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A beleza salvará o mundo

Beauty Will Save the World (2015)

Beauty Will Save the World (2015)

“Qual é essa beleza que há-de salvar o mundo? Foi Kolia quem me disse. É cristão praticante? Kolia alega que o senhor se intitula cristão. Mychkine observou-o atentamente, mas esqueceu-se de lhe responder.”

Fiódor Dostoiévski, O idiota.

Com o esplendor do ser, o belo coloca o homem todo em uma espécie de conivência com o transcendente. Enquanto realidade metafísica o belo é também realidade religiosa, na medida em que se torna lugar cósmico de irradiação do divino. O valor metafísico da beleza, como também sua importância religiosa, está no fato dela ser mais do que um sinal ou uma alegoria. Ela “contém” a presença daquilo que simboliza. É o exemplo dos ícones e da cruz que revelam o mistério e a presença de Deus para além da madeira que lhes dá subsistência.

A experiência de fé se configura como uma relação com o inefável. Deus, que está além do mundo palpável, da realidade natural e sensível, não pode ser jamais capturado pelo nosso conhecimento. Essa inefabilidade, entretanto, não se traduz num silêncio absoluto. Na relação com Deus, o ser humano expressa na arte e na beleza a “presença” de Deus e sua glória. O ser humano é, ao mesmo tempo, uma totalidade espiritual e sensível em função da encarnação; os sentidos afinados percebem sensivelmente o invisível, ou melhor: o transsensível.

Os ritos religiosos expressam a beleza de seu significado. Sons, gestos e símbolos entrelaçam-se para constituir uma realidade maior, mais próxima do transcendente. A música quer o enlevo e procura agradar os ouvidos, as cores tendem ao descanso da mente, o incenso inebria o olfato, os símbolos enchem os olhos, o comer e o beber saciam a fome e a sede do bom paladar; o toque e o ósculo revelam ao tato uma sensação mística. Tudo concorre para apresentar, liturgicamente, o bom e o belo, expressões veladas do único e verdadeiro Belo e Bom. Para o teólogo oriental, tudo é virtualmente sagrado, pois tudo pode tornar-se sacro mediante a experiência do divino. Por outro lado, nada é profano e nem neutro, porque tudo se refere a Deus.

Deus e o homem assemelham-se, resta saber e discernir reconhecendo o lugar do criador e da criatura. “Deus vem ao nosso encontro: da ética ele faz a ascese da criação; da estética, a manifestação de sua beleza”¹². A contemplação, portanto, não estética, mas religiosa, revela-se como enamoramento de cada criatura. É evidente que não é na natureza que se situa a verdadeira Beleza, mas na epifania do transcendente que faz da natureza a irradiação do seu fogo divino inextinguível .

A experiência da contemplação da beleza divina, não é um êxtase que remete para fora do mundo, mas é a antecipação da transfiguração de todo o ser humano. A participação dos sentidos é um dos elementos mais surpreendentes. É nessa direção que a afirmação de Rubem Alves se sustenta: “Experiência mística não é ver seres de um outro mundo. É ver esse mundo iluminado pela beleza”¹³.

____________________________

¹²EVDOKIMOV,P.N., Op. cit. , 47

¹³ALVES,R. Fora da Beleza não há salvação. Revista Isto é, dezembro, 2000.

Fonte

Escute abaixo Beauty Will Save the World, novo álbum de estúdio (em mais de 20 anos) do grupo Revolutionary Army of the Infant Jesus.

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