Papel Cult

O silêncio divino

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Nattvardsgästerna (1963)

Uma das inúmeras coisas que eu admiro no cinema do Ingmar Bergman é que, mesmo com todo o sentimento contrário que o autor sustentava em relação ao campo religioso, e consequentemente à figura divina, ele jamais abordou o assunto sob uma perspectiva superficial, grosseira, ou mesmo enraivecida diante dos seus problemas pessoais. Apesar de sua personalidade avessa ao tema, em grande parte resultado da rígida criação que seu pai (um pastor luterano) o dera quando criança, o que prevaleceu em sua obra sempre foi um sedutor semblante de dúvida, uma angústia distante… ora indiferente, e extremamente sereno, conflitante com o silêncio divino, ora em dúvida e temeroso pela árdua resposta do enigma da existência.

Bergman completaria 100 anos hoje, e diferente de alguns de seus seguidores mais coléricos e extravagantes (como os contemporâneos Lars von Trier e Michael Haneke), o autor de O sétimo selo buscou carregar consigo uma civilidade e respeito que percorreu praticamente quase que toda a sua obra artística. Seja de forma consciente ou não, Bergman parecia compreender a ótica equivocada de um deus mundano, personificado e repleto de defeitos, mazelas características à própria figura humana. O cineasta talvez tenha buscado se desvirtuar em vida da presença religiosa que marcou tão profundamente a sua infância, a partir disso, possibilitou que seu espírito e obra ficassem livres de arquétipos, abraçando uma divindade transcendente e insondável, senão através de uma procura leal pela Verdade, no temor e tremor das ações e sentimentos, ou pela dor e angústia de não conseguir alcançá-la.

Poucos conseguiram reproduzir de forma tão bela e profunda esse dilema terreno, há uma luta constante no cinema de Bergman que busca a autocompreensão genuína, o obscuro entendimento do que nos rodeia, assim como há nas coisas mais importantes da vida. Esteja onde estiver, Bergman venceu a Morte.

“E ele foi deixado sozinho. Isto sim deve ter sido doloroso. Perceber que ninguém é capaz de compreender, e ser abandonado quando se precisa contar com alguém. Deve ser extremamente doloroso. Mas o pior ainda estava por vir. Quando Jesus foi suspenso na cruz e lá agonizando, ele gritou: Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?

Ele gritou o mais alto que pode, pensou que seu pai do céu o tinha abandonado. Acreditou que tudo que ele tinha pregado fora um engano. No momento antes de morrer, Cristo foi tomado pela dúvida. Certamente este deve ter sido seu maior sofrimento: O silêncio de Deus.”

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Publicado às 14/07/2018 por em Artigos, Cinema e marcado , , , , .
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