Papel Cult

Recomendado: Komara

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Debut homônimo daquele que as pequenas publicações já começam a tratar como um supergrupo, muito embora, na realidade, não seja lá tão “supergrupo” assim. Colocando no papel, as maiores estrelas da banda são, essencialmente, o baterista Pat Mastelotto (King Crimson) e o guitarrista Adam Jones (Tool), esse último que, por sua vez, nem mesmo atua como músico, sendo responsável apenas pela assinatura da belíssima arte da capa (esta que ilustra o post). Fora Pat e Adam, que não participa musicalmente, como exposto, os outros dois integrantes (trata-se de um power trio) são praticamente anônimos na cena: David Kollar (guitarra e baixo) tem projeto próprio, porém desconhecido, um álbum lançado em 2005 e também colabora como compositor de trilhas de filmes, já Paolo Raineri é trompetista membro de uma banda italiana chamada Junkfood. De todo modo, não seria surpresa se começarem a enaltecer o grupo por conta de falsas virtudes, até porque trata-se de algo corriqueiro e que acontece com a maioria desses quasi-supergrupos que volta e meia surgem (e somem) no mundo da música, resumindo-se a uma espécie de fuga ou brincadeira paralela de seus integrantes.

Não é à toa, como evidenciado, que grande parte dessas bandas caia rapidamente no esquecimento, ou nem mesmo cheguem a lançar algo de valor. Felizmente Komara não pertence a esse grupo, o trio, até mesmo pela imagem considerável que Pat possui, acaba concebendo uma força extra ao seu caráter, um valor fora do comum, esse que pode ser interpretado, à primeira vista, como um vigor real, algo capaz de gerar expectativas além das evidenciadas na superfície. O que os três músicos nos entregam aqui, sob uma blindagem clássica e impetuosa, ainda que moderna e ciente dos novos anseios presentes no rock progressivo, também acaba que, de certa forma, sucumbindo às minúcias de uma era moderna e cruel com seus precedentes, um período que exige, acima de tudo dos baluartes da música, algo que, muitas vezes, não sabem mais como conduzir fora de seu espetáculo particular, esse que se diluíra no tempo; no entanto, utilizando-se de uma maquinaria potente, um regimento quase que anti-humano, animalesco e vociferante, o trio se esquiva com sua excentricidade e fúria impetuosas.

Em momento algum o que a banda faz aqui desaba na omissão despretensiosa que poderia ser apenas mais uma pequena reunião de músicos já realizados, personagens de páginas amarelas que não sabem mais o que produzir artisticamente. Até porque não é o caso. Alinhados à evolução dos meios estéticos, de uma conexão com a realidade atual, e, sobretudo, carregando consigo a sabedoria dos grandes catedráticos, o trio deixa de lado qualquer sensação de esquecimento, assume um ufanismo benéfico, aqui o exagero existe sob a mais adequada das qualidades, na melhor das possibilidades em seu processo de criação. Indo contra tudo e todos, principalmente em desordem com o senso comum limitador, Komara sentencia o que há de soberano nos anseios da nova música experimental, do atual rock progressivo, o sentimento que fica é de que as coisas devem continuar desse jeito, de que novos álbuns devem surgir daqui pra frente, afinal tudo aponta para isso. Sendo desde já um clássico moderno, assim como fortíssimo candidato a disco do ano, Komara é o que a música pode gerar de mais extraordinário e fascinante em sua concepção atípica, em sua beleza deformada e incomum. Talvez seja uma obra que modifique você de diferentes maneiras, ou mesmo por completo. Isso certamente vai acontecer. Só lembre-se de, ao término, recolher os estilhaços de cérebro que ficarão espalhados pelo caminho.

Ficha

Artista: Komara

Ano: 2015

Álbum: Komara

Gênero: Avant-garde jazz, rock progressivo

Origem: Eslováquia

Onde escutar: Bandcamp

Um comentário em “Recomendado: Komara

  1. Pingback: Melhores discos de 2015 | Papel Cult

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Publicado às 21/08/2015 por em Música, Recomendado e marcado , , .
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