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Piero Scaruffi e o scaruffismo

scaruffi

Piero Scaruffi

Tenho para mim que, toda pessoa que um dia resolveu investigar música além de sua superfície, de sua casca meramente reprodutiva de blogs sites de revistas, acabou esbarrando na figura de Piero Scaruffi. Pra quem não conhece, Scaruffi é um professor universitário italiano, radicado nos Estados Unidos, e que, por sua vez, ficou mais conhecido pelos seus escritos no âmbito cultural, sendo especialmente o mundo da música. Em seu site, o professor também tece vários comentários sobre os mais diversos assuntos, de política à literatura, alternando entre longos artigos e curtíssimas análises, porém sempre listando os elementos que considera os melhores em cada ramo.

Tive contato com a obra de Scaruffi quando ainda mantinha, com alguns amigos, um site sobre música (este que infelizmente já não existe mais). Acredito que o conheci da mesma forma que muitas outras pessoas o conheceram: sob uma leve camada de resistência misturada com ironia velada. Afinal, para um consumidor comum (e iniciante em música), a posição de Scaruffi pode causar uma certa repulsa ao fugir, digamos… do seu aspecto coletivo; um dos artigos mais famosos em seu site, por exemplo, é o que explica, em longos parágrafos, o motivo pelo qual considera Beatles o grupo mais superestimado na história da música.

nytimes

Scaruffi, em entrevista para o New York Times. 15 de outubro, 2006.

De qualquer forma, não é sobre o posicionamento de Scaruffi que pretendo falar aqui, esse que ainda considero um tanto metódico e rígido demais, e sim sobre essa relação de descoberta que leitores comuns acabam possuindo com os seus textos, numa visão mais amplificada e se sobressaindo relativamente ao fugir do raciocínio genérico de grande parte das grandes publicações culturais. Normalmente, se você sobrevive à primeira imagem que Scaruffi transmite (repulsa irônica, como exposto), a segunda reação, em sua maioria, é de adesão ao seu silogismo. Scaruffi tem uma capacidade enorme de afastar e ganhar mentes, formar seguidores que assumem os seus hábitos quase que no automático. Chamo esses seguidores de “scaruffistas”.

Falo isso porque já fui um. Hoje, no entanto, não sou mais – ainda que continuem me classificando esporadicamente. Não me considero mais um scaruffista, penso eu, por um simples fator estético e comportamental, a visão de Scaruffi sempre me passou um aspecto segmentado demais, isso sob a tutela física, material, de suas notas e palavras curtas. Há um certo nivelamento que me incomoda, uma espécie de falseamento de gosto que não partilho, na verdade combato e repudio.

Ainda que seja (ou possa ser) genuíno da parte de Scaruffi, isso se reflete em seus discípulos de modo mais intenso e degenerado. Explico melhor. No Rate Your Music (uma rede social sobre música), por exemplo, acompanho alguns seguidores/admiradores de Scaruffi, um deles segue tão, mas tão à risca o seu metodismo, que, basta Piero notificar algum álbum novo, para o seguidor rever o seu posicionamento a respeito. Um ato que se assemelha a subordinação, reverência mesmo. A real opinião do sujeito, na verdade, pouco importa, sendo a de Scaruffi o verdadeiro ultimato.

Scaruffi me foi importante por vários motivos, ainda o admiro pela enorme enciclopédia cultural (sobretudo musical) armazenada em seu site. Hoje o considero um relicário. De suas descobertas, muitas delas coincidem com as minhas, outras não. Várias revelam-se enormes e gratas surpresas, algumas revelam-se desapontamentos. É normal, é assim que funcionam hábitos congênitos e tangíveis, do contrário, revelam uma impostura dependente de seus leitores, tão nociva quanto a de seguidores de charts e revistas mainstream, da tão combatida música pop. A reprodução do alternativo, do segmentado e experimental, aqui, também é reprodução, e não traço de originalidade, como alguns pensam ser.

Pois hoje, para mim, as notas de Scaruffi são um mero detalhe, minúcias que pouco importam, na verdade. Hoje me interesso pela sua busca incessante em estudar música, pela curiosidade estarrecedora em se perder nos mais diversos gêneros, grupos e artistas (conhecidos e desconhecidos). Um belo ato de amor e devoção, por mais que os seus discípulos não consigam enxergar a real importância e fascínio dessa conduta. Scaruffistas, na realidade, estão preocupados demais em construir uma fantasia de vidro, para vestir e vangloriar no espelho, acabando por esconder todo o encanto que existe em torno dessa figura controversa, e o que de fato ela nos tem a oferecer.

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Publicado às 05/06/2016 por em Artigos, Música e marcado , , , , .

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