Papel Cult

Blackwave: black metal mais… new wave?

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Faire un geste (2015)

Não sei muito bem o que pensar sobre essa banda, sobre esse álbum, sobre tudo que escuto aqui, a não ser que se trata de algo realmente interessante e distinto de quase tudo que escutei recentemente, algo que até mesmo me parece revitalizador em um subgênero do qual, gradualmente, tenho demostrado desânimo por conta de sua transformação em pastiche reprodutivo. Vamos lá, não sou um odiador do blackgaze, na realidade existem inúmeras bandas legais e ótimos discos em seu contexto; no entanto, me parece inegável que o famigerado subgênero da face negra do heavy metal venha se convertendo gradativamente em um gigantesco embuste de difícil digestão, ou melhor, de fácil digestão, de acordo com sua concepção cada vez mais normativa a se sustentar na representação inofensiva e que não condiz em nada com os primórdios do shoegaze, e, muito menos, com o black metal (tradicional e contemporâneo). Por conta disso, fico de fato animado quando encontro projetos como esse Triste L’Hiver, banda aparentemente de um homem só, que, mesmo fazendo parte da cena alternativa da qual possuo tamanha descrença, ainda assim nos alenta para algo novo, procurando um mecanismo distinto do modelo que já se encontra tão desgastado no meio.

Por mais que as referências aqui escutadas remetam a um suposto passado já vivenciado, utilizando-o como sustentáculo nos moldes de um dream pop um pouco mais, digamos… efusivo e contagiante, volta e meia lembrando a estética propositadamente enlatada dos anos oitenta com percussão artificial de bandas new wave e tudo mais, o que há aqui, acima de tudo, é uma grande preocupação em não cair no burlesco, no ridículo que a maioria dessas bandas se submete; afinal, o que escutamos nesse álbum me parece a junção do que tivemos de mais afamado (e picareta) nos últimos anos, em nichos internéticos e afins, com inúmeros outros segmentos da música alternativa dos anos noventa e oitenta. Expliquemos.

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Night of Years (2013)

Ok, a associação com o vaporwave talvez não seja tão evidente quanto em outros registros de música eletrônica que proliferaram aos montes de uns tempos pra cá, alavancados basicamente por publicações admiradoras de música estranha e blogs voltados para a cena alternativa; na verdade, fora a capa, que remete vagamente à estética kitsch tão particular do gênero com sua abordagem greco-low-tech, o que escutamos aqui me passa mais o ideal aglomerado das pistas de dança new wave, anos 80, tempos da falta de noção do ridículo, do bom senso, com guitarras barulhentas, na apatia e fúria adolescentes do shoegaze black metal, criando assim algo que facilmente poderia se confundir com uma piada de mau gosto, mas que felizmente não acontece aqui no ótimo registro que é esse Faire un geste, na execução de uma obra que mais se aproxima do profissionalismo, da seriedade, do que de qualquer outra coisa amadora – algo que não se espera muito de representantes do meio.

Pois, como exposto no início, não sei muito bem o que pensar sobre esse álbum, sobre essa banda, acima de tudo não sei o que esperar de tais coisas. Pode ser mais um pequeno espasmo de criatividade em um minúsculo espaço musical no Bandcamp? É possível. Pode ser mais um manifesto vazio que, por acaso, encontrou a concórdia em sua primeira investida, assim como inúmeros outros álbuns e bandas que surgem aos montes tentando criar algo de valor? Sim, também é possível. No entanto, essa banda também pode representar um novo começo, uma reformulação de algo que já encontra-se deitado, agonizando, moribundo à espera de seu ultimato. Eu realmente prefiro ter boas expectativas, crer na segunda opção e torcer para que, casualmente, uma trupe excêntrica à lá Tiny Mix Tapes consiga encontrar o grupo e propagá-lo aos quatro ventos, como sempre fazem com as mais diversas anomalias musicais que descobrem. O que, convenhamos, não é algo lá muito difícil de acontecer.

Ficha

Artista: Triste L’Hiver

Ano: 2015

Álbum: Faire un geste

Gênero: Blackgaze/Synthrock

Origem: EUA

Onde escutar: Bandcamp

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Publicado às 19/02/2015 por em Artigos, Música e marcado , , , .
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