Papel Cult

O muro de Europa Berlin

P1000390-2014-02-24-à-17-17-01

Europa Berlin, 2015

Chegamos a Berlim, finalmente! Segundo capítulo do que classifico como a “Trilogia Europa” da Orchestre National De Jazz. Ok, uma recapitulação rápida do processo para não ficarmos perdidos. Depois da incrível (e longa) primeira jornada, que por sua vez teve como ponto de partida a capital francesa, no excelente Europa Paris, um dos melhores discos do ano passado, o grupo francês ONJazz, sob o comando de Olivier Benoit, atual diretor artístico do projeto, continua o seu belo experimento itinerário de percorrer três grandes cidades da Europa, buscando representar nesse roteiro, entre outras coisas, o espírito e ambiente da população europeia, assim como a essência histórica e social de cada um desses pontos turísticos, sendo isso tudo através de um trabalho minucioso e extremamente delicado, com arranjos e composições inéditas, todas assinadas por Benoit. Berlim é o segundo passo dessa viagem, a segunda estação a ser explorada nessa trilha sensorial que provavelmente encontrará o seu término na cidade de Roma, em 2016.

Antes de tudo, Europa Berlin também me parece contextualizar o urbano, como em Europa Paris, apesar do foco, aqui, ir um pouco além, o que explico mais à frente. As ruas, as pessoas, os costumes e belezas que passam desapercebidas do olhar distraído de um turista no meio da multidão, em Berlin, ainda possuem destaque nessa nova abordagem, assim como as curiosidades que essas metrópoles proporcionam aos turistas ou mesmo aos nativos que se deixam escapar dos pequenos fragmentos e traços de beleza no cotidiano europeu, algo que também abordei no texto de Europa Paris. A exemplo da gênese do produto (Europa Paris), Berlin também carrega consigo um frescor mundano, da beleza comum em sua melodia; no entanto, os traços estilísticos, a jovialidade, diferente do evidenciado na capital francesa, passa por Berlin, em certos momentos, de modo menos atormentado e mais, digamos… suave do que em Paris; o que me parece estranhamente irônico diante do senso comum criado por essas metrópoles, como se Benoit quisesse nos mostrar justamente uma face desconhecida da cidade, um lado obscurecido, o suposto contraste do real; daí a escolha da capa (foto exposta logo acima) me passa essa representação extremamente certeira na tentativa de explicitar o comportamento pacato e distinto na visão de Benoit, sendo um local menos badalado, menos dinâmico, no que parece ser uma fábrica ou indústria local.

Photo-ONJ-Yvinec-NB1

Orchestre National de Jazz, foto por Annabelle Tiaffay

É interessante essa relação sensorial com a arte da capa, pois de certa forma, como exposto, ela reflete musicalmente o que Europa Berlin tenta nos dizer de modo dissimulado, o que Benoit buscou explorar sob os vários aspectos políticos e culturais da capital alemã ao longo de sua história, e que retorna ao meu aditivo-diferencial exposto no início do texto, onde acaba se distanciando um pouco do pandemônio de carros, pessoas e passagens de ParisBerlin também faz uma abordagem mais mecânica de sua melodia, do seu corpo, que aqui se assume de forma robótica e industrializada, ainda que de certa forma se aproxime da rebelião, da maquinaria e avenidas parisienses, o objeto aqui exposto me parece muito mais elaborado e cauteloso. Como em tempos de Guerra Fria, Berlin é a divisa, a demonstração de uma batalha indireta, onde os meios se apresentam de forma perigosa, com força e competência, mas sem jamais atacar propriamente. Como exposto no próprio site do grupo, em tradução livre, podemos ter uma noção da representatividade da capital alemã nesse novo trabalho da ONJazz:

Mais do que nunca atento à arquitetura, que revela uma relação mais ou menos problemática do passado, o compositor, desta vez centrando seu trabalho sobre a história e a memória, inclui a capital alemã em suas formas, e deixa de exibir e apagar os vestígios. 

Uma estranha Berlim que ainda carrega em si as marcas de um símbolo do século XX e de todas as suas andanças, mas que aproveitou os restos desta longa história do estado, sempre onipresente, com um pouco mais de força e reunificação, seu desejo de liberdade e abertura ao mundo. Disponível em composições líricas densas, este retrato de Berlim examina as várias maneiras em que os alemães tiveram de enfrentar sua história recente.

Temos aqui o contraste da Berlim jovem, contemporânea, do eterno desejo de liberdade, com a Berlim de outrora, do passado ainda perceptível e igualmente jovem, que guarda vestígios da história representada sob os aspectos mais próximos que tivemos de uma ficção, de um período onde o medo imperava e o sentimento de dúvida era algo extremamente presente no cotidiano do povo alemão. A revolução (artística) de Benoit, no entanto, não poderia ser tão magnífica e melhor compreendida do que sob a estranha beleza aterrorizante que rodeia toda essa história, sob o olhar clássico com requintes de obra expressionista, de expressionismo alemão, de um trabalho acima de tudo desafiador. Benoit acerta mais uma vez, agora, além do retrato urbano, pessoal, também temos o retrato histórico e político. Conhecemos Paris, relembramos Berlim. Se tudo se confirmar, ano que vem estaremos em Roma! Todos de malas prontas, por favor.

Assista abaixo ao teaser de Europa Berlin:

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 17/05/2015 por em Artigos, Música e marcado , , , .
%d blogueiros gostam disto: