Papel Cult

Faixa: Rico Dalasam – Aceite-C

queer rap dá os primeiros passos no Brasil. Para quem não sabe, queer rap é o que podemos chamar de uma nova cena de artistas homossexuais que surgiu, de uns tempos pra cá, no mundo do rap e do hip-hop, possuindo uma gênese já existente desde o início dos anos 90, basicamente em movimentos underground da época. O que ocorre agora é uma espécie de retorno, com mais força e espaço em uma nova cena alternativa. Ok, quem acompanha música internacional certamente já sabe que isso não é novidade alguma em terras estrangeiras, inúmeros artistas gays já deram as caras e possuem relativo destaque no meio musical, nomes como Le1f e Mykki Blanco, para citar bons exemplos, já são figuras carimbadas em publicações famosas como Pitchfork e Rolling Stone; no entanto, o reconhecimento desses artistas vai muito além do simples fato deles serem homossexuais em um gênero que, volta e meia, oscila entre a música de protesto e o convite ao discurso de intolerância, e esse é um ponto importante a ser ressaltado aqui, talvez o que faz de Rico Dalasam, hoje, algo realmente digno de atenção, esteja muito mais ligado ao seu caso de ineditismo do que qualquer outro valor relacionado à qualidade de sua obra, por mais que o rapaz, aqui, ainda nos mostre espasmos de talento genuíno.

Por isso, o que escutamos neste primeiro single, talvez passe muito mais a sensação de compadecimento pelo espetáculo construído, involuntariamente, no embrulho vistoso e transgressor, do que propriamente nas reais virtudes de seu idealizador. Rico, de certo modo, me faz relembrar o recente texto que escrevi, no início do ano passado, onde procurei explicar os motivos que me levam a crer que o funk carioca (agora eu incluiria o rap), não só de hoje, pode ser considerado como a música pop predominante no Brasil; e não somente isso, o rapaz também me transmite um ideal popista semelhante ao que expus no texto, quando falo da cantora Ludmilla, em sua nova fase, repaginada e nos moldes do pop global, assim como também remete ao potencial de exportação que as meninas do Pearls Negras possuem, ou mesmo em casos como os de Naldo e Anitta, sendo esses em menor escala.

O que Rico nos mostra aqui é o que há de mais vendido na história da música nacional, em seu sentido literal. É aquela velha receita batida e brasilianista, a introdução não deixa mentir: é música feita pra fora, pra inglês ver. Ora, não há nada de errado nisso, só não sei muito bem se fará sucesso por aqui, até porque, pelo exposto, não possui força para tal coisa, e mesmo se possuísse, não é algo muito digno hoje em dia, em tempos de Projota e Cone Crew Diretoria. No entanto, posso (e quero) estar enganado; afinal, apesar de sua música não ser lá um manjar do que há de melhor no pop (nacional e internacional), ela certamente nos mostra o que pode surgir de efetivamente bom em um futuro próximo. É o que espero. Pois Rico Dalasam surge como se fosse algo novo. Não é. Trás consigo uma fórmula já relativamente difusa, mas que ainda parece estranhar aos olhos brasileiros. Certo. Como dito no início, é o queer rap que, enfim, encontra terras tropicalistas, ainda que em sua fórmula mais anêmica e embrionária. Pode e deve evoluir.

Ficha

Artista: Rico Dalasam

Ano: 2014

Álbum: TBA

Origem: Brasil

Gênero: Pop Rap

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 23/01/2015 por em Faixas, Música e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: