Papel Cult

Recomendado: The Pop Group

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Com apenas dois álbuns de estúdio lançados em toda sua carreira, o Pop Group me parece mais um daqueles casos na história da música onde não consigo decidir se é melhor uma banda já consagrada, porém ainda criativa, lançando inúmeras coisas ao longo dos anos, porém suportando a ideia desses lançamentos serem, em sua maioria, medíocres ou ruins, como ocorre com grande parte das bandas que se sujeitam a isso, ou então um grupo consciente do tempo que possui na cena, do seu papel e convicções artísticas, podendo se dar a liberdade de retornar depois de quase 40 anos, tempo de completo vazio criativo, para então, somente agora, entregar uma outra obra-prima que compense todo esse lapso produtivo. Bem, talvez fique com a segunda alternativa diante dos inúmeros exemplos negativos que temos hoje em dia. Em 2013, por exemplo, tivemos um caso semelhante (porém para o lado positivo) com o ícone do shoegaze, o My Bloody Valentine, no que resultou no ótimo MBV, disco que demorei um pouco para digerir, mas que com o tempo passei a apreciar em toda a sua beleza particular. Pois, a exemplo do MBV, os pioneiros do post-punk, aqui, fazem o mesmo caminho dos criadores de Loveless; no entanto, com alguns anos a mais de espera comparados ao da turma de Kevin Shields e Bilinda Butcher.

O Pop Group retorna depois de 35 anos (13 a mais que o My Bloody Valentine), e retorna bem, muito bem, na primazia de onde eles se romperam, em 1981. O que temos aqui é mais uma peça anárquica como os ingleses sempre gostaram de fazer, um monumento de fúria dançante, caótico… Punk funk se cruzam em um jogo de rebelião onde o discurso é um mero espetáculo, a seriedade não está nas palavras, aqui elas funcionam como pano de fundo, como atributo de uma festa confusa e tentadora, ao mesmo tempo em que o pandemônio no wave de algumas músicas carregam em si o corpo melódico, mais experimental, para um outro contexto, indo do free jazz ao dub, a exemplo dos primeiros álbuns da banda, dando um pseudo-suporte mais fechado e distante que o grupo possa transmitir no âmbito da música pop. Besteira, a diferença aqui me parece mais destacável, essencialmente, pelo fato dos integrantes estarem mais conectados à atualidade, Citizen Zombie dialoga esteticamente com o presente, os minutos que antecedem o seu desfecho, por exemplo, contando a partir da antepenúltima faixa, revelam um grupo que, apesar de estagnado durante esses vários anos, ainda assim soube acompanhar os avanços e novos mecanismos da música moderna, até mesmo se saindo de modo superior aos que continuaram em sua progressão histórica.

Acima de tudo, o Pop Group passa aqui um estudo sistemático do presente com o passado, a colaboração com Paul Epworth, produtor famoso de nomes conhecidos da música pop (Adele, Coldplay…) e também da cena indie (Crystal Castles, Bloc Party e afins), deixa mais do que evidente esse pacto com o contemporâneo, com o atual, tentando reerguer um grupo sob os olhares criteriosos da modernidade, algo que já é possível notar com fãs mais saudosos e puristas da banda, onde há uma certa resistência a esses rompimentos que o grupo se propôs – algo semelhante ao que o Pere Ubu sobre hoje. No entanto, o que escutamos nesse novo álbum do Pop Group não é motivo de rebaixamento ou de nostalgias bobas à parte, prevalecendo um sentimento mais político do que realmente artístico, até porque não parece haver mais o descontentamento com o conservadorismo do punk de outrora, ou de coisas semelhantes. Como bem disse Mark Stewart, líder do grupo, em determinado trecho de uma entrevista concedida, em 2014, ao site da Noisey:

“Quando o Pop Group se separou em 1981, a mensagem punk politicamente engajada já estava começando a enfraquecer. Mas, para Stewart, a ideia da política passou ao lado das barreiras quebradas entre o público e o artista: ‘O que as pessoas não entendem sobre o Pop Group é que ele é muito, muito, muito comemorativo. Nós começamos como um bando de companheiros tirando sarro um do outro.'”

Tirando como base essa citação de Stewart, é possível dizer que os vestígios do grupo ainda continuam aqui, afinal, acima de tudo, ainda trata-se de uma celebração. Como bem disse Stewart em entrevista à Noisey, o Pop Group sempre foi muito maior do que sua mensagem, a banda, antes de qualquer coisa, parece um festejo à liberdade, que consequentemente resulta no grande evento jocoso que é a sua discografia. Ou melhor, resumindo: em boa música, das melhores já feitas na história. Pois nitidamente renovados e mais evoluídos, almejando até mesmo um sucesso popular que possa finalmente dar razão ao nome que a banda possui, algo que nunca cogitaram ao longo da carreira, o primeiro grande comeback do ano passa longe de decepcionar, o Pop Group surge imponente, tirando sarro da própria imagem, como sempre tirou, e assim faz de Citizen Zombie um fortíssimo candidato a melhores discos de 2015. E o ano só está no começo.

Ficha

Artista: The Pop Group

Ano: 2015

Álbum: Citizen Zombie

Gênero: Post-punk/Experimental

Origem: Inglaterra

Onde escutar: Youtube

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Publicado às 31/01/2015 por em Música, Recomendado e marcado , , , .
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