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Muse – Drones (2015)

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O Muse me parece uma peça solitária no quebra-cabeça da música pop, afinal, os seus semelhantes foram progressivamente desaparecendo ao longo do tempo; hoje, por conta disso, existem pouquíssimas bandas que se encaixem no perfil do trio inglês, poucos grupos dispostos a executar a proposta estranho-popularesca presente nos seus trabalhos, ou melhor, não só dispostos, mas que tenham tamanha força para reger o experimento da banda, um ato de busca no completo absurdo, no catastrófico, na sua real concepção de música pop. Pois sendo (até então) o mais extremo manifesto de romantismo e dramaticidade escutado em 2015, Drones de certa forma repete o histórico burlesco que os ingleses construíram ao longo de sua carreira, a mesma resposta fantasiosa e oposta ao equilíbrio clássico presente nos últimos álbuns da banda. Ode ao descomedido, purificação através da insistência, encenação plastificada, debruçada e completamente entregue no sedutor teatro da ilusão, o melhor do utopismo representativo da arte. Ora, a música pop é essencialmente isso: falsidade das emoções, atuação dos sentimentos e trejeitos mundanos. Ou seja: o irreal. O Muse faz (e sempre fez) isso, e muito bem por sinal, o grupo se sai como poucos no contexto assimétrico da arte popular; o jogo dramático de Bellamy, sob a pintura sinfônica espalhafatosa de seu regimento, na vastidão de solos viciosos de guitarra e arquitetura bombástica, acaba revigorando o que há de mais impactante no pesadelo trágico do mundo romântico, como exposto, no sentimentalismo acentuado, vociferando seu turbilhão no âmbito do atual e efêmero.

Mesmo assim, há quem considere o Muse uma banda inexistente, um espécime morto desde o ótimo Black Holes and Revelations. Discordo, na verdade o trio jamais esteve tão vivo e consciente quanto hoje, o Muse me passa a ideia de que a sua música continua sob a mesma proposta de outrora, a mesma overdose artística, buscando um êxtase contínuo e aparentemente impossível de ser alcançado, na exorbitância dos mais variados mecanismos e excessos megalomaníacos existentes no rock progressivo. Tenho pra mim que Bellamy e cia não se importam muito com o supostamente sério, o que porventura é respeitado ou possui qualquer tipo de chancela crítica. Não se importam mesmo, de modo distinto, eles certamente fariam um disco que seria celebrado pelos dois lados, pelos dois polos; mas não, a banda não quer isso, eles gostam é de música pop, música pop e direta, certeira, no senso comum da palavra. Pop pegajoso e contagiante.

Não é à toa que, nos últimos anos, a discografia da banda caminhou gradativamente num percurso que se assemelha ao de grandes bandas da época de 70 e 80, como Queen e Rush, referências óbvias do trio, seguindo uma linha que os dois grupos fizeram depois de grandes êxitos de crítica e público. O Queen foi aos poucos se descobrindo uma máquina incessante e igualmente exagerada de fazer pop, extrapolou do melhor jeito possível: criou e criou sem o menor pudor artístico. O Rush, por sua vez, se aventurou pelas ruelas da música eletrônica, assim como o Muse fez nos seus dois últimos lançamentosna realidade, o trio inglês seguiu justamente os dois caminhos, tanto o do Queen quanto o do Rush, a diferença é que, em Drones, eles resolveram deixar a música eletrônica um pouco de lado, funcionando apenas como um aditivo, sendo melhor executada em momentos menores.

Eu acho estranho cobrar do Muse o que eles faziam antigamente, como se em algum momento a banda tivesse seguido à arrisca um comportamento fiel, legítimo, afinal o trio sempre foi um vórtice incontrolável de emoções, de sonhos pomposos e extraordinariamente fantásticos; dessa forma, o Muse de hoje me parece um grupo muito mais autêntico justamente por isso, por elevar à enésima potência as suas reais convicções, os seus princípios e ideais, sempre da forma mais exacerbada possível, absolutamente sem receios e ligamentos estéticos. O que escutamos em Drones é uma banda livre, sem amarras críticas, o Muse nitidamente está fazendo o que quer, e do jeito que quer. Nada tão gratificante quanto isso. De qualquer forma, talvez o melhor exemplo que encontrei, e que reflete essa implicância, boba a meu ver, no desgosto pelo atual Muse, esteja no comentário de um usuário do fórum de música que frequento. Em determinado momento, ele diz:

Eu literalmente não consigo parar de rir, isso é realmente brilhante. Mas é meio triste que o Muse tenha sacrificado a “arte séria” em prol  da “arte ironicamente brilhante e super cativante”.

As aspas ficam por minha conta, deixo claro. Mas ok, vamos lá. o Muse entrega novamente uma obra monumental, um retrato auto-jocoso, porém não tolo, e que expõe as enormes possibilidades que só o exagero e o desprendimento artístico podem fornecer em qualquer processo de criação na arte, sendo dessa vez um espetáculo menos operístico, é verdade, e mais, digamos… básico, por mais que essa palavra definitivamente não conste no dicionário da banda. Apesar disso, como visto no comentário do usuário do fórum, o problema de Drones (e consequentemente do Muse) ainda parece existir no senso comum por conta dessa suposta ironia do grupo, no fato do trio ter deixado de lado a seriedade de outrora no decorrer de sua história. Ironia velada, talvez, uma trama conspiratória que envolve dinheiro e abandono artístico, arriscaria eu. Possivelmente. Bem, se levarmos em conta que até Mozart, à sua época, também não era lá muito levado a sério (arte e pessoa, obra e comportamento, cria e criador), talvez exista realmente todo um estranho fetiche em cima disso, no desejo “inteligente” de ser levado a sério, por mais chato que me pareça ser “sério”.

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Publicado às 03/06/2015 por em Música, Resenhas e marcado , , , .
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