Papel Cult

Recomendado: Anonymous 4 & Bruce Molsky

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Não é novidade alguma notar como o passado funciona como um porto seguro na hora do processo de criação, seja em qualquer meio artístico, é notório como o velho sempre torna-se novo, e consequentemente o novo assume o corpo datado num breve período temporal. Como dito, isso não é algo recente, ou mesmo exclusivo da música; o que vemos, na realidade, ocorre desde sempre, e nos seus inúmeros segmentos. Da música rupestre às bandas e gêneros contemporâneos, tudo teve o seu devido ponto de referência. Mesmo em um campo metafísico, ele sempre existiu. Seja na moda, no cinema, na pintura… em algum momento, o que é moderno, tornou-se (e torna-se) automaticamente obsoleto, o que vemos, lemos e escutamos possui um enorme gênio de fragilidade, de ruptura imediata, uma tendência natural ao efêmero, ainda mais sob o contexto vertiginoso que a música pop possui. Quando analisamos o discurso de Simon Reynolds, em seu tratado sobre o que ele chama de Retromania, isso obviamente sob o viés nocivo em relação ao vício que a música pop sofre/sofreu nos últimos anos, apontando para o seu possível esgotamento criativo, acabamos por deixar de lado toda a beleza que existe nesse regresso que coabita a natureza de estudo da música (e da arte), assim como o caráter de retorno que ela possui e de suas inúmeras possibilidades.

A mensagem de Reynolds, analisada pelo senso comum, acaba passando uma imagem desfavorável à música pop, um retrato que não me parece justo, pois sua ideia mata a graciosidade fabulosa que existe nessa viagem temporal em nome do movimento artístico. A música pop sempre foi o alvo central de todo o discurso retromaníaco; no entanto, a chamada música clássica, que também é pop (assunto para outro texto), passeia nesse trânsito profano meio que pelas brechas, quasi-irretocável. Afinal, isso não a afeta? O que há com a música clássica? Pergunta retórica. Não, não afeta. Não de modo substancial, não como identificamos no âmbito da música pop. O que ocorre na música clássica talvez seja justamente o contrário: a rejeição ao moderno, ao contemporâneo, acontece no contraste que existe entre a música pop, que busca no passado (também poderia ser clássico) o seu suporte criativo. A música clássica (grosso modo, lembrando sempre), por sua vez, funciona justamente de modo antagônico; ora, pois a mesma não busca coisa alguma, nunca buscou, ao menos não a representada e dignificada que conhecemos, esta sobrevive de sua própria gênese, numa espécie de autossuficiência, o que é submetido à busca pelo novo, não sob a conjuntura vanguardista-moderna, mas no conjunto pop-essência, pop digamos… integral, o pop do senso comum, esse acaba sendo sentenciado à displicência, aos poucos casos de êxito que se aplicam basicamente aos contornos, às sub-tags: é a música clássica não-integral tratada como adorno, enfeite.

Então, enquanto a música pop é reflexo do clássico, do passado, a música clássica é reflexo próprio; esse último que, a princípio, seria imutável pela suposta não popularidade, onde o reflexo distinto é menosprezado e resumido ao contexto do seu completo oposto pop1865: Songs of Hope and Home from the American Civil War (novo álbum de estúdio do quarteto feminino Anonymous 4, em parceria com o músico Bruce Molsky) faz um ligamento interessante com essa proposta, por ser um trabalho voltado às raízes da música folk norte americana (região dos Apalaches, em essência) com silhueta de música clássica; ou seja: é um embate entre o pop  e o clássico sob o aspecto da música country de raiz, isso com os retoques de sutileza sacrossanta no canto polifônico do quarteto Anonymous. O que escutamos aqui não seria algo próximo de um classical crossover, já que sua abordagem está focada nos dois passados, nos dois distintos, sendo popular à época, e que hoje também possui enorme apelo na roupagem moderna (country pop) e na alternativa (alt-country). O que se presencia nesse disco do Anonymous 4 é um curioso acordo que funciona como uma espécie de rito rotacional, algo como uma visita ao contexto da música old-time (dos Apalaches, como dito), realçada sob a tonalidade monástica da arte sacra.

Simon diz que a retromania seria reflexo de um capitalismo tardio, que a sua representação se estabelece quase que nos mesmos moldes econômicos ao supra-valorizar o retorno ao passado com reedições de discos e coletâneas, exaltação ao vintage e afins, que o passado seria um ponto de socorro, de equilíbrio na indústria da música pop, isso talvez nos seus piores momentos de maior vazio criativo (essa última é suposição minha). Talvez, mas discordo de Simon. Entretanto, como abordado no início do texto, o jornalista desmerece o fato de que a gênese artística, substancialmente, não parte do completo nada, ainda que não seja o apenas material. O que a retromania expõe basicamente é o grande boom tecnológico que sobrecarregou o contexto artístico pós-revolução tecnológica, no grande progresso dos meios de comunicação, que, à minha visão, colaborou a favor do processo competitivo na arte. Se antes (à visão de Reynolds) a música apresentava-se mais, digamos… distinta, preocupada com seu aspecto visionário, futurista etc., talvez seja porque os meios não colaboravam para a exibição da mediocridade que era igualmente latente.

Hoje, como podemos notar, a realidade é diferente. Justificar isso como a causa do empobrecimento da música pop me parece um tanto covarde e indevido; afinal, a pós-modernidade trouxe e transformou o afunilamento artístico em algo muito maior, um aparato digno e que nos deu a perspectiva de admiração acima do trivial, através dessa epidemia de culturas inter-relacionadas, de tudo que parecia viver às sombras até o testemunho (mesmo que tardio) de quem fora injustamente esquecido em outros tempos. Retornar ao passado não me parece condenável, mas apenas um lembrete de que hoje (obviamente) isso nos é possível. Possibilidade e realidade, com melhores meios e alternativas. É a mesmíssima situação de outrora, porém sob a nutrição de outros utensílios. O interessante é saber o que podemos tirar disso tudo, do quão rico o processo se torna no embate de tempos e conhecimento distintos, com o excesso positivo de informação, algo que percebo de forma sublime e arrebatadora nesse novo disco do Anonymous 4 em parceria com o músico Bruce Molsky. A síntese é identificar a tamanha fraqueza de uma afirmação como “the future is out there for pop”, quando não existe mais “out there”.

Ficha

Artista: Anonymous 4 & Bruce Molsky

Ano: 2015

Álbum: 1865: Songs of Hope and Home from the American Civil War

Gênero: Música Clássica, Country Tradicional

Origem: EUA

Onde escutar: Spotify

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Publicado às 01/05/2015 por em Música, Recomendado e marcado , , .
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