Papel Cult

Schnellertollermeier – X (2015)

x2

A tríade baixo, bateria e guitarra certamente foi responsável por inúmeros grupos excepcionais ao longo da história da música, essencialmente durante os anos 60 e 70, época de incontáveis bandas que, volta e meia, confrontavam as margens do que é possível estabelecer nesse contexto, abusando completamente dos limites impostos na simplicidade que os três instrumentos, sozinhos, transmitem. Bem, hoje em dia ainda temos ótimos representantes no campo desse atrevimento que possui a famosa composição clássica do rock. O trio suíço Schnellertollermeier, já com um álbum de estúdio no currículo, certamente é um desses novos nomes que transpassam a música além de sua capacidade habitual, o grupo, com nome digno de um trava-língua dos mais complicados, faz de X (seu novo disco) um exercício do que há de mais absurdo e violento na música instrumental contemporânea, levando o ouvinte a questionar, no instante de entrega ao álbum, de onde vem tamanha força que o power trio passa ao longo das sete pancadas instrumentais que o disco possui. X, acima de tudo, é um trabalho de imersão em fúria e caos, que se utiliza de sua grosseria para criar um dos maiores e mais brutais monumentos musicais que você seguramente escutará em 2015.

Sendo uma banda completamente instrumental, como exposto anteriormente, o Schnellertollermeier compensa a falta de vocais do álbum para buscar, na barbárie, na selvageria intensa da arte, a sua real comunicação direta. O que existe aqui é um desafio, que, por sua vez, transmite um pacto de entendimento entre o artista e o ouvinte, sendo esse acordo muito maior do que qualquer outro diálogo mais tradicional por meio de vocais. O que presenciamos em X é a sinergia na acepção mais primal e animalesca da música, na busca da cooperação que o álbum conduz, o consenso do mais forte, do arrebatamento, o resultado do que há no choque sensorial entre artista-ouvinte. abre com uma longa jornada com pouco mais de 20 minutos de duração, sob uma marcha tribal que vai, gradativamente, assumindo um corpo cru e monolítico, criando uma frágil linha entre o punk, a desordem, o caos… Com o jazz, a simetria, o aperfeiçoamento. Pois, nesse limite de extremos, a música do power trio suíço acaba criando um redemoinho de psicodelismo, isso sob o regimento do que mais parece ser uma batalha punk-jazz alçada em free improvisation, onde eventualmente acontecem pequenos intervalos, esporádicos, mais lentos e melódicos, passando uma não-distinção do que é realmente improvisado e coordenado.

Progressivamente o disco também parece alçar uma curiosa evolução estética, algo que aparenta ser próprio do processo de criação e concepção que a música possui; como dito anteriormente, a primeira faixa abre o álbum sob uma interpretação primitiva, quasi-tribal, num ode ritualístico que já convida o ouvinte para a sua proposta de entrega cerimonial. Aos poucos, no entanto, esse festejo rudimentar vai assumindo uma carne mais, digamos… Metalizada, robótica, em um transcurso de aparente desenvolvimento tecnológico, algo diferente de sua proposta inicial, mais humana, com veias e vísceras, dando um caráter singular a toda animosidade que o disco possui, representando um suposto embate entre esses processos, entre esses corpos distintos. Homem versus máquina, a brutalidade então é apresentada sobre duas facetas, o rosto mundano, concreto, no turbilhão noise terreno e material, e na visão mecânica, robotizada do math rock, no avant-prog mais maquinário e desumano.

O disco então vai seguindo nessa diretriz evolutiva, encontrando pelo caminho espasmos de delicadeza que se (con)fundem com grosseria e agressividade, até que, como todo ciclo, retorna à sua gênese profana, em uma ordem de eterno retorno. Por isso mesmo a última faixa do disco é um fato curioso no álbum, afinal, como dito, ela representa uma espécie de regresso, funcionando apenas como uma réplica da primeira e abusiva canção de 20 minutos; entretanto, essa cópia, ainda assim, me parece mais disforme do que a anterior, do que seu espelho. parte 2, como a chamo aqui, é mais debilitada com quase 14 minutos a menos do que a original, porém não menos bela, como se a banda na verdade tivesse se desgastado exaustivamente no primeiro percurso, a versão mais sinóptica da música transmite um significado um tanto simbólico, me parece uma tentativa falha de repetir esse trajeto sucessivamente, um trabalho pesado como o de Sísifo e a vastidão do absurdo. Sem descansos, sem afagos. O que escutamos aqui trata-se de um trabalho forte, árduo, tão poderoso e difícil quanto carregar uma enorme rocha montanha acima, solitário, mudo e incansavelmente, mesmo que ela role para o início inúmeras e inúmeras vezes, sob uma sentença infinita que mais parece não ter sentido, quando o sentido, por sua vez, é o próprio trajeto.

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Publicado às 03/02/2015 por em Música, Resenhas e marcado , , , .
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