Como dito anteriormente, em minha resenha da faixa homônima ao disco, Kleber Cavalcante tem se afeiçoado gradativamente de sua figura irrisória, ele percebeu que o jogo dá certo, e pelo que consta não tem muita vergonha disso, o senso crítico de Criolo esbarra na própria figura narciso-bobalhona que habita a sua carcaça, um boneco com ares de sábio, que discursa para uma plateia de bonecos disposta a mergulhar na historieta desse pregador sábio-bobalhão, o discurso é a parte mais importante de tudo, o entusiasmo persuasivo ganha aplausos ardorosos do público-discípulo, esse último já esbaldado com o espelho ideológico de um cara que expele símbolos, que podem (ou não) ter muito contexto ou capacidade inteligíveis. Afinal, o que importa mesmo é acertar o alvo, Criolo sabe disso, e sabe muito bem, como poucos da música brasileira atual.

Intercalando assuntos contemporâneos, momentos que estão na roda do debate político atual, seja de modo impensado ou não, como o problema da falta de água recente em São Paulo, geringonças high tech, tudo isso alinhado a tópicos já mais remastigados pela história da música brasileira de “cunho social”, Criolo sabe como escolher o campo onde pregar o seu ideal de porta-voz da classe dos sofredores e oprimidos, ele sente necessidade disso, é o arquétipo simplista da música-sinônimo de qualidade em seu mundo à parte, basicamente por isso, o de música crítica acima de tudo, que “se importa” sem nunca dar descanso. Ora, mas não importa a força ou como essa oração é estabelecida, a comoção sobrepõe o valor artístico da obra, quando não o deveria ser. Mas aqui isso ocorre, e de modo excessivamente elevado; não obstante, seria igualmente desonesto dizer que Criolo sobrevive apenas desse prisma populista em sua música, afinal, também existem êxitos fora dessa abordagem em Convoque seu Buda, essencialmente quando Kleber abandona um pouco o malabarismo espalhafatoso, auto-satírico, e assume um tom (ainda de deboche), mas utilizando-se de um procedimento melhor elaborado, eu diria até mesmo de escárnio.

Curioso como é perfeitamente identificável essa discordância na abordagem de Kleber, sob os dois exemplos citados anteriormente, só que apenas em um exemplo do álbum: a boa, apesar dos pesares, “Cartão de Visita”. Na terceira faixa do disco, a produção de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral consegue ser primorosa como poucas vezes é em Convoque seu Buda, a lembrar a excelente “Subirusdoistiozin”, um dos melhores momentos da dupla (e de Criolo) em Nó Na Orelha. Espantando qualquer má impressão deixada pela faixa-título e o seu refrão vexatório, a dupla, aqui, acerta em cheio com um cuidado primoroso junto à Tulipa Ruiz, que introduz a faixa ao ouvinte do melhor modo possível. Pega, funciona. E como funciona, ignoro até mesmo a piadela com Lázaro Ramos. Criolo, por sua vez, também está ótimo, impagável com um jeitão típico de trovador de maldizer, cantarolando todo libertino, mordaz, sob a personificação do que parece uma pessoa expondo as qualidades de um serviço de entrega a uma outro pessoa, ou talvez um grupo, do qual ele certamente chamaria de “classe burguesa”. Ora, o Criolo de verborragia fácil e bobona ainda é nitidamente identificável aqui, mas a sua atuação é inegavelmente outra, incrível como há diferença quando sua abordagem apenas difere dos outros exemplos, no próprio álbum. Criolo apenas muda o enfoque, o tom, agora de acordo com sua figura risível. Melhor: é a auto-paródia que finalmente encontra-se voluntária. Um feito, de longe o melhor momento do disco.

Criolo também se sai melhor quando deságua no que mais parece um Caetano Veloso menor, o momento que dividiu com o compositor baiano, no VMB, cantando “Não Existe Amor em SP”, parece ao menos ter feito bem ao rapaz. Em algumas passagens, como acontece em “Casa de Papelão”, sob uma estética afro-jazz muito bem regida, Criolo enfim acerta o seu palavreado, pois agora não há mais símbolos soltos como de costume, tentativas de gracejo aqui e ali, neologismos e criações de outro mundo que, em essência, não dialogam com nada, só regozijam um ego tímido, porque me parece o tipo de pessoa que não pode ter ego exposto. Mas tem, e muito. Kleber cria uma canção poética, básica, sem muitos anseios, o momento em spoken word também ajuda. Segunda melhor passagem do disco. Momento que atinge, junto com “Cartão de Visita”, os poucos clarões de lucidez criativa que Convoque seu Buda possui, pois nem mesmo Juçara Marçal se destaca no álbum, fechando-o de forma apagada, em uma canção que não funciona muito bem como epílogo. Termina, apagam-se as luzes, mas o espetáculo (ou stand-up comedy, na maioria das vezes), dá a impressão de continuar após cortinas abaixadas. Fica a sensação dúbia de querer ou não mais daquilo.

“Duas de Cinco” sintetiza igualmente o que coloquei sobre “Cartão de Visita”, e dá para estabelecer bem o que me incomoda no que Criolo tem se transformado, a diferença, porém, é que aqui Kleber assume a persona patético-involuntária (novamente), e que lhe é tão característica, sujeito da presunção populóide, mas que ironicamente só atinge uma classe, essa mesma classe que o sustenta e dá voz, permitindo-lhe erros e acertos que dividem o mesmo corpo, a mesma canção. Convoque seu Buda não é de todo uma fatalidade, mas certamente não me precipitei com a faixa homônima, pois continua uma decepção para mim, longe de qualquer primazia, longe de Nó Na Orelha, apesar de esporádicos bons momentos. É um disco que agrada os ouvidos daqueles que sempre esperam sentados o que Criolo tem a dizer, ou não-dizer, indo da percepção de cada ouvinte; assim como igualmente irrita os que não conseguem mais conter o embaraço diante do que parece um humor inconsciente de Kleber. Me encontro no meio desses, ainda quero ouvi-lo, mas já vou esperando com o rosto completamente rosado de vergonha, suando frio, expressões de preocupação e desconforto… No mais, nessa proposta, Convoque seu Buda seria, sei lá… Um leite tipo D+ na escala de leites, talvez. Talvez um dia Lázaro nos ajude a entender.

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Publicado às 06/11/2014 por em Música, Resenhas e marcado , .
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