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O futuro da PC Music e do bubblegum bass

Hannah Diamond no videoclipe de

Hannah Diamond no videoclipe de “Hi”

Breve pensamento a respeito do último grande alarde de nicho que tivemos no submundo da música alternativa, isso desde, sei lá, o famigerado vaporwave. Alarde que, neste momento, entretanto, não parece mais tão de nicho assim. Explico. Em outubro desse ano, mais especificamente no dia 21, a PC Music, selo de música eletrônica que começou a ganhar popularidade lá pelo início e meados de 2014, sob uma fórmula alienígena e esquizofrênica da execrada EDM, acabou (ora vejam só!) sucumbindo aos anseios do mundo pop , e, semi-inesperadamente, assumiu uma parceria com a gigante Columbia Records. Não sei se a notícia passou completamente desapercebida por público e mídia, ou se só fui eu mesmo que estive um tanto desligado durante esse tempo, mas parece que o caso não gerou tanto barulho quanto deveria gerar, ao menos não diante do tamanho significado que ele representa no mundo da música contemporânea. Ora, não é só do futuro da gravadora (até então indie e alternativa) que estamos falando, mas sim da música eletrônica como um todo; afinal, sob o regimento da PC Music, o bubblegum bass foi gradativamente se consolidando como uma espécie de, não diria sátira, mas de resposta cínica (e eventualmente divertida, convenhamos) ao grande império e delírio da música eletrônica mainstream. 

Para alguns, essa parceria pode sugerir um abandono (?) dos princípios de outrora, para outros (ou quase ninguém, acredito eu) um deslocamento natural de algo que já carregava em si a essência do vestígio pop e viscoso, comum, sem conceito. Fico certamente com a segunda opção, penso comigo que o bubblegum bass surgiu como uma espécie de desculpa pós-irônica, típica do zeitgeist digital na era cibernética, no intuito de provocar aceitação, meio debochada; meio autêntica; meio nada; meio tudo. O alvo é ele, o grupo de pessoas que, certamente, não consome música eletrônica mainstream, na realidade a rejeita com todas as forças possíveis; afinal, diferente do bubblegum, a EDM não tem desculpa para tal execução, sendo, ironicamente, por conta disso, muito mais espontânea em seu não-compromisso com algo além do dissimulado. O que a gente acompanha aqui já me parece algo mais do que comum e que ocorre de tempos em tempos no mundo da música. Absolutamente nada de novo. Nessa guinada ao pop global, sem conceitos e muletas bobo-satíricas, a PC Music propõe uma expectativa e representação interessantes em relação ao momento que a cena mainstream experimenta, no aceitamento gradativo de segmentos antes negligenciados, na distinção, cada vez mais quebradiça, entre o alternativo e o popular, e na mudança de perspectiva a respeito do falseamento de gosto, que se apoia apenas em matéria, palavra e escárnio.

Portanto, essa união da PC Music com a Columbia me soa extremamente agradável em seu aspecto transformativo, pois, como exposto, já era um caminho previsto, ao menos para mim, desempenhando uma resposta natural ao pensamento raso e ilusório do academicismo. Hoje, por exemplo, Hannah Diamond (uma das figuras centrais do bubblegum bass) lançou seu novo single intitulado Hi. Apesar de ser uma boa canção, nos moldes do seu último lançamento (Every Night, divulgada em 2014), a curiosidade toda me parece mais centralizada no videoclipe, esse onde Hannah parece dialogar justamente sobre o assunto de transição que o selo enfrenta, sobre o processo evolutivo que a cena e sua então progenitora vem acompanhando com bastante cuidado. Já na jovialidade cativante tão característica da faixa, somos conduzidos numa espécie de saudação simples, Hannah é alçada do completo anonimato do seu quarto rosa-choque à imensidão de microfones e holofotes da indústria pop. Não é preciso dizer muita coisa depois disso, Hi é o reflexo desse progresso, é o marco transitório, teatralizada na surpresa alegre de Hannah ao conhecer alguém diante de um notebook, quando, em seguida, direciona seu olhar para a câmera. Feito. Da estrela alternativa para o ícone pop mainstream, agora, faltam poucos passos.

Assista ao clipe de Hi:

Um comentário em “O futuro da PC Music e do bubblegum bass

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Publicado às 02/11/2015 por em Artigos, Música e marcado , , , .
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