Papel Cult

Recomendado: Zachariah Holte

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Jamie Stewart, principal mentor da banda californiana Xiu Xiu, o classificou como o dono do álbum mais intenso e assustador que ele escutou, não só esse ano, mas em uma década. Nas palavras do próprio músico, que não economizou elogios: “Bravest, most far out, intense, frightening record I have heard in a decade”, disse Stewart em sua conta no Twitter. Bem, Jamie não está louco. Acredite em mim, não mesmo. Na verdade ele não poderia estar mais correto, The History of Flesh é realmente tudo isso presente em suas palavras efusivas, trata-se de um manifesto de beleza, um complexo de insanidade que caminha lindamente em conjunto nesse submundo da internet. O que poderia ser somente mais um disco de um músico independente qualquer, espalhado pelo gigantesco universo do Bandcamp, acaba se revelando, como exposto por Jamie, uma obra perturbadora, seca e visceral em sua estética expressionista. Na crueza, na diretriz devastadora, sem rodeios e maiores pudores, History of Flesh é a arte como ela deve ser: livre.

Zachariah Holte se despe por completo: arte e realidade, carne e espirito. O que escutamos aqui é uma obra íntima, erótica e absurdamente dramática. Não é estranho notar como History of Flesh também poderia, facilmente, figurar na própria discografia do Xiu Xiu, são discursos parelhos, que se entendem, dialogam na escuridão, na sujeira, na plena desordem psicológica de um trabalho alçado na angústia e desespero mundano; mesmo assim, por mais que sejam personas congêneres, ao menos a princípio: ego, caráter, música e arte que se refletem. Zachariah acaba revelando-se de um modo mais delicado que o seu então apreciador e patrono, o lamento de Holte é um lamento igualmente furioso, é verdade, e que não foge à imagem de Stewart, mas a sua violência me parece uma sentimento ainda comedido, que se disfarça na alta educação estética que o músico possui, no encanto e potência de sua performance; ora sendo apenas músico e piano, e ora apenas passeando pelo mistério do homem e sua voz. O primórdio, a gênese artística. Nada além disso: a música a partir da não existência, do seu instrumento condicionado, do discurso. História da carne, como o título conduz. O lamento humano em sua força bruta. Puro, sem intermédios.

Por fim, o objetivo de Zachariah Holte me parece ser o de afastar o ouvinte, de removê-lo do centro, ele definitivamente quer rejeitar o espectador de alguma forma, para que então possa expor a sua real sentença. Isso me parece evidente, porém de duas formas, de dois modos rasteiros em um método de sedução imundo e autodestrutivo. A obra surge, somos atraídos pela suposta piada, pelo possível gracejo disfarçado de malícia. Encontramos a decepção, seguimos em frente. Segundo ato, segunda investida, a surpresa revela-se séria. O corpo do palhaço já não existe mais, ele está jogado no chão, agonizando, a fantasia é ilusória. Até a sua metade já estamos completamente entregues no monólogo suicida de Zachariah, no murmúrio de um ser por detrás da maquiagem, que se denuncia aos poucos, o véu da rebeldia e comédia acaba revelando-se o mais profundo envoltório de sofrimento e tristeza. Descobre-se então a segunda rejeição, no terceiro ato: a seriedade, o estorvo empático. O reconhecimento da agonia de Zacharian é, em si, um ato de tortura, não de compaixão. “Nós somos bonitos, nós somos bonitos”, assim ele termina o prólogo de sua obra. Uma afirmativa, certamente, que percorre todo o disco até o seu ultimato, afinal é a imagem que fica, a que vale, por mais que toda essa beleza seja apenas a sensação de solidão em um corpo despido e assustadoramente fragilizado.

Ficha

Artista: Zachariah Holte

Ano: 2015

Álbum: The History of Flesh

Gênero: Avant-folk, Experimental

Origem: EUA

Onde escutar: Bandcamp

3 comentários em “Recomendado: Zachariah Holte

  1. Anthony Chuchesta
    06/08/2015

    Nice Meme

    • Ramon Duarte
      06/08/2015

      Às vezes o /mu/ acerta.

  2. Pingback: Melhores discos de 2015 | Papel Cult

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Publicado às 16/07/2015 por em Música, Recomendado e marcado , , .
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